O bombardeamento “limitado, proporcional e necessário de autodefesa” - segundo palavras do primeiro-ministro britânico Rishi Sunak - a alvos militares dos Houthis foi discutido de emergência no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, um dia depois deste órgão ter aprovado uma resolução a exigir o fim dos ataques dos rebeldes iemenitas aos navios em trânsito no Mar Vermelho. Os Houthis dizem estar a atacar navios com ligações a Israel em resposta à guerra deste país com o Hamas e prometem continuar a ofensiva, alargando-a aos navios de guerra dos Estados Unidos e Reino Unido, países que lideraram o ataque. Fizeram-no, aliás, horas depois, tendo disparado um míssil que falhou o alvo, um navio não identificado pelas forças britânicas. .Os receios de que este ataque acirre ainda mais as tensões na região levou o secretário-geral das Nações Unidas a reagir antes da reunião de emergência do Conselho de Segurança dedicado ao tema, a pedido da Rússia, que criticou o ataque da coligação. “O secretário-geral apela para todas as partes envolvidas evitarem uma escalada da situação no interesse da paz e da estabilidade no Mar Vermelho e em toda a região”, disse o porta-voz de António Guterres, Stéphane Dujarric, enquanto reconhecia que os ataques dos Houthis contra o transporte marítimo “não são aceitáveis, pois colocam em risco a segurança das cadeias de abastecimento globais”..Na mesma linha, os seis países árabes do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados, Koweit, Omã e Qatar) mostraram “extrema preocupação” e instaram os países ocidentais a se regerem pelo “autocontrolo”. Já o Egito, um dos mais afetados economicamente pelas ações de pirataria dos iemenitas, por causa do decréscimo de tráfego no canal do Suez, disse que já tinha alertado para o perigo de expansão do conflito na região e que a solução passa pelo cessar-fogo na guerra entre Israel e o Hamas. Refira-se ainda o governo do Iémen no exílio, que também mostrou “grande preocupação” com a escalada militar e responsabilizou os Houthis por “arrastarem o país para um cenário de confronto”. .É a segunda vez que os Estados Unidos atacam posições dos rebeldes xiitas, depois de o terem feito em 2016 na sequência de ataques a navios norte-americanos. Desta vez a paciência chegou ao fim na passagem de ano. No dia 1 de janeiro, após um ataque a um navio da Dinamarca, o presidente Joe Biden decidiu avançar com uma coligação internacional e deu instruções para os serviços militares escolherem os alvos no caso de se avançar para os ataques, conta o Washington Post. Dois dias depois, 13 países emitiram uma declaração conjunta em forma de ultimato: ou os Houthis param ou sofrem as consequências..Houve uma acalmia, mas os ataques voltaram e em força, na terça-feira, quando as forças norte-americanas (marinha e força aérea) abateram dois mísseis de cruzeiro antinavio, um míssil balístico antinavio e 18 drones de ataque contra navios mercantes. A paciência esgotou-se na Casa Branca e forças dos EUA e do Reino Unido, com apoio direto do Canadá, Austrália, Bahrein e Países Baixos atacaram mais de 70 alvos, entre radares, defesas aéreas, depósitos de munições e locais de lançamento. .“Estes ataques são uma resposta direta aos ataques sem precedentes dos Houthis contra embarcações marítimas internacionais no Mar Vermelho - incluindo o uso de mísseis balísticos antinavio pela primeira vez na história”, disse Biden em comunicado. “Não hesitarei em tomar outras medidas para proteger o nosso povo e o livre tráfego do comércio internacional, se necessário.”.No entanto, Washington quis deixar claro que não tem interesse em comprar uma nova guerra, seja com os rebeldes, seja com quem os apoia, o Irão. “Não estamos interessados numa guerra com o Iémen. Não estamos interessados num conflito de qualquer tipo”, disse o porta-voz da Casa Branca John Kirby. “Tudo o que o presidente tem feito é tentar evitar qualquer escalada do conflito, incluindo os ataques de ontem [anteontem] à noite.” .“Batalha além da imaginação” Indiferente às declarações dos norte-americanos, os Houthis declararam que todos os interesses dos EUA e do Reino Unido são alvos legítimos. Mais tarde, um alto dirigente do grupo, Ali al-Qahoum, prometeu não só uma retaliação, mas o contrário do pretendido pelos ataques. “A batalha será maior e além da imaginação e das expectativas dos americanos e dos britânicos”, disse..Já o Irão, que na ótica dos norte-americanos são os fornecedores dos mísseis a um país cuja população na sua esmagadora maioria passa fome, disse que os ataques “arbitrários” não terão “outro resultado senão alimentar a insegurança e a instabilidade na região”, bem como “desviar a atenção do mundo dos crimes” em Gaza, disse o porta-voz do MNE, Nasser Kanani. Também o Hamas, em guerra com Israel na Faixa de Gaza, afinou pelo mesmo diapasão..Para lá das questões militares e geopolíticas, este foco de instabilidade tem consequências imediatas na economia global, a recuperar da inflação induzida pela guerra na Ucrânia e das perturbações na cadeia logística geradas pela pandemia..De imediato, os fabricantes de automóveis Volvo e Tesla anunciaram a pausa na produção nas fábricas da Bélgica e Alemanha devido à falta de componentes. Outras empresas como a Ikea já anunciaram aos consumidores que se esperam atrasos, uma vez que o transporte via Cabo da Boa Esperança implica mais dez dias de viagem. Pelo canal do Suez, passagem do Mar Vermelho para o Mediterrâneo, passa 12% do comércio mundial..cesar.avo@dn.pt