Donald Trump chamou à NATO um tigre de papel. Para Keir Starmer é a aliança mais eficaz do mundo. Em que ficamos?Ficamos no meio. Desde o primeiro mandato temos assistido a momentos críticos. Em 2018, durante a primeira administração Trump, este fez exatamente o mesmo entendimento. E aí, a Aliança Atlântica, enquanto estrutura política, e até na sua dimensão militar, estava numa situação mais crítica do que está hoje. Lembremos Macron e a “morte cerebral”. O que Donald Trump diz agora é que quando precisou da Aliança Atlântica ela não esteve lá. Há aqui um princípio de confiança de todos os parceiros da aliança, não são só os europeus, o Canadá, que está em causa. E não é de agora. Já na cimeira em Haia [junho de 2025] verificámos esse problema de confiança com uma declaração final que é ímpar na história da aliança, com meia dúzia de parágrafos, em que a única coisa que importa são os 5% do PIB e o investimento em defesa, e não há nenhuma orientação política sobre o que fazer, onde fazer e como fazer.Como é que Trump pode ter uma atitude crítica em relação aos aliados quando há pouco tempo ameaçou a soberania de um deles? É importante percebermos qual é o posicionamento da administração Trump e do presidente Donald Trump em relação à forma como se exerce política externa e o posicionamento internacional dos EUA. Para Trump é uma avaliação de custo-benefício com base em ou ganho tudo ou perco tudo, portanto a chamada soma zero. Além do mais, quer fazer isto com o mínimo de custo possível e colocar nos outros a responsabilidade política, diplomática, militar e financeira e ganhar benefícios com isso. A questão de Trump em relação à Gronelândia é um entendimento daquilo que os EUA precisam para assumir a posição internacional no chamado hemisfério ocidental. Completamente diferente é a forma como os EUA podem agir fora desse hemisfério ocidental. Trump não tem nas alianças e nos aliados qualquer prioridade, é absolutamente instrumental. O que me parece estável é a ausência de prioridade ou de aposta na componente política e diplomática, e até o principal responsável por essa dimensão, Marco Rubio do Departamento de Estado, não deixa de assumir aquilo que é a orientação da administração, e que me parece muito pouco planeada. Ou seja, vai-se agindo e reagindo em função do que acontece, numa estratégia comunicacional de curto prazo e que rapidamente é esquecido o que foi dito antes porque é assim que funciona a comunicação atualmente.Em concreto, os EUA responsabilizam os aliados por não ajudarem a desbloquear o estreito de Ormuz. As críticas são justas?O estreito de Ormuz não alimenta primariamente a economia norte-americana. A passagem de recursos energéticos vai para o continente asiático e para o continente europeu, sendo que a dependência do petróleo e do gás é maior no caso das economias asiáticas do que no caso das economias europeias. Só que o bloqueio do estreito de Ormuz é bastante mais do que este fornecimento de recursos energéticos. Primeiro, decorre de uma intervenção unilateral norte-americana e israelita, sem uma consulta prévia a aliados, que são chamados já no decurso dessa intervenção a reagir a uma consequência que aparentemente não tinha sido avaliada na proporção. Segundo, para a produção industrial, os recursos energéticos não servem apenas para o transporte: desde brinquedos a plásticos, a fertilizantes, materiais de construção civil, etc. Isto causa uma disrupção não apenas no fornecimento, mas em toda a cadeia de valor. E aí a economia norte-americana também é afetada, é uma questão de disrupção da economia global. Agora, o princípio da responsabilidade é um princípio que é partilhado quando existe um alinhamento em relação àquilo que é a estratégia, os objetivos e a forma. E daquilo que é público não houve qualquer alinhamento na estratégia, nos objetivos e na forma, houve apenas chamada a responsabilidade dos aliados no momento de reação e de consequência de uma intervenção que é anterior. Os estados europeus têm neste momento esta avaliação para fazer perante o posicionamento internacional dos EUA mas mais do que isso, em relação aos países do Golfo. Isto sem esquecer a importância da relação com os EUA, porque também não podemos queimar todas as pontes, até porque não é do interesse dos europeus fazê-lo..“Trump não tem nas alianças e nos aliados qualquer prioridade, é absolutamente instrumental. Vai-se agindo e reagindo em função do que acontece numa estratégia comunicacional de curto prazo.”.O primeiro-ministro britânico anunciou uma coligação para garantir a navegabilidade de Ormuz, mas no pós-guerra. É similar à coligação internacional para a Ucrânia, porque está dependente do final da guerra?Mais ou menos. Tal como no caso da Ucrânia, há uma prioridade que é a paragem da intervenção militar. Não há dúvida de que os estados europeus, e Portugal também, têm uma experiência bastante grande na segurança marítima, desde logo no Corno de África, no Mar Vermelho, e portanto há uma capacidade instalada que permite essa coligação de estados. Mas só pode ser ativado num quadro de ausência de guerra. Como é que os governos europeus justificam colocar uma missão naquela zona em guerra, com probabilidade de perder vidas? Parando as hostilidades, há a cooperação para a regularização do estreito de Ormuz, porque é isso que estabiliza a economia global.Qual é a necessidade de uma missão no estreito de Ormuz se a guerra parar?Há várias razões. A primeira é que, caso o Irão tenha colocado minas no estreito de Ormuz, vai ser necessária uma operação de longo prazo de desminagem. Em segundo lugar, porque o atual contexto deu ao Irão a prova de que pode fechar o estreito de Ormuz, e isto significa que esta capacidade vai além do que é a intervenção militar. Ou seja, o Irão, perante um ambiente desfavorável pode voltar a fazer a mesma coisa. Depois, existe um receio evidente e legítimo das empresas de comércio marítimo e das seguradoras. Não é preciso ter um conflito, basta ter a ameaça, e a ameaça pode não ser a convencional das forças armadas ou dos guardas da revolução iranianos, mas de movimentos. Ter uma proteção — e a verdade é que os norte-americanos não fizeram ainda essa proteção, apesar de A dado momento terem dito que o fariam — diminui o preço dos seguros, diminui o risco às seguradoras e às empresas marítimas, e portanto, mais uma vez, o objetivo é a estabilização do tráfego naval, de comércio de recursos energéticos e, por consequência, a estabilidade económica global. É que isto não é só o conflito, são as suas consequências.Como é que Trump pode sair da guerra sem possivelmente conseguir atingir os objetivos a que se propôs?É preciso identificar que objetivos foram propostos, e há várias interpretações dos objetivos que foram propostos. Cumprir ou não cumprir esses objetivos é relativo. O secretário da guerra norte-americano disse que não é uma operação para mudança de regime. Se olharmos para a narrativa dos últimos dias, o regime mudou. Não sei quais são os indicadores que vão ser utilizados para a mudança de regime, se é a morte do ayatollah Khamenei. Isso não muda o regime, e vamos ficar, aliás, com o regime provavelmente mais radicalizado, mais militarizado, mais fragmentado do poder de decisão do que tínhamos anteriormente, portanto, o nível de risco e de ameaça do regime iraniano é maior hoje. O ayatollah Khamenei teve uma posição muito coerente em relação ao programa nuclear que deixámos de ter, e portanto, o risco de optar por um programa nuclear militar é maior hoje do que antes da intervenção. Dito isto, não me parece que haja dúvidas sobre a destruição de capacidades convencionais do Irão; já tenho mais dúvidas sobre a capacidade de resposta, porque o Irão tem uma doutrina de defesa ativa, convencional e não convencional, e tanto pode usar navios como lanchas automáticas, mísseis como drones de custo muito baixo. Já se percebeu que essa capacidade de destruição vai para além do estreito de Ormuz e do Golfo, com a capacidade dos houthis no Iémen de provocar disrupção no Mar Vermelho. Aí temos uma outra escala e um outro nível de impacto na economia global.Para Trump é uma questão de afinar a mensagem?Mais uma vez, é importante percebermos que a administração Trump vive de momentos comunicacionais, não vive de factos do ponto de vista estratégico e operacional, e no momento em que a administração Trump consiga algo no terreno que lhe permita criar uma mensagem de vitória, é nesse dia que a intervenção militar termina. Não é a vitória militar, não é o ponto de vista político, não é o ponto de vista diplomático e muito menos qualquer benefício para a população iraniana, que já teve 47 anos de opressão e vai continuar a ter, talvez até com mais violência, e a violência já era enorme. É o momento comunicacional que conta, é isso que vai determinar o momento em que Donald Trump diz, ‘ganhámos, fizemos o que tínhamos a fazer e agora saímos’.. Esta intervenção no Médio Oriente é um desastre em curso?Perguntaram-me antes da intervenção militar se ela iria ocorrer e a minha resposta imediata foi ‘espero que não’. Trabalhando sobre o Médio Oriente há mais de 20 anos, não era difícil perceber que o impacto iria incluir uma série de chamadas consequências inesperadas, inesperadas porque saem daquilo que é o controlo de quem faz a intervenção. E essas consequências vão ser muito mais alargadas no tempo e muito mais profundas na região do que aquilo que poderemos antecipar agora, e não só na região. Esta intervenção militar vai ter um resultado muito mais negativo do que positivo. Os EUA sairão com muita dificuldade em comunicar positivamente esta intervenção do ponto de vista interno, que é a prioridade para a administração norte-americana, e do ponto de vista externo. Em julho teremos a cimeira da NATO em Ancara, e o primeiro impacto será aí, mas essa avaliação começa sempre para a administração Trump pela dimensão interna, e a indicação de que dois terços dos norte-americanos querem que os EUA saiam rapidamente não deve ser secundarizado. É nesse timing que Donald Trump joga para a saída do conflito, e não naquilo que seja o impacto na população do Irão..“A estratégia de Israel é tomar posse de territórios. É isso que vai acontecer no sul do Líbano até ao rio Litani, porque tem a capacidade militar.” .Como serão as relações do Irão com os países do Golfo?Os estados do Golfo são os mais afetados nesta mudança. Provavelmente, os Emirados, no caso do Dubai e de Abu Dhabi, como centros financeiros, com uma grande aposta na internacionalização da economia, vão ser os principais afetados, e logo a seguir o Qatar, a Arábia Saudita menos. Vai demorar muito tempo a readquirir a confiança das empresas que investem e das pessoas que passaram a viver nos países do Golfo e que agora pensam duas vezes nesta opção. E isto tem um impacto na estrutura económica. Até ao momento, tem havido uma reação muito prudente da resposta dos países do Golfo, porque são estes que vão continuar a ter o Irão como vizinho e que vão ter de garantir a defesa dos seus territórios e das suas sociedades. Todos os países do Golfo têm feito um investimento avassalador em capacidades militares ao longo dos últimos 15 anos. Em alta tecnologia, principalmente, à indústria norte-americana. O que é que eles perceberam? Que a presença de bases internacionais, designadamente norte-americanas, não serviu de dissuasão, e em segundo lugar que estão altamente vulneráveis àquilo que é a resposta de um Estado como o Irão. E isto vai levar a uma cooperação mais intensa do ponto de vista da defesa entre os estados do Golfo, incluindo com outros atores. Tomemos como exemplo o acordo de defesa entre a Arábia Saudita e o Paquistão, e vamos olhar para um posicionamento de todos os estados do Golfo de uma forma muito mais regional do que através de parcerias internacionais.Israel está a seguir uma estratégia de longo prazo?É uma estratégia que vem sendo definida pelo primeiro-ministro Netanyahu há 20 anos. Sendo que tem hoje um quadro político interno bastante mais favorável. É importante percebermos que há mudanças estruturais na sociedade israelita do ponto de vista social, demográfico, étnico ou etnorreligioso que são independentes da questão palestiniana mas que têm um impacto muitíssimo profundo naquilo que é o sistema político. O peso das comunidades de nacionalismo extremo, designadamente aquelas que suportam os colonatos, e de judeus ultra-ortodoxos, é hoje proporcionalmente muito maior, além da comunidade árabe que também cresceu. Vamos assistir a um Estado de Israel e uma sociedade israelita numa evolução que é gradual, mas que é muito diferente daquele que foi criado com o conceito de Ben-Gurion e de Golda Meir no final da década de 40. E esta estratégia é tomar posse de territórios. Gaza é óbvio, Cisjordânia é óbvio, sul do Líbano é óbvio, e não vai mais para os montes Golã porque depois do reconhecimento internacional da nova liderança na Síria, essa parte ficou ligeiramente congelada. Não há Estado no Líbano há muitos anos, não há uma sociedade funcional no Líbano há muitos anos, e a população do norte de Israel tem sido alvo de inúmeros ataques do Hezbollah. Desengane-se quem pense que o Hezbollah está morto e enterrado depois destas intervenções. E portanto a opção do governo de Israel é tomar posse para depois ter o reconhecimento, e é isso que vai acontecer no caso do sul do Líbano até ao rio Litani, porque tem capacidade militar, e porque não tem de um lado libanês uma estrutura que faça o equilíbrio ou a oposição, nem do ponto de vista militar.Como é que essa grande Israel se acomoda com os Acordos de Abraão?Tem toda a conciliação, porque os Acordos de Abraão são uma proposta bastante inteligente para alcançar aquilo que só o Médio Oriente não tem, que é a integração regional, ou seja, a integração de economias. E a proposta da administração Trump I é, através da integração da economia, normalizar as relações entre estados. Este é o caminho que se seguiu nos últimos 80 anos da história do sistema económico e político internacional, portanto aplicou-se ali. Só que esta normalização depende do posicionamento destes estados, e hoje é muito mais difícil, perante a intervenção militar em Gaza. A guerra em Gaza deixou marcas profundíssimas em toda a comunidade muçulmana, e não só no Médio Oriente, vai muito além, e quando eu digo comunidade muçulmana não são os dirigentes e decisores políticos, são as populações. E agora esta nova guerra no Médio Oriente, pelo impacto que tem, incluindo nas economias e no dia a dia das populações, condiciona esta normalização de relações, tal como o posicionamento de Israel.E o Estado da Palestina é uma miragem.Ficou cada vez mais. O Estado da Palestina só volta à agenda política quando há uma tragédia, e essa tragédia passou novamente a ser uma nota de rodapé, mas continua a chegar aos telemóveis das sociedades da região todos os dias, e isso causa impacto.