Foi a um país arrasado pela guerra civil, mas com enorme esperança, que João Paulo II se deslocou entre 4 e 9 de junho de 1992. Angola conhecia uma frágil paz e encontrava-se a três meses das suas primeiras eleições. João Paulo II, que teve um papel instrumental na resistência ao bloco comunista, foi recebido pelo presidente angolano e líder do MPLA, partido em processo de abertura depois do apoio recebido pela União Soviética Cuba. Na mesma ocasião, Karol Wojtyla também se encontrou com Jonas Savimbi, o líder da UNITA, contrariando notícias de que iria cancelar a reunião agendada.“Se o papa veio, então é possível a paz”, acreditava Luís Bernardo, um mutilado da guerra a quem João Paulo II deu a bênção em Luanda, ouvido pela enviada do DN. A paz foi possível, mas só depois de o processo eleitoral ter sido interrompido com mais dez anos de guerra. O papa defendeu a “tolerância para a estabilização” do país e alertou para os “momentos cruciais” que se viviam. “Ninguém desanime perante as inevitáveis dificuldades”, apelava.Além de Luanda, o pontífice viajou até às dioceses de Cabinda, Lubango, Huambo, Benguela e M'banza Congo, além de São Tomé (agregada a Angola na Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, CEAST). Foi no arquipélago que João Paulo II se indignou contra a escravatura praticada pelos portugueses, “cruel ofensa à dignidade do homem africano”. Ao DN, o arcebispo de Braga, a acompanhar a viagem, reenquadrou as palavras do polaco. “Não foram somente os portugueses que introduziram a escravatura em São Tomé. Aliás, foi uma situação herdada pelas circunstâncias locais”, defendia Eurico Dias Nogueira.Se foi crítico com os portugueses em São Tomé, em Luanda João Paulo II elogiou a ação dos missionários portugueses quando se comemoravam os 500 anos da evangelização de Angola, tendo dito “não conter a alegria” por ali celebrar o Pentecostes.Destaque ainda para a mensagem contra o separatismo, em Cabinda, enclave do qual o país dependia da extração de petróleo. “A reconstrução não avança sem paz. Espero que todos ajudem a resolver os problemas de Cabinda sem violência”, apelou..A reportagem do DN acompanhou a visita do papa à palhota de um casal de camponeses e seus oito filhos em Banzacongo, como escrito então, ou M'banza Congo, na província do Zaire. O papa ofereceu um sobrescrito com 500 dólares ao “comovido” pai, enquanto os filhos, com os olhos maravilhados e quase incapazes de falar, tolhidos de emoção”, iam respondendo, “gaguejando”, às perguntas de Wojtyla.Nova controvérsia de RatzingerA viagem de Bento XVI aos Camarões e Angola, em março de 2009, ficou marcada pelas palavras proferidas no avião a caminho de Yaoundé. “Bento XVI garante que uso do preservativo agrava sida em África” foi como o DN de dia 18 noticiava as controversas declarações do alemão. “Não se resolve o problema da sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema”, sentenciou durante a sua primeira de duas viagens a África.Afirmações incendiárias, tendo em conta que, à época, 67% dos 33 milhões de infectados com sida viviam na África subsaariana. “A sua posição revela que o dogma religioso é mais importante para ele do que as vidas dos africanos”, disse então Rebecca Hodes, da ONG Campanha Ação e Tratamento. Para o Vaticano, o pontífice não estava a dizer nada de novo, uma vez que a posição oficial era a de abstinência e fidelidade. Em Portugal, o bispo das Forças Armadas Januário Torgal Ferreira não calou a discordância. “É claro que há circunstâncias, e do ponto de vista médico não tenho qualquer dúvida, em que proibir o preservativo é consentir na morte de muitas pessoas”, afirmou.A polémica criada por Joseph Ratzinger levou o DN a recordar algumas anteriores, como uma citação que fez em que se criticava Maomé, em 2006, ou quando reverteu a excomunhão de um bispo que negava o Holocausto.Diante do presidente José Eduardo dos Santos, Bento XVI fez “um discurso suculento”, como classificou nas páginas do DN o comentador Manuel Vilas-Boas. Na ocasião, o papa chamou a atenção para a “multidão de angolanos que vive abaixo da linha da pobreza”, e pediu um país funcional, com “um governo transparente, uma magistratura independente, uma comunicação social livre” e a “firme determinação de acabar de uma vez por todas com a corrupção”.Ao ex-Presidente Mário Soares, cronista do DN, não passou ao lado a mensagem de Ratzinger em Luanda, onde “encontrou palavras que caíram bem no coração dos angolanos”. E notou “um contraste gritante com o que se passou em Portugal”, durante a vista de Eduardo dos Santos, onde se “verificou uma subserviência geral, muito desagradável” .Mas a polémica em que se havia envolvido sobre o preservativo deixou este discurso ofuscado, como notou o DN, em editorial. “É bizarro que um outro tema infelizmente tão africano como a corrupção tenha merecido menos reação por parte da opinião pública, quando é de saudar que o papa tenha feito a sua crítica”, lia-se na edição de 22 de março.A visita ficou ainda marcada pela morte de dois jovens, esmagados ao tentarem entrar no estádio dos Coqueiros, onde decorreu um encontro do papa com a juventude. Vilas-Boas testemunhou o “desinteresse de muitos jovens que não estavam de todo com as palavras do chefe da Igreja Católica”. No dia seguinte, calculou-se que a missa celebrada na esplanada de Cimangola tenha reunido um milhão de pessoas.Registe-se ainda que o governo angolano ofereceu à época a construção de uma basílica e a reabilitação de toda a zona envolvente da igreja da Nossa Senhora da Conceição da Muxima, do século XVII, tendo revelado a maquete ao papa. Contava o enviado do DN a Angola que o projeto arquitetónico era do luso-angolano Júlio Quaresma, nascido em Saurimo. A visita de Leão XIV, curiosamente, pára não só no santuário de Muxima, a 130 quilómetros da capital, como também em Saurimo, no leste do país.