Manifestação contra os ataques da coligação ocidental em Saná, a capital do Iémen controlada pelos rebeldes xiitas. EPA/YAHYA ARHAB
Manifestação contra os ataques da coligação ocidental em Saná, a capital do Iémen controlada pelos rebeldes xiitas. EPA/YAHYA ARHABEPA/YAHYA ARHAB

Ataque aos rebeldes apoiados pelo Irão ameaça abrir nova frente de guerra

Estados Unidos e Reino Unido dizem ter atacado alvos dos Houthis para pôr fim aos ataques aos navios mercantes, mas o grupo armado xiita promete responder ainda com mais violência.
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O bombardeamento “limitado, proporcional e necessário de autodefesa” - segundo palavras do primeiro-ministro britânico Rishi Sunak - a alvos militares dos Houthis foi discutido de emergência no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova Iorque, um dia depois deste órgão ter aprovado uma resolução a exigir o fim dos ataques dos rebeldes iemenitas aos navios em trânsito no Mar Vermelho. Os Houthis dizem estar a atacar navios com ligações a Israel em resposta à guerra deste país com o Hamas e prometem continuar a ofensiva, alargando-a aos navios de guerra dos Estados Unidos e Reino Unido, países que lideraram o ataque. Fizeram-no, aliás, horas depois, tendo disparado um míssil que falhou o alvo, um navio não identificado pelas forças britânicas. 

Os receios de que este ataque acirre ainda mais as tensões na região levou o secretário-geral das Nações Unidas a reagir antes da reunião de emergência do Conselho de Segurança dedicado ao tema, a pedido da Rússia, que criticou o ataque da coligação. “O secretário-geral apela para todas as partes envolvidas evitarem uma escalada da situação no interesse da paz e da estabilidade no Mar Vermelho e em toda a região”, disse o porta-voz de António Guterres, Stéphane Dujarric, enquanto reconhecia que os ataques dos Houthis contra o transporte marítimo “não são aceitáveis, pois colocam em risco a segurança das cadeias de abastecimento globais”.

Na mesma linha, os seis países árabes do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados, Koweit, Omã e Qatar) mostraram “extrema preocupação” e instaram os países ocidentais a se regerem pelo “autocontrolo”. Já o Egito, um dos mais afetados economicamente pelas ações de pirataria dos iemenitas, por causa do decréscimo de tráfego no canal do Suez, disse que já tinha alertado para o perigo de expansão do conflito na região e que a solução passa pelo cessar-fogo na guerra entre Israel e o Hamas. Refira-se ainda o governo do Iémen no exílio, que também mostrou “grande preocupação” com a escalada militar e responsabilizou os Houthis por “arrastarem o país para um cenário de confronto”. 

É a segunda vez que os Estados Unidos atacam posições dos rebeldes xiitas, depois de o terem feito em 2016 na sequência de ataques a navios norte-americanos. Desta vez a paciência chegou ao fim na passagem de ano. No dia 1 de janeiro, após um ataque a um navio da Dinamarca, o presidente Joe Biden decidiu avançar com uma coligação internacional e deu instruções para os serviços militares escolherem os alvos no caso de se avançar para os ataques, conta o Washington Post. Dois dias depois, 13 países emitiram uma declaração conjunta em forma de ultimato: ou os Houthis param ou sofrem as consequências.

Houve uma acalmia, mas os ataques voltaram e em força, na terça-feira, quando as forças norte-americanas (marinha e força aérea) abateram dois mísseis de cruzeiro antinavio, um míssil balístico antinavio e 18 drones de ataque contra navios mercantes. A paciência esgotou-se na Casa Branca e forças dos EUA e do Reino Unido, com apoio direto do Canadá, Austrália, Bahrein e Países Baixos atacaram mais de 70 alvos, entre radares, defesas aéreas, depósitos de munições e locais de lançamento. 

“Estes ataques são uma resposta direta aos ataques sem precedentes dos Houthis contra embarcações marítimas internacionais no Mar Vermelho - incluindo o uso de mísseis balísticos antinavio pela primeira vez na história”, disse Biden em comunicado. “Não hesitarei em tomar outras medidas para proteger o nosso povo e o livre tráfego do comércio internacional, se necessário.”

No entanto, Washington quis deixar claro que não tem interesse em comprar uma nova guerra, seja com os rebeldes, seja com quem os apoia, o Irão. “Não estamos interessados numa guerra com o Iémen. Não estamos interessados num conflito de qualquer tipo”, disse o porta-voz da Casa Branca John Kirby. “Tudo o que o presidente tem feito é tentar evitar qualquer escalada do conflito, incluindo os ataques de ontem [anteontem] à noite.” 

“Batalha além da imaginação”
Indiferente às declarações dos norte-americanos, os Houthis declararam que todos os interesses dos EUA e do Reino Unido são alvos legítimos. Mais tarde, um alto dirigente do grupo, Ali al-Qahoum, prometeu não só uma retaliação, mas o contrário do pretendido pelos ataques. “A batalha será maior e  além da imaginação e das expectativas dos americanos e dos britânicos”, disse.

Já o Irão, que na ótica dos norte-americanos são os fornecedores dos mísseis a um país cuja população na sua esmagadora maioria passa fome, disse que os ataques “arbitrários” não terão “outro resultado senão alimentar a insegurança e a instabilidade na região”, bem como “desviar a atenção do mundo dos crimes” em Gaza, disse o porta-voz do MNE, Nasser Kanani. Também o Hamas, em guerra com Israel na Faixa de Gaza, afinou pelo mesmo diapasão.

Para lá das questões militares e geopolíticas, este foco de instabilidade tem consequências imediatas na economia global, a recuperar da inflação induzida pela guerra na Ucrânia e das perturbações na cadeia logística geradas pela pandemia.

De imediato, os fabricantes de automóveis Volvo e Tesla anunciaram a pausa na produção nas fábricas da Bélgica e Alemanha devido à falta de componentes. Outras empresas como a Ikea já anunciaram aos consumidores que se esperam atrasos, uma vez que o transporte via Cabo da Boa Esperança implica mais dez dias de viagem. Pelo canal do Suez, passagem do Mar Vermelho para o Mediterrâneo, passa 12% do comércio mundial.

cesar.avo@dn.pt

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