Os Cruzados chamaram-lhe Beaufort, ou “belo forte”, e Saladino tomou-o em finais do século XII após um longo cerco, apenas para voltar às mãos dos Cruzados meio século depois. Até os Mamelucos, liderados pelo sultão al-Zahir Baybars, o conquistarem de vez. Chamada Qal’at al-Shaqif (algo como Castelo da Rocha Alta) pelos árabes, a fortaleza situada no sul do Líbano teve papel essencial nos anos 1970, quando a aviação israelita a bombardeou após ter sido usada pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) para dali disparar sobre Israel. E em 1982, foi palco de ferozes batalhas entre Israel, os combatentes palestinianos e os seus aliados libaneses. No final da guerra de 1982, Israel ocupou o castelo, só dali saindo em 2000. Mas ontem as forças israelitas voltaram a dominar este ponto estratégico. “Voltámos, mais forte do que nunca”, afirmou ontem o primeiro-ministro israelita, sublinhando que “ultrapassámos a barreira do medo. Estamos a tomar a iniciativa. Estamos a operar em todas as frentes - na Síria, em Gaza, no Líbano”. Numa mensagem em vídeo divulgada após a ocupação do castelo de Beaufort, Benjamin Netanyahu garantiu que a ocupação desta posição é “constitui “uma mudança radical na política que estamos a conduzir”. Esta movimentação permitiu às forças armadas de Israel (IDF, na sigla em inglês) avançar para além do rio Litani. Situado a cerca de 30 km da fronteira, este era antes visto como uma linha de demarcação. Esta é já a mais profunda incursão das IDF em território libanês em 26 anos. As forças israelitas anunciaram ter tomado posições a partir das quais o Hezbollah lançou ataques e rockets contra o norte de Israel.O chefe do governo israelita anunciou ainda: “Agora, a minha orientação é aprofundar e alargar o nosso domínio sobre as zonas que estavam sob o controlo do Hezbollah”. E disse ter dado ordens à IDF para “expandir as operações no Líbano”.Horas antes, as IDF já haviam alertado os residentes a sul do rio Zahrani para retirarem “Qualquer pessoa que se encontre nas proximidades de membros, instalações ou meios de combate do Hezbollah coloca a sua vida em risco”, disse um porta-voz.O aprofundar das operações terrestres de Israel no Líbano é mais uma machadada num cessar-fogo que, na prática, nunca saiu do papel. O acordo que entrou em vigor a 17 de abril criou a Linha de Defesa Avançada, que serve para delimitar a “zona de segurança” e a área sob ocupação militar israelita. Estende-se cerca de 10 km para dentro do território libanês, para lá da chamada Linha Azul, desenhada pela ONU em 2000 como linha de retirada de Israel e que marca a fronteira não oficial entre os dois países.Ora enquanto o gabinete de Netanyahu divulgava a gravação, o norte de Israel era alvo dos rockets do Hezbollah. As IDF anunciaram entretanto a morte de um militar atingido por um drone explosivo enviado pelo grupo xiita libanês, apoiado pelo Irão. Quatro outros soldados ficaram feridos no mesmo incidente. Ao anunciar a captura do castelo Beaufort, o ministro da Defesa de Israel recordou a batalha que as forças israelitas travaram há 44 anos para conquistar a fortaleza. E lembrou que a Brigada Golani, que nessa altura o ocupou, voltou agora a erguer ali a bandeira de Israel. Israel Katz explicou ainda que o castelo e a colina na qual se situa são localizações essenciais para as IDF protegerem as comunidades israelitas do outro lado da fronteira com o Líbano. O impasse nas negociações entre os EUA e o Irão criou um vazio que permitiu a Israel intensificar as suas operações no Líbano. As forças israelitas parecem estar agora a posicionar-se para um potencial cerco a Nabatieh, cidade que funciona como centro económico e coração cultural do sul do Líbano. O controlo das colinas circundantes facilitaria o domínio sobre grande parte do sul do Líbano e do vale de Bekaa, oferecendo uma grande vantagem tática..Israel avança no Líbano onde trégua é só no papel