Bolsonaristas incentivam boicotes a comerciantes pro-Lula
“Me senti como um judeu na Alemanha dos anos 30”, diz ao DN Carlos, dono de uma barbearia em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, que prefere omitir o nome do estabelecimento e o apelido por razões de segurança. O profissional, de 41 anos, é um dos mais de 2100 comerciantes que se queixaram ao Ministério Público do Trabalho do Brasil na última semana por integrarem “listas negras” distribuídas por apoiantes de Flávio Bolsonaro a incentivar boicote a negócios de eleitores de Lula.
As listas, distribuídas em larga escala online, apelam ainda a despedimentos, ameaças e recusas de contratação. Nalguns casos, há políticos profissionais envolvidos na “caça às bruxas”. Até igrejas de padres "esquerdistas" vêm sendo boicotadas. Em paralelo, cresce o número de crianças alvo de bullying por terem apoiado, ou serem filhos de quem apoiou, o candidato do PT.
O Ministério Público do Trabalho, a Ordem dos Advogados do Brasil, associações comerciais, autoridades locais, Polícia Civil e parlamentares já pediram investigações. Eleitores de Lula já começaram, entretanto, a contra-atacar.
Situações em São Paulo
No estado de São Paulo, os municípios de Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Franca, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos, Cajuru, Monte Mor ou Ourinhos tiveram listas difundidas a apelar para não comprar produtos nos estabelecimentos visados ou participarem em ações de solidariedade envolvendo instituições citadas nas listas.
“É uma tentativa de intimidação gigantesca, porque a ideia dessa lista é fazer com que a pessoa que pensa diferente de você se cale e isso não pode ser aceito de forma alguma”, queixou-se Francisco Meghelli, proprietário de uma imobiliária na cidade de Serrana, de 44 mil habitantes e 330 km a norte de São Paulo, em reportagem da TV Globo.
“Até as próprias funcionárias da loja ficam com receio, uma recebeu um xingamento de um motoqueiro que estava passando”, acrescenta a dona de uma loja de venda de açaí na mesma cidade.
“É uma lista do ódio, onde as pessoas esquecem das famílias, dos colaboradores, de todo o mundo”, lamenta o proprietário de um bar de Ribeirão Preto, cidade de 750 mil habitantes em que Flávio venceu Lula por 58% a 42% dos votos.
Lawrence Waclawiack, conhecido como Lawrence Patriota, vice-prefeito de Pirassununga, incentivou uma lista, mas depois disse que as suas palavras haviam sido retiradas de contexto.
O procurador Carlos Cezar Barbosa, ouvido pela TV Globo, afirmou que quem propaga as listas incorre em crime de injúria “porque está se colocando de uma forma supremacista sobre aquele que está figurando na lista”. “Além disso, é objeto de indemnização por danos materiais”, acrescentou.
Noutros estados
Em Minas Gerais foram divulgados vídeos a incentivar empresários a despedir trabalhadores que tivessem votado no PT. Carlos Calazans, do Ministério do Trabalho local, declarou: “Não é só o assédio eleitoral, é assédio moral”.
No Espírito Santo, pelo menos seis cidades contam com “listas negras”. Em Cachoeiro de Itapemirim as listas também atingiram igrejas, sugerindo aos fiéis que deixassem de frequentar celebrações de determinados padres “esquerdistas”. Um advogado incluído numa lista lembrou que “a marcação, perseguição e tentativa de asfixia económica de cidadãos por suas convicções remete a episódios sombrios da humanidade” e invocou “o princípio constitucional do pluralismo”.
Um tatuador e uma advogada dizem ter sido incluídos nas listas sem terem sequer declarado apoio a Lula, relata o jornal A Gazeta. A associação terá resultado de características pessoais – o tatuador é negro e gay – ou relações familiares – irmãos da jurista assumiram voto no vencedor da eleição.
No Rio Grande do Sul as listas em oito cidades, incluindo a capital Porto Alegre, podem ter sido veiculadas por uma deputada estadual eleita, Ali Klemt (PL), segundo a Revista Movimento. “Patrões bolsonaristas estão demitindo e ameaçando os trabalhadores que votaram no Lula”, denunciou Luciana Genro, quarta classificada na eleição presidencial de 2014 pelo PSOL, partido à esquerda do PT de Lula.
Entre os alvos estão pequenos negócios mas também grandes empresas como os postos de combustíveis Ipiranga e o banco Itaú. “O Itaú reafirma o seu posicionamento estritamente apolítico e apartidário (...) manifestações de acionistas, conselheiros ou colaboradores refletem posições individuais”, reagiu a empresa.
No Rio de Janeiro, a deputada estadual India Armelau (PL) incentivou empregadores a despedir ou perseguir trabalhadores pelas convicções políticas.
Já a pizzaria Mangiare, de João Pessoa, na Paraíba, fez caminho inverso: publicou nas redes sociais uma mensagem afirmando que não queria clientes “esquerdistas, eleitores de larápios”, o que foi contestado por associações de defesa do consumidor com base na lei.
Nas escolas
A tensão chegou às escolas. Um estudante de 16 anos afirmou ter sofrido perseguição por apoiar Flávio e teve de mudar de escola entre a primeira e a segunda voltas.
Em Foz do Iguaçu, no Paraná, um aluno de 12 anos terá sido cercado e chamado de “petista [eleitor do PT] nojento”, segundo relato da mãe nas redes sociais.
Em São Paulo, outra mãe revelou que a filha, de seis anos, lhe contou que um colega “vai pegar o Lula e enfiar uma faca nele” e um pai denunciou nas redes sociais uma aluna que disse à filha que ela deveria ser violada sexualmente por apoiar Lula.
A psicóloga Vera Rocha Resende, doutora em Psicologia Clínica, alertou no jornal Folha de S. Paulo, para “as consequências da reprodução dos discursos de ódio dos adultos pelas crianças”.
O contra-ataque
Às listas com discriminação negativa, sucederam as listas com discriminação positiva. Reportagem do jornal Folha de S. Paulo dá conta de uma tabela em formato de "guia gastronómico" com o título "restaurantes cujos donos são petistas" e a legenda "frequente essas casas com gosto e estimule o trabalho de gente inteligente".
Em Ourinhos, no estado de São Paulo, a dona de um bordel citado numa das listas contra-atacou publicando o nome de 16 homens, casados e conservadores, que frequentam a casa.

