Anna Martins, a “filha da concierge” que luta pelos direitos dos portugueses em França
Sentada na esplanada do café À La Reine Astrid, na avenida principal de Viroflay, nos arredores de Paris, Anna Martins vai bebendo o seu cappuccino enquanto recorda a infância. “Cresci no bairro 16, um dos mais ricos de Paris. Eu era a filha da porteira. O Ruben era meu vizinho”, recorda a luso-francesa, que durante dez anos presidiu à Cap Magellan e agora voltou como vice-presidente desta associação de jovens lusófonos. O Ruben em causa é Ruben Alves, o realizador de Santo António, o Casamenteiro de Lisboa, ele próprio filho de uma porteira e de um pedreiro, esse cliché da “concierge e do maçon” que se colou à emigração portuguesa na capital francesa, e que contou há uns anos no seu filme Gaiola Dourada.
“O facto de ter crescido naquele ambiente, de ser a rapariga do rés-do-chão, a filha da porteira, criou em mim uma certa revolta”, confessa Anna Martins. Uma revolta que não a impedia de ter “muito orgulho em ser portuguesa”, até porque lá em casa “falávamos português, íamos a Portugal todos os anos em agosto”.
Boa aluna, delegada de turma, a filha de transmontanos nunca escondeu a sua origem dos colegas de escola. E se admite que havia algum tipo de discriminação em relação aos filhos dos portugueses - como havia em relação aos colegas filhos de espanhóis ou italianos -, “era mais ligada ao meio social do que à cultura”.
No seu caso, a revolta acabou por fazer nascer uma “vontade de representar as pessoas”. Um espírito de associativismo que, um pouco mais tarde, em 2013 e com apenas 18 anos, a levaram a aceitar o desafio de ser presidente da Cap Magellan.
Tudo começou dois anos antes, em 2011, quando Carlos do Carmo vai ao liceu onde Anna estudava, para uma masterclass sobre o fado, que acabara de ser classificado como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
“O Carlos do Carmo chega, com uma delegação, está no auditório do meu liceu, e a certa altura a minha professora de Português levanta a mão e diz: ‘tenho aqui uma menina que gosta muito de cantar, será que pode?’ E assim acabei a cantar Lisboa, Menina e Moça com o Carlos do Carmo a acompanhar”, recorda.
Foi nesse dia que Anna conheceu Hermano Sanches Ruivo, então presidente da Cap Magellan, que dirigiu durante duas décadas, e que integrava a comitiva.
“O Hermano vem ter comigo no fim e diz-me: ‘Estamos a organizar a primeira gala Cap Magellan. A ideia é fazer cantar um artista consagrado com um jovem da comunidade. E estamos a pensar convidar o Pedro Abrunhosa.’ Eu nem queria acreditar. Adoro o Pedro Abrunhosa. E dois meses depois lá estou eu, com a minha viola, a cantar com ele Tudo o que eu te Dou”.
Assim começou a relação de Anna Martins com a associação que deve o nome ao afrancesamento de Fernão de Magalhães. “Entro como voluntária, depois passo para o Conselho de Administração e depois chego a presidente”, explica, garantindo: “Eu sempre disse que se não tivesse conhecido a Cap Magellan, eu teria inventado algo como a Cap Magellan”. Porquê? “Era exatamente o que eu precisava. Eu tinha tanta coisa para dizer, tanta revolta interna, precisava de um sítio onde me exprimir e partilhar essa experiência.”
Como presidente da associação (cargo hoje detido por Lurdes Abreu), que no seu site se apresenta como “agitador lusófono desde 1991”, foram dez anos “de loucura - muitas viagens, muitos eventos, muitas dores de cabeça”.
Foi nesse altura que Anna conheceu o agora marido, Cédric, também ele luso-descendente e a razão de o nosso encontro se dar em Viroflay. Para quem vem de La Défense são meia dúzias de paragens no comboio da Linha L, em direção a Versalhes, mas quando saímos da gare de Viroflay - Rive Droite, o contraste com o moderno bairro parisiense é completa. Por aqui, nada de arranha-céus, e entre vivendas e prédios baixos, mal viramos à esquerda, em frente aos arcos do viaduto de meados do século XIX, deparamo-nos com a Brasserie Chez Tony e com a ainda mais inequívoca Épicerie et Produits du Portugal.
Estamos portanto em terra de emigrantes portugueses, como a conversa com sotaque do norte entre dois habitantes já de certa idade revela. Mas basta uma curta visita ao mercado de Viroflay para perceber que aqui as culturas se misturam, num encontro entre sardinhas, chocos e ostras, na banca do peixe, ou na ausência de tensões entre o Camembert e as chamuças na zona do vendedor libanês.
É num excelente português que Anna Martins explica ter-se mudado há dois anos para Viroflay, onde vivem os sogros. Formada em Direito e com um mestrado em Sciences Po, Anna confessa que sonhou durante algum tempo em ser advogada, mas acabou por ser a política a conquistá-la.
Estávamos em 2017, em plena campanha para umas eleições presidenciais que Emmanuel Macron acabaria por vencer, quando lhe oferecem um estágio junto da conselheira de imprensa do também centrista François Bayrou. Mas o que começou como uma experiência tranquila depressa ganhou novos contornos quando Macron faz uma aliança com o MoDem de Bayrou. “Ainda não tinha terminado o mestrado e, de repente, estava a trabalhar 70 horas por semana”, recorda.
Convidada para trabalhar com o ministro do MoDem Marc Fesneau, Anna acabou por passar vários anos em gabinetes ministeriais. E em 2023, após dez anos na presidência da Cap Magellan, sai da associação, num misto de dificuldades em conciliar tudo, receio que a sua exposição pública prejudicasse a associação e o também inevitável cansaço de tantos anos no cargo.
Há dois meses voltou, desta vez como vice-presidente da Cap Magellan, no ano em que a associação celebra o 35.º aniversário da sua fundação. E garante que se muito mudou em três anos, algumas coisas mantêm-se. Sobretudo a nível das prioridades e objetivos dos jovens luso-franceses, que continuam empenhados em “transmitir a nossa cultura”. Mesmo se a mais recente vaga de emigrantes que chegam a França já têm, muitos deles, características diferentes, constituindo uma comunidade com mais habilitações literárias e preocupações um pouco diferentes.
Mais jovens para a esquerda e mais velhos para a direita
Com as próximas presidenciais em França a menos de um ano de distância (a primeira volta deverá ter lugar em abril de 2027 e a segunda em maio), queremos saber quais as tendências de voto na comunidade luso-francesa. Com base na sua experiência, Anna Martins, de 32 anos, explica que há duas correntes distintas. “Os mais velhos, a geração dos meus pais, estão a virar-se muito para a extrema-direita”. Sobretudo, acredita, por medo do outro, do que é diferente.
“Há uma tendência natural para ter medo da diferença que é naquilo que joga a extrema-direita em toda a Europa. Também em França, é o jogo de Marine Le Pen”, refere Anna. Para ela, a candidata do Reagrupamento Nacional (a antiga Frente Nacional) tem sem dúvida “um discurso que seduz. Ela diz exatamente o que muita gente quer ouvir. E joga com esse medo do outro”.
E se antes eram sobretudo os mais velhos a deixar-se seduzir por esse discurso da extrema-direita na comunidade luso-francesa, hoje são cada vez mais os jovens a aderir ao RN. Apesar de ainda haver uma clara tendência para “penderem” para o lado da extrema-esquerda.
Na Cap Magellan, a linha geral é não tomar posições políticas, mas Anna recorda que quando havia eleições, antes da segunda volta, emitiam um comunicado a apelar ao voto republicano, contra a extrema-direita. “Na minha última eleição como presidente da associação houve um jovem de origem portuguesa, que já estava a ter algum sucesso na extrema-direita e que me atacou publicamente, alegando que os jovens luso-franceses não pensam todos assim. Isso marcou-me muito”.
Resume, portanto, desta forma: “Na comunidade, uma parte vai para a extrema-direita, uma parte vai para a extrema-esquerda”. E no centro, quem resta? “Não perco a esperança que haja ainda portugueses e lusodescendentes no centro.”
Mas quem também vem ganhando terreno entre os luso-franceses é a abstenção. De tal forma que há uns anos a Cap Magellan lançou a campanha “Quem vota conta” para incentivar a comunidade a exprimir a sua voz. “Quanto mais nomes de origem portuguesa houver nas listas eleitorais, mais peso teremos junto dos eleitos para, por exemplo, abrir aulas de português”, explica Anna.
Já sobre Emmanuel Macron, considera que o presidente francês “foi vítima de uma certa ingenuidade. É muito idealista.” E admite: “Ainda é muito cedo para julgar a história”.
Então quem será o próximo presidente de França? Sublinhando estar, neste caso, apenas a falar em nome próprio e não da Cap Magellan, Anna acredita que a resposta virá do centro-direita, com Edouard Philippe. “A minha esperança é que Philippe ganhe. Eu trabalhei com a equipa dele. Tem uma equipa espectacular. É o herdeiro de Alain Juppé, que é uma grande figura da direita francesa.”
E reforça: “No momento em que falamos, a melhor solução seria o Philippe. Tem experiência. Foi um bom primeiro-ministro. Geriu bem a covid. Acho que é um homem sério”.
Cap Magellan: 35 anos de um “agitador lusófono”
“Sinto que já não sou a mãe da Cap Magellan, sou uma espécie de avó”, confessa Anna Martins, com um sorriso. O regresso, há dois meses, para a vice-presidência, da mulher que durante dez anos presidiu à associação de jovens lusodescendentes em França coincidiu com os 35 anos da sua fundação. Nascida em Paris a 24 de novembro de 1991, a Cap Magellan surgiu com o objetivo de promover a língua portuguesa e a cultura lusófona, mas também de acompanhar os desafios de uma comunidade jovem, dividida entre duas culturas. Nestas três décadas e meia, a Cap Magellan desenvolveu iniciativas nas áreas da educação, emprego, cultura e cidadania. Organizou fóruns franco-portugueses, promoveu concertos de artistas lusófonos, campanhas de segurança rodoviária e cidadania, ações de divulgação do ensino superior português e encontros destinados a jovens lusodescendentes. Em 2026, o aniversário da associação que no seu site se apresenta como “agitador lusófono desde 1991” é também uma oportunidade para olhar para o futuro. A programação dos 35 anos inclui a tradicional Gala de Entrega de Prémios, a 10 de outubro na Sorbonne, e o encontro “Geração Europa”, dedicado à juventude lusodescendente, à cidadania europeia e à transmissão da língua e cultura portuguesas.

