A Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes divulgou na segunda-feira à noite os vídeos dos depoimentos prestados à porta fechada por Hillary e Bill Clinton, na quinta e sexta-feira, respetivamente, no âmbito da investigação que está a ser feita pelos congressistas sobre Jeffrey Epstein. Após meses de um braço de ferro entre o casal democrata e a liderança republicana, os Clinton foram ouvidos não no Capitólio, em Washington, mas em Chappaqua, a cidade no estado de Nova Iorque onde vivem. Cada um deles falou durante cerca de quatro horas e meia e o DN partilha aqui alguns dos pontos dos testemunhos. Conversa durante um torneio de golfeBill Clinton disse aos congressistas da Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes que Donald Trump lhe contou que teve “grandes momentos” com Jeffrey Epstein antes de a relação entre o atual presidente e o criminoso sexual se ter deteriorado. De acordo com o vídeo divulgado na segunda-feira, o democrata testemunhou que Trump falou-lhe de Epstein num torneio de golfe num campo do republicano em 2002 ou 2003, ou seja, já depois de Clinton ter abandonado a Casa Branca.“De alguma forma, ele sabia que eu tinha voado na aeronave de Jeffrey Epstein”, contou o antigo presidente aos congressistas. “Ele disse: 'Sabes, tivemos grandes momentos juntos ao longo dos anos, mas desentendemo-nos por causa de um negócio imobiliário'.” Clinton acrescentou ainda que esta conversa não o levou a acreditar que Trump estivesse envolvido em qualquer coisa imprópria que envolvesse Epstein. Questionado se o atual presidente deveria ser obrigado a depor, Clinton respondeu: “Isso cabe a vocês decidir (…), mas ele conhecia-o bem.”Apresentado por Larry SummersNo seu depoimento, Bill Clinton afirmou ter sido apresentado a Epstein no início dos anos 2000 pelo seu antigo secretário do Tesouro Larry Summers, que o descreveu como uma “pessoa ávida de informação” que tinha contribuído com “vários milhões de dólares” para a investigação sobre o cérebro e que queria discutir economia e política, mas também financiar viagens no seu jato privado para Clinton e a sua equipa, numa altura em que o democrata estava a lançar uma iniciativa de combate à sida. Clinton testemunhou que fez quatro ou cinco viagens para a Ásia e África e uma para o norte da Europa no avião de Epstein, além de um voo da Florida para Nova Iorque. Disse que desconhecia os crimes de Epstein na altura e que passou a utilizar os serviços de outros doadores após 2003 - a primeira condenação de Epstein ocorreu em 2008. De recordar que Larry Summers manteve contacto com Epstein durante anos, incluindo até ao dia anterior à sua detenção por novas acusações federais de tráfico sexual em julho de 2019. Após a divulgação, em novembro, de emails que mostravam em detalhe a sua relação com Epstein, Summers foi proibido de liderar importantes associações de economia, deixou vários conselhos de administração, privados e públicos, e cancelou os seus compromissos de ensino para o semestre. Na semana passada, anunciou que ia renunciar a todos os seus cargos académicos e docentes na Universidade de Harvard, incluindo a sua cátedra universitária..Nada de atividades sexuais durante as viagensBill Clinton foi questionado sobre uma foto sua divulgada pelo Departamento de Justiça numa banheira de hidromassagem perto de uma mulher cujo rosto foi ocultado, mas negou qualquer atividades sexual relacionada com esse momento. “Fiquei na banheira de hidromassagem durante cinco minutos, ou algo do género, e depois levantei-me e fui dormir”, afirmou o antigo presidente dos EUA. “Não sei quem é esta pessoa”. A equipa que acompanhou Clinton no seu depoimento mostrou uma fotografia adicional que, segundo a descrição, ilustrava a área maior com uma piscina junto à banheira de hidromassagem, tendo o democrata dito acreditar que esta foi tirada no Brunei e que todos os que se encontravam na zona da piscina faziam parte da sua comitiva, que incluía Epstein, Ghislaine Maxwell e um grupo que trabalhava na sua iniciativa contra a sida. .A polémica foto divulgada por congressistaUm dos momentos mais dramáticos do depoimento de Hillary Clinton deu-se quando um dos seus advogados a informou de que tinha sido divulgada uma fotografia tirada no interior da sala, com a congressista republicana Lauren Boebert a admitir ser a autora da partilha, o que vai contra as regras, e que chegou às redes sociais através de um influenciador conservador.A advogada de Clinton lembrou que a democrata tinha pedido uma audiência pública, o que foi recusado pela comissão. “Chega para mim”, afirmou a antiga secretária de Estado, levantando-se da cadeira. “Se vocês continuarem a fazer isso, também acabou para mim. Podem considerar-me em desprezo até ao fim dos tempos”. Os trabalhos foram então interrompidos. “Consideramos isto inaceitável”, disse a advogada da antiga primeira-dama quando os trabalhos foram retomados. “Consideramos isto antiético e injusto. Esperamos que a audição seja conduzida de acordo com as regras e em conformidade com as expectativas”.De regresso à teoria do Pizzagate A mesma Lauren Boebert trouxe para a audição o Pizzagate - uma teoria da conspiração divulgada durante a campanha presidencial de 2016, na qual Hillary era candidata, e desmentida que alegava que uma rede de pedofilia ligada ao círculo próximo de Clinton operava numa pizaria em Washington -, fazendo várias perguntas à democrata sobre o tema, nomeadamente se a antiga candidata presidencial se tinha cruzado com alguns ficheiros de Jeffrey Epstein sobre o assunto. “Foi uma alegação ultrajante que acabou por prejudicar várias pessoas e levou um jovem desequilibrado a aparecer com a sua espingarda de assalto e a disparar sobre uma pizaria local. Não acredito que esteja sequer a mencionar isso.”, respondeu Hillary Clinton, acrescentando mais tarde: “Esperava muitas perguntas interessantes hoje, mas o Pizzagate não estava na minha lista”.."Não vi nada e não fiz nada de errado", diz Bill Clinton sobre Jeffrey Epstein.“Quero que a verdade venha à tona”. Hillary Clinton foi ouvida mais de seis horas sobre Jeffrey Epstein