Quando Ithaki (ítaca) chegou às livrarias, no final de novembro, tornou-se óbvio que a epopeia de 760 páginas não era apenas uma memória dos anos conturbados da crise grega. Era o início do regresso à política do seu autor: o antigo primeiro-ministro Alexis Tsipras, hoje com 51 anos, que aproveitou os eventos do lançamento do livro para fazer comícios por todo o país. Esse regresso tem o seu próximo capítulo na terça-feira (26 de maio), quando o antigo líder do Syriza, que governou a Grécia entre 2015 e 2019, lançar o seu novo partido político - que ainda não tem oficialmente nome. O objetivo: unir a esquerda para derrotar Kyriakos Mitsotakis, primeiro-ministro e líder dos conservadores da Nova Democracia, nas eleições previstas para o próximo ano - mas que se especula possam ser adiantadas já para o outono.“Nem é cedo nem é tarde. É hora”, revelou Tsipras na semana passada nas redes sociais, quando anunciou a data do lançamento do novo partido - 26 de maio. Segundo a imprensa grega, o evento será às 20h00 locais (18h00 em Lisboa), numa praça no centro de Atenas, sendo importante ver quem surge ao seu lado. No início do mês, já tinha revelado o manifesto do partido, focado no regresso da esquerda ao poder, reafirmando querer unir “as três principais correntes da esquerda contemporânea: os sociais-democratas, a esquerda radical e o movimento ambientalista”. Um campo marcado, nos últimos anos, por disputas internas e deriva ideológica. O livro de memórias Ithaki, que já estaria a imprimir a quarta edição ainda antes de as vendas começarem (segundo o jornal grego Kathimerini), serviu para “reabilitar uma imagem marcada por erros de cálculo políticos, divisões internas no partido e um legado ainda ferozmente debatido” (de acordo com outro jornal grego, ToVima) O governo de Tsipras levou a Grécia à beira do colapso financeiro, com um referendo em julho de 2015 que rejeitou as condições do resgate europeu - acabando depois por ser forçado a aceitar condições piores. A revolta interna no Syriza (e ele não tem problemas no livro em apontar o dedo aos antigos companheiros, como o seu primeiro ministro das Finanças, Yanis Varoufakis) levou o primeiro-ministro a convocar novas eleições, que ganhou, precisando contudo de se aliar aos nacionalistas de extrema-direita do ANEL para poder governar. O Syriza acabaria por perder as eleições europeias de maio de 2019, o que desencadeou a antecipação das legislativas - que também perdeu para a Nova Democracia. O partido voltaria a ser derrotado nas duas eleições de 2023 (em maio e junho, estas últimas após ser impossível formar maioria para governar nas primeiras), perdendo mais deputados em cada nova ida às urnas. Os conservadores acabaram por ter a maioria absoluta, levando Tsipras a deixar a liderança do Syriza. Só deixaria contudo o partido em outubro do ano passado.Desde que deixou a primeira linha da política, o antigo chefe do governo criou um instituto com o seu nome e, na primavera do ano passado, foi investigador residente em Políticas Públicas no Centro Minda de Gunzburg para Estudos Europeus e no Centro de Estudos Helénicos da Universidade de Harvard, nos EUA. E aproveitou o tempo para escrever o Ithaki e planear o regresso, numa altura em que a esquerda continua dividida e o primeiro-ministro está debaixo de críticas.O governo de Mitsotakis está sob fogo por causa de um alegado escândalo de fraude com os subsídios agrícolas europeus, assim como por causa de um escândalo de escutas telefónicas que visou membros do executivo, jornalistas e o líder da oposição (os socialistas do PASOK são a segunda força no Parlamento). Além disso, a lentidão da investigação ao acidente ferroviário de Tempi, que fez 57 mortos em 2023, também não abona a favor da popularidade de Mitsotakis. Aliás, Tsipras não é o único a lançar um novo partido. Na quinta-feira, Maria Karystianou, que perdeu a filha de 19 anos nesse acidente e ganhou popularidade enquanto presidente da associação das vítimas, também lançou o seu partido anti-establishment - o Esperança pela Democracia. Numa sondagem feita no início do mês, ainda antes de o partido de Tsipras ser oficializado, o ex-primeiro-ministro surgia com 15,1% das intenções de voto, atrás apenas da Nova Democracia (30,1%) e ligeiramente à frente do PASOK (14,9%). O Syriza não ia além de 1%, enquanto o Esperança surgia com 8,7%.