Sem culpas e sem críticas às renováveis. Relatório final ao apagão conclui que foi provocado por falhas em cascata
Arquivo

Sem culpas e sem críticas às renováveis. Relatório final ao apagão conclui que foi provocado por falhas em cascata

Relatório publicado esta sexta-feira destaca que o apagão ibérico em 28 de abril do ano passado foi o “incidente mais grave e sem precedentes no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”. Peritos deixam recomendações.
Publicado a

O relatório final dos peritos europeus confirma que o apagão ibérico foi provocado por falhas em cascata e recomenda reforçar tanto os quadros regulatórios como a coordenação entre operadores da rede e grandes produtores, de forma a prevenir eventos semelhantes. Os peritos não atribuíram responsabilidades legais, remetendo essa avaliação para as autoridades nacionais.

“Trata-se de uma análise técnica, não de atribuição de culpa”, afirmou esta sexta-feira, 20 de março, Damian Cortinas, presidente do conselho da Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês), durante a apresentação do relatório final quase um ano depois do incidente.

E explicou porquê: “Primeiro, porque não temos competência para isso, segundo, porque essa avaliação depende da interpretação da lei pelas autoridades competentes de cada país”, acrescentou.

O documento publicado esta sexta-feira, elaborado por 45 especialistas de operadores de rede e reguladores de 12 países, volta a destacar que o apagão que afetou Espanha e Portugal em 28 de abril de 2025 foi o “incidente mais grave e sem precedentes no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”.

A investigação da ENTSO-E conclui que a situação resultou de uma combinação de vários fatores interligados, incluindo “oscilações, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, diferenças nas práticas de regulação de tensão, reduções rápidas de produção e desligamentos de geradores em Espanha, bem como capacidades de estabilização desiguais”.

Estes fatores conduziram a aumentos rápidos de tensão e a desligamentos em cascata de produção renovável, resultando no apagão na Espanha continental e em Portugal, como apontavam as conclusões preliminares apresentadas em outubro de 2025.

Segundo explicou Klaus Kaschnitz, co-líder do painel de especialistas, o colapso teve origem numa subida rápida da tensão na rede elétrica, que desencadeou uma cascata de desligamentos de produção.

“Podemos, portanto, falar de um colapso por sobretensão”, afirmou, indicando que o sistema atingiu um “ponto de não retorno” poucos minutos após o início do incidente.

Sem críticas às renováveis

Entre os elementos analisados esteve também o comportamento de unidades de produção renovável, mas em resposta a perguntas dos jornalistas os peritos rejeitaram uma relação direta entre o apagão e este tipo de energia.

“Isto não é sobre energias renováveis, é sobre controlo de tensão”, apontou Damian Cortinas.

“O problema não é serem renováveis, mas sim a forma como implementam o controlo de tensão”, detalhou.

Os especialistas sublinharam que o controlo de tensão “é algo que se sabe fazer com qualquer tipo de geração” e defenderam que todas as unidades, incluindo as de pequena dimensão, devem contribuir para essa função.

“Uma casa isolada não tem impacto, mas milhares têm”, referiu Damian Cortinas.

Os peritos concluíram ainda que o incidente teve origem maioritariamente local, mas escalou rapidamente, sublinhando, por várias vezes, que “não houve uma única causa, mas sim uma combinação de vários fatores”.

Com base nestas conclusões, o painel de peritos apresentou esta sexta-feira recomendações que abordam cada um dos fatores identificados no relatório, com o objetivo de ajudar a prevenir eventos semelhantes no futuro.

No entanto, destacam que, apesar da natureza inédita do colapso, a restauração da rede foi rápida, com Portugal a recuperar totalmente a ligação da rede em 12 horas e Espanha em 16 horas.

Da lista de sugestões fazem parte medidas como o reforço das práticas operacionais, a melhoria da monitorização do comportamento do sistema e uma coordenação e troca de dados mais estreitas entre os intervenientes do sistema elétrico.

A ENTSO-E destaca que o reforço da coordenação entre os operadores da rede de transporte e da rede de distribuição - em Portugal a REN e a E-Redes - e grandes produtores e consumidores de energia “é essencial para gerir eficazmente eventos complexos como este”.

“Esforços sustentados para melhorar as práticas operacionais e a partilha de informação contribuirão para manter a segurança do abastecimento para todos os consumidores”, refere.

As conclusões da investigação sublinham "igualmente a necessidade de adaptação dos quadros regulamentares para acompanhar a evolução do sistema elétrico”.

“O apagão de 28 de abril de 2025 foi um evento sem precedentes, e as recomendações visam reforçar a resiliência do sistema com soluções já tecnologicamente disponíveis”, explicam os peritos.

“Este apagão evidencia como desenvolvimentos a nível local podem ter implicações à escala de todo o sistema e destaca a importância de manter ligações fortes entre o comportamento e a coordenação dos sistemas a nível local e europeu, assegurando simultaneamente que os mecanismos de mercado, os quadros regulamentares e as políticas energéticas permanecem alinhados com os limites físicos do sistema”, reforçam.

No entanto, destacam que a monitorização da implementação das recomendações apresentadas não se enquadra no mandato do painel de especialistas.

“Qualquer responsabilidade pela análise, acompanhamento e implementação das recomendações cabe exclusivamente a cada destinatário”, lê-se no documento.

Lições a retirar

Além disso, Damian Cortinas esclareceu que um dos objetivos da investigação "não é apenas perceber o que aconteceu em Espanha e o que pode ser feito lá, é também perceber que lições podem ser retiradas para o resto da Europa”, acrescentando que “Espanha tem sido pioneira em vários aspectos da transição energética".

“Acreditamos que está a enfrentar situações que outros países também poderão vir a enfrentar. O importante é usar esse conhecimento para prevenir. E reforço esta mensagem: tudo o que incluímos nas recomendações pode ser feito. Não há nada que esteja fora do que é tecnicamente possível hoje”, garantiu.

“O sistema elétrico é extremamente complexo e regido por leis físicas. Estas devem ser consideradas no desenho de mercados, regulamentação e políticas energéticas. Sabemos agora o que aconteceu, sabemos como evitar — e devemos implementar as soluções”, concluiu.

Diário de Notícias
www.dn.pt