Mais um bluff ou o prenúncio de uma dramática escalada na guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão? No domingo, depois de ter festejado a operação bem-sucedida de busca e salvamento de um piloto que havia ejetado de um caça abatido pela defesa iraniana, o presidente norte-americano voltou a falar nas redes sociais sobre o ultimato endereçado na véspera a Teerão: ou o estreito de Ormuz é aberto a todo o tráfego marítimo, ou na terça-feira serão alvo de bombardeamentos centrais elétricas e pontes. Mais tarde, prolongou as 48 horas até às 20h da costa leste americana (1h de quarta-feira em Portugal continental). Este ultimato vem na senda de um primeiro, datado de 21 de março, também de 48 horas, mais tarde suspenso, e no dia 27 último prorrogado para dez dias. Teerão não dá sinais de ceder.Foi a missão da república islâmica nas Nações Unidas que reagiu primeiro às renovadas ameaças de Donald Trump: “Se a consciência das Nações Unidas estivesse viva, não permaneceria em silêncio perante a ameaça explícita e descarada do presidente belicista dos Estados Unidos de atingir infraestruturas civis. Trump procura arrastar a região para uma guerra sem fim”, afirmou a missão no X. “É uma incitação direta e pública para aterrorizar civis e uma prova clara da intenção de cometer um crime de guerra”, prosseguiu, instando os restantes Estados-membros a reagir. Horas antes, o presidente dos EUA usou uma linguagem desabrida ao referir-se ao estreito de Ormuz e aos dirigentes iranianos. .“Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo reunido num só, no Irão. Não haverá nada igual!! Abram o maldito estreito, seus bastardos loucos, ou vão viver no inferno — vão ver! Louvado seja Alá.”Donald Trump.Se a missão em Nova Iorque apelou para uma reação da comunidade internacional, já o ministro da Cultura iraniano, em declarações à Associated Press, adotou uma tática diferente, ao menosprezar o presidente dos EUA. “A sociedade iraniana, em geral, não presta atenção às suas declarações, pois acredita que ele carece de equilíbrio pessoal, comportamental e verbal, e muda constantemente entre posições contraditórias”, disse Sayed Reza Salihi-Amiri, o qual ainda chamou a Trump de “figura instável e delirante”. .Será que a ‘fatwa’ de Khamenei ao nuclear morreu com ele? .A sociedade iraniana pode não prestar atenção às comunicações do presidente dos EUA — até porque os iranianos estão perante o mais longo bloqueio de internet, segundo a ONG Netblocks —, mas as autoridades prestaram. O homem que Trump disse ser o interlocutor dos EUA nas conversações, Mohammad Bagher Ghalibaf, também respondeu no X e respondeu com a mesma metáfora. O presidente do Parlamento iraniano disse que as “ações imprudentes” de Trump estão “a levar os Estados Unidos a um verdadeiro inferno para cada família” — possível referência ao aumento global do preço dos combustíveis —, e disse que “a região vai arder porque insiste em seguir as ordens de [primeiro-ministro israelita Benjamin] Netanyahu”. Ghalibaf apontou como única solução o “respeito pelos direitos do povo iraniano” para “terminar este jogo perigoso”. .“Trump falou sobre a incapacidade de fornecer ‘creches e cuidados de saúde’ ao povo americano, citando a guerra como desculpa (...) Quem sacrifica o bem-estar do povo para ameaçar outros continua preso à ‘Idade da Pedra’.”Mohammad Reza Aref, vice-presidente do Irão.Por fim, ao mencionarem os ataques de domingo a infraestruturas no Kuwait, Bahrein e Emirados como retaliação à destruição de uma ponte rodoviária que liga Teerão aos seus subúrbios, bem como às instalações petroquímicas de Mahshahr, os Guardas da Revolução avisaram que, “se os ataques a instalações civis se repetirem, a próxima fase da operação será mais intensa e de maior alcance”. Desde a primeira vez que Trump ameaçou com a destruição de alvos não militares que o regime iraniano deixou claro que iria retrucar na mesma moeda. Entre mensagens na Truth Social, o presidente dos EUA disse à Fox News ser possível chegar a um acordo com o Irão nesta segunda-feira de manhã. Para a presidência iraniana, o Irão só abrirá o estreito de Ormuz após receber compensações pelos danos de guerra, as quais poderiam ser pagas através de taxas de trânsito, disse um funcionário responsável pelas comunicações da presidência, Seyyed Mehdi Tabatabaei. Se a ameaça se concretizar, os norte-americanos e israelitas poderão ter como alvos as centrais elétricas de Damavand, na província de Teerão, de Ramin, no sudoeste do país, e de Karman, no sudeste. Em resposta, o Irão poderá tentar alvejar centrais elétricas israelitas, caso de Orot Rabin, a norte de Telavive. Aviador resgatado com ajuda da CIANuma mensagem publicada nos primeiros minutos de domingo nos EUA, Trump anunciou a retirada, com vida, do aviador cujo caça havia sido abatido na sexta-feira. Mais tarde, disse que o estado de saúde do militar em questão, um coronel, estava “gravemente ferido”. Segundo os meios de comunicação norte-americanos, a operação contou com o apoio decisivo da CIA. Esta agência lançou uma campanha de desinformação no Irão, segundo a qual as forças dos EUA já estavam a transportar o aviador do F-15 por terra, quando este, na realidade, permaneceu escondido numa fenda de uma montanha. Segundo Teerão, que mostrou um vídeo de destroços carbonizados, a operação de busca e salvamento saldou-se na perda de dois aviões MC-130 e de dois helicópteros Blackhawk para os EUA. Segundo a versão de Washington, publicada pelo Wall Street Journal, os dois aviões em questão, preparados para realizar ações encobertas, foram destruídos pelas forças norte-americanas por estarem avariados.