“Não toquem no Fedorov”, “Parem de sabotar a vitória” ou “Vergonha” foram algumas das palavras de ordem que se ouviram em várias cidades ucranianas, incluindo a capital, Kiev, mas também Lviv, nos protestos contra o afastamento do ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. A decisão do presidente Volodymyr Zelensky desagradou não só à sociedade civil, sobretudo aos jovens que contituíam o grosso dos manifestantes, mas também às chefias militares, que nos últimos setes meses aprenderam a apreciar os métodos de Fedorov, que não só modernizou o Ministério como se empenhou em o livrar das suspeitas de corrupção. Protestos populares como os de ontem têm sido raros desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Mas não são inédito. Há exatamente um ano, milhares também se manifestaram contra a polémica lei aprovada pelo presidente que retirava autonomia às agências anticorrupção ucranianas. Na altura, Zelensky acabou por ceder à pressão da rua, afirmando que as agências afinal iria continuar a funcionar e anunciando uma nova legislação para restaurar a independência dos órgãos criados com ajuda dos aliados ocidentais. Resta saber como vai reagir desta vez. A saída de Fedorov estará relacionada com tensões entre o ministro e o comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrskyi. O próprio Fedorov confirmou ter sugerido a Zelensky que tanto Syrskyi como o Chefe do Estado-Maior, Andrii Hnatov, deviam ser substituídos.Na conferência de imprensa em Kiev com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, Zelensky reconheceu que o conflito entre o Estado-Maior e o Ministério da Defesa tem sido “sistémico” e ocorrido “a vários níveis”, e que Syrskyi e Fedorov só colaborariam com a sua mediação..Perante a recusa do presidente de substituir Syrskyi explicou que terá tentado trabalhar com ele, mas apenas para ver todas as suas iniciativas “bloqueadas”. E não escondeu a crítica: “Em vez de encontrar uma forma de derrotar a Rússia de forma assimétrica – o que é função do comandante-chefe –, ele encontrou uma forma de dividir o nosso país”. Recusada a proposta de Zelensky de ficar como conselheiro, Fedorov demitiu-se. Mas mostrou-se “confiante” que o presidente “ouve o povo ucraniano, sabe o que faz e que a situação se vai resolver a 100%”.Nomeado ministro em janeiro, Fedorov procurou restruturar o Ministério da Defesa, muitas vezes acusado de se perder em burocracias e ainda funcionar muito à semelhança dos tempos soviéticos. Antigo ministro da Digitalização, foi Fedorov quem desenvolveu um “exército” de voluntários capaz de lançar ciber-ataques contra a Rússia, lançou uma campanha de recolha de fundos para o Exército de Drones e criou um sistema de recompensas para as unidades do exército ucraniano que atingissem alvos russos. Um dos nomes de que se fala para o substituir é Ihor Klymenko, até agora responsável pela pasta do Interior. Mas o Parlamento ucraniano adiou ontem a decisão em relação a Fedorov.A saída de Fedorov não é a única alteração feita por Zelensky no governo nos últimos dias. Depois da saída da primeira-ministra Yulia Svyrydenko, de 40 anos, o Parlamento já aprovou a nomeação de Serhiy Koretsky, de 48 e presidente da empresa estatal de petróleo e gás Naftogaz, como seu substituto. Svyrydenko estava no cargo desde 17 de julho de 2025.Segundo o Kyiv Independent, o presidente explicou esta remodelação com base na transformação da estratégia política ucraniana, afirmando que a preparação para o próximo inverno é “extremamente importante” e que “a Ucrânia precisa de estar preparada para todas as ameaças que possam surgir.”A saída de Fedorov e os protestos populares que se lhe seguiram quase abafaram a visita de Starmer a Kiev. O primeiro-ministro britânico, que na segunda-feira deixa o lugar a Andy Burnham após ter sido forçado pelo seu partido a demitir-se, reiterou o apoio do Reino Unido a Kiev. Já Zelensky agradeceu a Starmer e disse esperar construir uma relação igualmente forte com o seu sucessor..Ministro da Defesa da Ucrânia anuncia demissão.Zelensky anuncia remodelação ministerial e substitui primeira-ministra da Ucrânia