A um ano das próximas eleições federais alemãs, a vitória da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais na Turíngia (e o segundo lugar na Saxónia) fazem soar os alarmes. O chanceler alemão, Olaf Scholz, falou de um resultado “perturbador”, apelando aos partidos democráticos para que excluam os “extremistas de direita” dos executivos regionais. “O nosso país não pode nem se deve habituar a isto”, afirmou. .Mas como é que se chegou a este cenário? A AfD nasceu em 2013 como um partido anti-euro, depois da crise económica e como uma crítica aos resgates aos países do sul da Europa. Mas foi-se radicalizando, adotando uma postura anti-imigração e anti-Islão após a crise migratória de 2015, quando a então chanceler Angela Merkel abriu as portas a um milhão de refugiados..O primeiro sucesso eleitoral da AfD foi ainda nas europeias de 2014, quando obteve 7,1% dos votos e elegeu sete eurodeputados. Nas últimas europeias, em junho, tornou-se no segundo partido mais votado na Alemanha, com quase 16% dos votos e 15 representantes..Entretanto, foi fazendo ganhos a nível local e regional, nomeadamente a partir de 2014 na Saxónia, Turíngia ou Brandemburgo (tudo na antiga Alemanha de Leste). Mas não só..A estreia no Bundestag foi nas eleições de 2017, sendo o terceiro partido mais votado com 12,6% dos votos e 94 deputados. A formação de uma grande coligação entre os democratas-cristãos da CDU de Merkel e os sociais-democratas de Martin Schulz fez com que a AfD se tornasse no maior partido da oposição. Atualmente é apenas o quinto partido no parlamento alemão, tendo perdido quase um milhão de eleitores em 2021 e 11 deputados. Nas sondagens para as eleições federais do próximo ano, surge em segundo lugar, atrás da CDU. .Tal como na maioria dos partidos da Alemanha, a liderança da AfD é bicéfala, dividida entre Tino Chrupalla e Alice Weidel. O partido não depende de uma única figura, mas de várias. Uma delas é Björn Höcke, o líder da AfD na Turíngia, responsável pela primeira vitória a nível regional da extrema-direita desde a II Guerra Mundial. .Höcke é um dos líderes mais radicais do partido, sendo considerado um “extremista” pelos serviços de informação alemães. O antigo professor de História, de 52 anos, foi multado já duas vezes este ano por usar um antigo slogan nazi: “Alles für Deutschland” (tudo pela Alemanha). Como outras frases nazis, é proibido por lei. Alegou que não sabia que era o mote da organização paramilitar Sturmabteilung (SA)..Mas o que é que torna a AfD um sucesso na Turíngia, na Saxónia e, em geral, em toda a antiga Alemanha de Leste (RDA)? O Muro de Berlim caiu em 1989 mas, em muitos aspetos, a divisão, ou pelo menos as disparidades, continuam. Em especial a nível económico ou demográfico. Um relatório do ano passado revelava que, em 2022, os salários na RDA eram 12 mil euros mais baixos do que no resto do país. O desemprego continua a ser ligeiramente maior, apesar dos investimentos dos últimos anos..Um outro estudo, da Universidade de Leipzig, concluiu que cerca de um terço dos eleitores da antiga RDA acredita que é preciso um “líder forte”para o país, havendo uma menor crença na democracia - talvez porque a reunificação, após 40 anos de vivência num regime ditatorial comunista, não trouxe os benefícios esperados. O que gera insatisfação com o sistema. .Além disso, 60% dos inquiridos dizem que o número de estrangeiros é muito elevado. Apesar de o número de imigrantes nesta região ser inferior ao do resto do país, está a aumentar - e após os anos de isolamento acaba por trazer um maior choque cultural. O recente ataque à faca que causou três mortos em Solingen, perpetrado por um refugiado sírio, foi aproveitado pela AfD. .Turíngia e Saxónia representam 7% da população alemã, mas este resultado - o que vier de Brandemburgo a 22 de setembro - está a preocupar, tendo em conta a proximidade com as eleições do próximo ano. Este resultado é também fruto do descontentamento com a coligação de três partidos liderada por Schulz, que juntos não foram além dos 10% de votos na Turíngia. E com a guerra na Ucrânia - a AfD é contra as sanções à Rússia -, havendo uma pressão crescente para se deixar de apoiar a Ucrânia..susana.f.salvador@dn.pt