Os negociadores dos EUA e do Irão chegaram a acordo sobre um memorando de entendimento de 60 dias para prolongar o cessar-fogo e iniciar negociações sobre o programa nuclear iraniano, permitindo a reabertura do Estreito de Ormuz. Mas ainda faltava a luz verde do presidente Donald Trump, sendo que Teerão não confirmou nada. A informação foi avançada pelo site de notícias norte-americano Axios e validada por outros media, mas a Casa Branca fugiu a uma confirmação formal, depois de mais uma noite em que houve violações do cessar-fogo. De acordo com o Axios, o memorando de entendimento que já terá sido acordado ainda na terça-feira (26 de maio) estipula que a navegação pelo Estreito de Ormuz será “sem restrições”, o que significa que não haverá cobrança de portagens nem pressão e que o Irão terá de remover todas as minas do estreito no prazo de 30 dias. “O bloqueio naval dos EUA também será suspenso, mas isso ocorrerá proporcionalmente à retoma da navegação comercial”, refere. O Irão compromete-se a não desenvolver uma arma nuclear (algo que sempre disse que não estava interessado em fazer), com ambos os lados a negociar como Teerão se irá livrar do que Trump apelida de “pó nuclear” - os 400 quilos de urânio altamente enriquecido que tem. Os EUA comprometem-se, por sua vez, a discutir o alívio das sanções e a libertação de bens iranianos congelados, ainda segundo o Axios.A notícia do avanço na diplomacia surge depois de mais uma madrugada de ataques cruzados. Depois de, na quarta-feira (27 de maio), Teerão ter acusado os EUA de violarem o cessar-fogo, quando atacaram o sul do país na noite de terça-feira alegadamente em “autodefesa”, esta quinta-feira (28 de maio) foi a vez de os norte-americanos acusarem os iranianos do mesmo. Segundo um comunicado do Comando Central dos EUA (CENTCOM, responsável pela região do Médio Oriente), pouco depois das 03h00 em Lisboa, “o Irão lançou um míssil balístico em direção ao Koweit, que foi intercetado com sucesso” pelas forças desse país.“Esta flagrante violação do cessar-fogo por parte do regime iraniano ocorreu horas depois de as forças iranianas terem lançado cinco drones de ataque unidirecional, que representavam uma clara ameaça dentro e nas proximidades do Estreito de Ormuz”, referiu o CENTCOM num comunicado nas redes sociais. “Todos os drones foram intercetados com sucesso pelas forças norte-americanas, que também impediram o lançamento de um sexto drone a partir de uma base de controlo terrestre iraniana em Bandar Abbas”, acrescentou.A televisão estatal iraniana alegou que os Guardas da Revolução, em retaliação, atacaram a base norte-americana no Koweit de onde terá sido lançado esse ataque. E que, mais cedo, tinham visado “quatro navios que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz sem coordenação com as forças de segurança”. A reabertura desta importante via marítima, por onde antes da guerra passava 20% do petróleo e do gás natural mundial, era um objetivos das negociações. Apesar de Trump alegar que não tinha pressa em fazer um acordo (e só após ser validado pelo presidente é que a Administração admite falar num acordo), aliados dizem que a pressão do aumento do preço dos combustíveis na economia norte-americana era insustentável - e o Irão também está desesperadamente a precisar de dinheiro.As constantes violações do cessar-fogo não parecem ter afetado o diálogo indireto entre EUA e Irão. O Paquistão, que tem servido de mediador, continua a insistir numa saída diplomática, com o chefe da diplomacia Ishaq Dar a ser esperado esta sexta-feira (29 de maio) em Washington, para uma reunião com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Segundo Islamabad, Dar vai reunir-se com Rubio “para analisar as relações bilaterais e trocar opiniões sobre os desenvolvimentos regionais e globais de interesse mútuo”.Israel ataca o LíbanoO artigo do Axios não faz qualquer referência à guerra entre Israel e o Hezbollah, no Líbano, sendo que até agora o Irão tem defendido que o cessar-fogo tem que ser total. Israel intensificou nos últimos dias os ataques contra o grupo xiita libanês, voltando a bombardear os arredores de Beirute (o que já não acontecia há três semanas) e em Tiro - neste após emitir ordens de evacuação. O Hezbollah, por seu lado, reivindicou vários ataques contra os militares israelitas. Segundo a imprensa de Israel, o alvo do ataque contra um edifício nos arredores da capital libanesa era Ali al-Husni, chefe da força de mísseis da Divisão Imam Hossein, uma milícia alinhada com o Hezbollah e o Irão. Ontem ainda não tinha sido confirmada a sua morte. Apesar do cessar-fogo mediado pelos EUA e anunciado a 16 de abril, Israel e ao Hezbollah continuam as trocas de tiros diárias, com Beirute a ser contudo poupada a pedido de Washington - só tinha sido bombardeada outra vez desde então, no início de maio, tendo sido morto um comandante. Mas o sul do Líbano não só continuou a ser atacado, como Israel ocupou uma faixa de terreno que se estende 10 quilómetros para lá da fronteira entre os dois países e destruiu várias localidades nessa zona. Esta semana, as operações terrestres já foram para lá da chamada Linha Amarela, estendendo-se até para lá do Rio Litani (a cerca de 30 quilómetros da fronteira).O primeiro-ministro libanês, o sunita Nawaf Salam, criticou os ataques, denunciando um “castigo coletivo” contra toda a população. “Nada justifica os contínuos ataques a Tiro e Nabatieh e a destruição dos seus marcos históricos, nem as constantes ameaças contra o nosso povo pacífico nestas regiões, nem os repetidos apelos para que abandonem as suas casas e os seus meios de subsistência”, escreveu no X. Estas ações “apenas reforçam a nossa determinação quanto à necessidade de um cessar-fogo imediato. E continuamos a procurar todo o apoio árabe e internacional para o conseguir”, afirmou.As negociações diretas entre Israel e o Líbano, que têm decorrido em Washington com a mediação dos EUA, deviam ter recomeçado esta quinta-feira (28 de maio) a nível técnico, esperando que se alargassem a nível político no início de junho. Mas após o intensificar das ações israelitas, não era certo que as negociações - que o Hezbollah rejeita - continuassem. .Há progressos, mas não acordo entre EUA e Irão. O que está em jogo no memorando de entendimento?.Nuclear e regime não mudaram em três meses de guerra, mas Irão ganhou um trunfo: Ormuz