A viagem de João Paulo II levou palavras de esperança e de encorajamento para se alcançar uma paz duradoura quando se celebravam 500 anos de evangelização de Angola.
A viagem de João Paulo II levou palavras de esperança e de encorajamento para se alcançar uma paz duradoura quando se celebravam 500 anos de evangelização de Angola. ARQUIVO DN

As visitas de João Paulo II e de Bento XVI a Angola através do DN

Em 1992, o papa polaco viajou por um país mutilado e à procura da paz. Em 2009, as críticas do pontífice alemão ao poder em Luanda foram ofuscadas pela polémica sobre o uso do preservativo.
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Foi a um país arrasado pela guerra civil, mas com enorme esperança, que João Paulo II se deslocou entre 4 e 9 de junho de 1992. Angola conhecia uma frágil paz e encontrava-se a três meses das suas primeiras eleições. João Paulo II, que teve um papel instrumental na resistência ao bloco comunista, foi recebido pelo presidente angolano e líder do MPLA, partido em processo de abertura depois do apoio recebido pela União Soviética Cuba. Na mesma ocasião, Karol Wojtyla também se encontrou com Jonas Savimbi, o líder da UNITA, contrariando notícias de que iria cancelar a reunião agendada.

“Se o papa veio, então é possível a paz”, acreditava Luís Bernardo, um mutilado da guerra a quem João Paulo II deu a bênção em Luanda, ouvido pela enviada do DN. A paz foi possível, mas só depois de o processo eleitoral ter sido interrompido com mais dez anos de guerra. O papa defendeu a “tolerância para a estabilização” do país e alertou para os “momentos cruciais” que se viviam. “Ninguém desanime perante as inevitáveis dificuldades”, apelava.

Além de Luanda, o pontífice viajou até às dioceses de Cabinda, Lubango, Huambo, Benguela e M'banza Congo, além de São Tomé (agregada a Angola na Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, CEAST). Foi no arquipélago que João Paulo II se indignou contra a escravatura praticada pelos portugueses, “cruel ofensa à dignidade do homem africano”. Ao DN, o arcebispo de Braga, a acompanhar a viagem, reenquadrou as palavras do polaco. “Não foram somente os portugueses que introduziram a escravatura em São Tomé. Aliás, foi uma situação herdada pelas circunstâncias locais”, defendia Eurico Dias Nogueira.

Se foi crítico com os portugueses em São Tomé, em Luanda João Paulo II elogiou a ação dos missionários portugueses quando se comemoravam os 500 anos da evangelização de Angola, tendo dito “não conter a alegria” por ali celebrar o Pentecostes.

Destaque ainda para a mensagem contra o separatismo, em Cabinda, enclave do qual o país dependia da extração de petróleo. “A reconstrução não avança sem paz. Espero que todos ajudem a resolver os problemas de Cabinda sem violência”, apelou.

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A reportagem do DN acompanhou a visita do papa à palhota de um casal de camponeses e seus oito filhos em Banzacongo, como escrito então, ou M'banza Congo, na província do Zaire. O papa ofereceu um sobrescrito com 500 dólares ao “comovido” pai, enquanto os filhos, com os olhos maravilhados e quase incapazes de falar, tolhidos de emoção”, iam respondendo, “gaguejando”, às perguntas de Wojtyla.

Nova controvérsia de Ratzinger

A viagem de Bento XVI aos Camarões e Angola, em março de 2009, ficou marcada pelas palavras proferidas no avião a caminho de Yaoundé. “Bento XVI garante que uso do preservativo agrava sida em África” foi como o DN de dia 18 noticiava as controversas declarações do alemão. “Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema”, sentenciou durante a sua primeira de duas viagens a África.

Afirmações incendiárias, tendo em conta que, à época, 67% dos 33 milhões de infectados com sida viviam na África subsaariana. “A sua posição revela que o dogma religioso é mais importante para ele do que as vidas dos africanos”, disse então Rebecca Hodes, da ONG Campanha Ação e Tratamento.

Para o Vaticano, o pontífice não estava a dizer nada de novo, uma vez que a posição oficial era a de abstinência e fidelidade. Em Portugal, o bispo das Forças Armadas Januário Torgal Ferreira não calou a discordância. “É claro que há circunstâncias, e do ponto de vista médico não tenho qualquer dúvida, em que proibir o preservativo é consentir na morte de muitas pessoas”, afirmou.

A polémica criada por Joseph Ratzinger levou o DN a recordar algumas anteriores, como uma citação que fez em que se criticava Maomé, em 2006, ou quando reverteu a excomunhão de um bispo que negava o Holocausto.

Diante do presidente José Eduardo dos Santos, Bento XVI fez “um discurso suculento”, como classificou nas páginas do DN o comentador Manuel Vilas-Boas. Na ocasião, o papa chamou a atenção para a “multidão de angolanos que vive abaixo da linha da pobreza”, e pediu um país funcional, com “um governo transparente, uma magistratura independente, uma comunicação social livre” e a “firme determinação de acabar de uma vez por todas com a corrupção”.

Ao ex-Presidente Mário Soares, cronista do DN, não passou ao lado a mensagem de Ratzinger em Luanda, onde “encontrou palavras que caíram bem no coração dos angolanos”. E notou “um contraste gritante com o que se passou em Portugal”, durante a vista de Eduardo dos Santos, onde se “verificou uma subserviência geral, muito desagradável” .

Mas a polémica em que se havia envolvido sobre o preservativo deixou este discurso ofuscado, como notou o DN, em editorial. “É bizarro que um outro tema infelizmente tão africano como a corrupção tenha merecido menos reação por parte da opinião pública, quando é de saudar que o papa tenha feito a sua crítica”, lia-se na edição de 22 de março.

A visita ficou ainda marcada pela morte de dois jovens, esmagados ao tentarem entrar no estádio dos Coqueiros, onde decorreu um encontro do papa com a juventude. Vilas-Boas testemunhou o “desinteresse de muitos jovens que não estavam de todo com as palavras do chefe da Igreja Católica”. No dia seguinte, calculou-se que a missa celebrada na esplanada de Cimangola tenha reunido um milhão de pessoas.

Registe-se ainda que o governo angolano ofereceu à época a construção de uma basílica e a reabilitação de toda a zona envolvente da igreja da Nossa Senhora da Conceição da Muxima, do século XVII, tendo revelado a maquete ao papa. Contava o enviado do DN a Angola que o projeto arquitetónico era do luso-angolano Júlio Quaresma, nascido em Saurimo. A visita de Leão XIV, curiosamente, pára não só no santuário de Muxima, a 130 quilómetros da capital, como também em Saurimo, no leste do país.

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