José Luis Zapatero será, a 2 de junho, o primeiro antigo chefe de governo espanhol a responder em tribunal por um crime. É acusado pela Audiência Nacional de alegada organização criminosa, tráfico de influência e falsificação de documentos no âmbito do caso Plus Ultra, com tentáculos na Venezuela, estimando-se que tenha cobrado comissões ilícitas no valor de quase dois milhões de euros (as suas contas já foram bloqueadas). O socialista nega tudo e conta com o “apoio total” do atual primeiro-ministro, Pedro Sánchez, o que o deixa na mira da oposição. Mas o que é este caso? A Plus Ultra é uma companhia aérea espanhola que, em março de 2021, depois da pandemia de covid-19, foi alvo de um resgate no valor de 53 milhões de euros do governo de Sánchez. Não foi a única, mas o caso levantou logo suspeitas, porque a empresa era pequena (tinha só quatro aviões alugados) - mas foi considerada “estratégica” pelos voos com a América Latina, incluindo a Venezuela. Mas a justiça, na altura, não encontrou qualquer ilegalidade. O caso foi reaberto há dois anos, quando França e Suíça pediram ajuda a Espanha para investigar uma rede de branqueamento de capitais ligada à Venezuela, com o presidente e o CEO da Plus Ultra a serem detidos em dezembro do ano passado. A suspeita era que o resgate tivesse servido para pagar empréstimos fictícios e “limpar” dinheiro oriundo da Venezuela.Nessa altura também foi detido Julio Martínez, amigo de Zapatero e dono da consultora Análisis Relevante, para a qual o ex-primeiro-ministro trabalhava como assessor - tal como as suas filhas, Laura e Alba, sócias da empresa de comunicação Whatefav. Após a detenção de Martínez, que entre 2020 e 2024 terá controlado um total de 39 empresas (suspeita-se que cerca de metade delas estariam envolvidas nesta rede), a associação de extrema-direita Manos Limpias apresentou queixa contra Zapatero. E o ex-primeiro-ministro começou a ser investigado, suspeitando-se que possa ter usado os seus contactos para pressionar o ex-ministro dos Transportes para acelerar o resgate da Plus Ultra. José Luis Ábalos está detido por corrupção pelo chamado caso Koldo, relacionado com a compra de máscaras durante a pandemia.A ligação de Zapatero à Venezuela era conhecida, tendo começado como observador nas eleições de 2015 e acabado por se transformar em mediador entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição - num papel que foi muito criticado pelos opositores também em Madrid. Em relação à Plus Ultra, também se questiona a suposta interferência junto das autoridades venezuelanas para que a companhia aérea voasse durante a pandemia.A Plus Ultra operava em Caracas com uma rede de contactos ao mais alto nível que incluía a mulher do então presidente Nicolás Maduro, Cilia Flores, além da atual líder, Delcy Rodríguez. Dos 53 milhões de euros do resgate da companhia aérea, segundo a investigação, uma parte terá ido para Zapatero, outra para a Petróleos da Venezuela (com quem a Plus Ultra tinha uma dívida milionária), e para Álex Saab - um dos homens fortes de Maduro, que acaba de ser deportado para os EUA, onde é acusado de branqueamento de capitais. .Espanha. Zapatero diz-se inocente, PP quer eleições antecipadas.Zapatero, numa mensagem vídeo, disse que “nunca” negociou com qualquer “administração pública ou entidade do setor público” o resgate da companhia aérea. “Todas as minhas atividades, públicas e privadas, foram sempre conduzidas com absoluto respeito pela lei”, acrescentou, reiterando a sua disponibilidade para colaborar com a justiça. O PSOE e Sánchez saíram em defesa do ex-líder, insistindo na ideia da “presunção de inocência”, mas o primeiro-ministro admitiu o “momento duro” para o partido. O escândalo com Zapatero é mais um golpe depois dos maus resultados nas eleições autonómicas, com a oposição a pressionar o primeiro-ministro. O Partido Popular, que tem a maioria no Senado, já convocou a ex-secretária de Zapatero a testemunhar, esperando pela sua ida a tribunal para decidir se o chama também (e às filhas). A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, apelidou o ex-primeiro-ministro de “padrinho” do PSOE e do sanchismo e insistiu “Sánchez uniu o seu destino ao de Zapatero”. No Congresso, o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, abriu a porta a uma moção de censura, mas pediu aos aliados do governo que “tomem a iniciativa”, porque o sucesso de tal ação dependeria deles.