Ucranianos saíram às ruas contra afastamento de Fedorov.
Ucranianos saíram às ruas contra afastamento de Fedorov.

Afastamento do ministro da Defesa leva ucranianos às ruas. Irá Zelensky ceder?

Decisão do presidente de afastar Mykhailo Fedorov desagradou à sociedade civil e às chefias militares. O ministro, de 35 anos, terá saído devido a tensões com o comandante das Forças Armadas. Há um ano, manifestantes levaram Zelensky a recuar na lei que retirava autonomia às agências anticorrupção.
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“Não toquem no Fedorov”, “Parem de sabotar a vitória” ou “Vergonha” foram algumas das palavras de ordem que se ouviram em várias cidades ucranianas, incluindo a capital, Kiev, mas também Lviv, nos protestos contra o afastamento do ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. A decisão do presidente Volodymyr Zelensky desagradou não só à sociedade civil, sobretudo aos jovens que contituíam o grosso dos manifestantes, mas também às chefias militares, que nos últimos setes meses aprenderam a apreciar os métodos de Fedorov, que não só modernizou o Ministério como se empenhou em o livrar das suspeitas de corrupção.

Protestos populares como os de ontem têm sido raros desde a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Mas não são inédito. Há exatamente um ano, milhares também se manifestaram contra a polémica lei aprovada pelo presidente que retirava autonomia às agências anticorrupção ucranianas. Na altura, Zelensky acabou por ceder à pressão da rua, afirmando que as agências afinal iria continuar a funcionar e anunciando uma nova legislação para restaurar a independência dos órgãos criados com ajuda dos aliados ocidentais. Resta saber como vai reagir desta vez.

A saída de Fedorov estará relacionada com tensões entre o ministro e o comandante das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrskyi. O próprio Fedorov confirmou ter sugerido a Zelensky que tanto Syrskyi como o Chefe do Estado-Maior, Andrii Hnatov, deviam ser substituídos.

Na conferência de imprensa em Kiev com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, Zelensky reconheceu que o conflito entre o Estado-Maior e o Ministério da Defesa tem sido “sistémico” e ocorrido “a vários níveis”, e que Syrskyi e Fedorov só colaborariam com a sua mediação.

Starmer foi a Kiev despedir-se de Zelensky antes de deixar o cargo.
Starmer foi a Kiev despedir-se de Zelensky antes de deixar o cargo.EPA/SERGEY DOLZHENKO

Perante a recusa do presidente de substituir Syrskyi explicou que terá tentado trabalhar com ele, mas apenas para ver todas as suas iniciativas “bloqueadas”. E não escondeu a crítica: “Em vez de encontrar uma forma de derrotar a Rússia de forma assimétrica – o que é função do comandante-chefe –, ele encontrou uma forma de dividir o nosso país”. Recusada a proposta de Zelensky de ficar como conselheiro, Fedorov demitiu-se. Mas mostrou-se “confiante” que o presidente “ouve o povo ucraniano, sabe o que faz e que a situação se vai resolver a 100%”.

Nomeado ministro em janeiro, Fedorov procurou restruturar o Ministério da Defesa, muitas vezes acusado de se perder em burocracias e ainda funcionar muito à semelhança dos tempos soviéticos.

Antigo ministro da Digitalização, foi Fedorov quem desenvolveu um “exército” de voluntários capaz de lançar ciber-ataques contra a Rússia, lançou uma campanha de recolha de fundos para o Exército de Drones e criou um sistema de recompensas para as unidades do exército ucraniano que atingissem alvos russos.

Um dos nomes de que se fala para o substituir é Ihor Klymenko, até agora responsável pela pasta do Interior. Mas o Parlamento ucraniano adiou ontem a decisão em relação a Fedorov.

A saída de Fedorov não é a única alteração feita por Zelensky no governo nos últimos dias. Depois da saída da primeira-ministra Yulia Svyrydenko, de 40 anos, o Parlamento já aprovou a nomeação de Serhiy Koretsky, de 48 e presidente da empresa estatal de petróleo e gás Naftogaz, como seu substituto. Svyrydenko estava no cargo desde 17 de julho de 2025.

Segundo o Kyiv Independent, o presidente explicou esta remodelação com base na transformação da estratégia política ucraniana, afirmando que a preparação para o próximo inverno é “extremamente importante” e que “a Ucrânia precisa de estar preparada para todas as ameaças que possam surgir.”

A saída de Fedorov e os protestos populares que se lhe seguiram quase abafaram a visita de Starmer a Kiev. O primeiro-ministro britânico, que na segunda-feira deixa o lugar a Andy Burnham após ter sido forçado pelo seu partido a demitir-se, reiterou o apoio do Reino Unido a Kiev. Já Zelensky agradeceu a Starmer e disse esperar construir uma relação igualmente forte com o seu sucessor.

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