Convém começar por explicar que Orbán é um apelido muito comum na Hungria - Anita não tem nenhuma relação familiar com o antigo primeiro-ministro Viktor, que, por sua vez, tinha como diretor político Balázs Orbán, mais uma vez sem qualquer parentesco. Uma coincidência de apelidos que levou o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, a comentar quando foi informado do nome da vice-primeira-ministra e líder da diplomacia da Hungria: “Eu percebo, o meu nome é Donald”. Uma piada que costuma fazer devido ao facto de partilhar o primeiro nome com Trump.Anita Orbán, de 51 anos, foi escolhida por Péter Magyar para ser sua vice no governo e ocupar também a pasta dos Negócios Estrangeiros. E deixou logo claro desde início qual era o seu objetivo ao entrar para o governo. “A Hungria voltou ao coração da Europa”, mostrando apostar numa mudança ao que vinha sendo trilhado pelo antigo primeiro-ministro Viktor Orbán.Mas, tal como acontece com Magyar, o percurso político de Anita está também profundamente ligado ao Fidesz, partido que esteve no poder nos últimos 16 anos e do qual fez parte. Segundo os media húngaros, durante o primeiro e o segundo governos de Orbán (1998-2002 e 2010-2014), Anita fazia parte do círculo de János Martonyi, então ministro dos Negócios Estrangeiros. Nesse período, trabalhou como editora e, posteriormente, como colunista do semanário húngaro Heti Válasz, cobrindo política externa e assuntos públicos. Áreas que domina graças à sua formação académica - formou-se em Economia pela Universidade de Ciências Económicas de Budapeste, indo mais tarde para os Estados Unidos onde obteve um mestrado em História e um doutoramento em Direito Internacional e Diplomacia. É ainda autora de um livro, publicado em 2008, intitulado “Poder, Energia e o Novo Imperialismo Russo”, que aborda as ambições geopolíticas de Moscovo no setor energético.Participou no chamado Campo de Verão do Fidesz no início dos anos 2000 e antes das eleições parlamentares de 2010, numa altura em que já tinha ganhado nome como especialista em energia e diplomacia, foi nomeada candidata pelo 16.º círculo eleitoral de Budapeste, mas retirou-se antes da votação, alegando razões de saúde.Não foi para deputada, mas tornou-se embaixadora itinerante responsável pela segurança enérgica, tendo representado a Hungria em fóruns internacionais, como o Parlamento Europeu e o Congresso dos EUA. Ocupou o cargo durante cinco anos, numa fase em que o governo de Viktor Orbán estava alegadamente a tentar diversificar suas fontes de energia para evitar uma dependência do gás russo. Algo que a nova líder da diplomacia húngara defendia então, tal como agora. No entanto, como se sabe, o então primeiro-ministro optou por continuar a sua proximidade a Moscovo, o que levou Anita Orbán a abandonar as suas funções e o partido. Há seis anos, ainda fez uma tentativa de voltar à diplomacia, mas perdeu a corrida para o cargo de secretário-geral adjunto da NATO para o neerlandês David van Weel, líder da diplomacia dos Países Baixos até fevereiro e atual ministro da Justiça.O seu regresso à política deu-se este ano quando foi abordada pelo Tisza para se juntar ao partido, numa altura em que era diretora de Assuntos Públicos na sede do Grupo Vodafone, em Londres. Cidade onde já tinha estado, logo depois de deixar de ser embaixadora itinerante, a trabalhar no setor energético. Pelo meio, viveu cinco anos no seu país natal, exercendo o cargo de vice-CEO de Assuntos Corporativos da Vodafone Hungria. Nos últimos anos, tem feito parte da lista da Forbes Hungria das figuras empresariais húngaras mais influentes.No vídeo em que Péter Magyar a anunciou como a sua escolha para ministra dos Negócios Estrangeiros, Anita Orbán apresentou-se como mãe de três filhos nascida em Berettyóujfalu, uma cidade de 14.000 habitantes perto da fronteira com a Roménia. “O meu nome é Anita Orbán e sou uma verdadeira rapariga do interior”, disse ainda.O Fidesz parece não lhe ter perdoado este regresso à política e tudo o que tem dito sobre a governação de Viktor Orbán - numa carta aberta assinada por antigos membros do executivo dirigida a Anita (é tratada na missiva apenas pelo seu primeiro nome), a vice-primeira-ministra é acusada de deslealdade, criticando-a pelas acusações de corrupção que tem feito a pessoas com quem trabalhou na sua passagem pelo anterior executivo.Anita Orbán usou as redes sociais para responder à carta, dizendo que lê-la foi difícil porque a recordou de um tempo em que acreditava que todos estavam a trabalhar ao serviço do país. “Uma coisa é importante que vocês saibam: eu não mudei. O sistema que vocês tentam defender até o fim é que mudou”, escreveu..Da aproximação à UE ao custo de vida: o que os húngaros esperam do governo de Péter Magyar.Magyar propõe emenda constitucional que impede regresso de Orbán ao poder