Há dias, Te Arikinui Kuini Nga Wai hono i te po foi recebida no palácio de Buckingham pelo rei Carlos III, no que foi o primeiro encontro entre o monarca britânico e a rainha maori desde que esta subiu ao trono em 2024. De passagem por Londres para assinalar os 200 anos do Tratado de Waitangi, que formalizou as relações entre os povos indígenas da Nova Zelândia e a coroa britânica, Te Arikinui também se reuniu com o príncipe William, com a soberana maori a transmitir ao herdeiro da coroa britânica a sua crença no “poder da sabedoria indígena” para “ajudar a resolver os desafios ambientais e sociais do mundo”. Filha mais nova de Kiingi Tuheitia Potatau Te Wherowhero VII, Te Arikinui , hoje com 29 anos, foi escolhida como sua sucessora por um conselho de chefes de tribos maoris. Durante a cerimónia, que decorreu na Ilha do Norte, a nova Kuini (rainha em língua maori) foi apresentada aos súbditos, sentada num trono de madeira esculpida, na sede do Kiingitanga, o movimento do rei maori.Te Arikinui foi abençoada com a mesma Bíblia que foi usada para ungir o primeiro rei maori em 1858 e sentou-se diante do caixão do pai, usando uma coroa de flores e uma capa, enquanto os presentes entoavam orações e cânticos.A monarquia maori foi criada em meados do século XIX, quando vários tribos se juntaram para criar uma figura unificadora inspirada na dos soberanos europeus. O objetivo era tentar evitar a perda de terras dos indígenas para os colonos britânicos e preservar a cultura maori. O monarca tem um papel essencialmente simbólico e cerimonial. Te Arikinui é apenas a segunda rainha maori, depois da sua avó, Te Arikinui Dame Te Atairangikaahu.Nascida a 13 de janeiro de 1997, Nga wai hono i te po, cujo nome significa “as águas juntam-se na noite”, tem dois irmãos mais velhos, sendo a única filha do rei Tuheitia. Educada na língua maori, cresceu imersa na cultura e nas tradições dos povos indígenas. Foi nessa língua que, um ano exato após a morte do pai e a sua ascensão ao trono, terminado o período oficial de luto, a rainha Te Arikinui fez o seu primeiro discurso como soberana. “Ser maori não se define por ter um inimigo ou um desafio a superar. Ser maori é falar a nossa língua. É cuidar do ambiente. É ler e aprender sobre a nossa história. É a escolha de ser chamado pelo nosso nome maori. Há muitas formas de manifestar o facto de ser maori, não apenas em momentos de protesto”, afirmou. E acrescentou: “Ser maori é para sempre, mas temos de cultivar continuamente essa expressão de ser maori para controlar o nosso próprio destino.”A nomeação de Nga Wai Hono i te Po surgiu num momento em que as tensões entre os maoris e o governo se intensificaram devido a políticas como a redução do uso oficial da língua maori e uma tentativa frustrada de submeter a referendo os princípios do documento fundador do país, o Tratado de Waitangi.Assinado em 1840, o tratado tem duas versões, uma em inglês e uma em maori. Composto por apenas três artigos, o primeiro garante a soberania do monarca britânico sobre a Nova Zelândia; o segundo garante aos chefes tribais a continuidade da chefia e a pertença das suas terras e tesouros; o terceiro garante a todos os maoris os mesmos direitos que os colonos britânicos. Mas o facto de as duas versões do documento não serem idênticas tem causado protestos dos indígenas que acusam a coroa de não cumprir os compromissos.O movimento Kiingitanga é o mais duradouro entre os que surgiram naquela altura para defender a soberania maori durante a onda de guerras e confiscações. No seu primeiro discurso, Te Arikinui não esqueceu as dificuldades que o seu povo enfrentou e os problemas que herdou. “Há cada vez menos tolerância em relação ao contínuo desmantelamento das iniciativas maori”, disse, numa alusão aos cortes do governo nos programas e no financiamento destinados aos maori. “Estamos em 2025, temos de deixar de permitir que forças externas nos impeçam de avançar. Temos de trilhar um novo caminho”, garantiu. Perante este cenário, a rainha Te Arikinui propôs duas soluções: uma cimeira económica para desenvolveu oportunidades para os maoris e um fundo com investimento inicial proveniente de entidades maoris.Símbolo da mudança geracional na monarquia maori, Te Arikinui surgiu vestida de azul escuro no seu primeiro discurso. No final, juntou-se à sua iwi (tribo, em maori) numa apresentação de kapa haka (espetáculo tradicional), a dançar e a cantar em cima dos seus sapatos de salto alto de pele de cobra. No queixo, a rainha exibe a tatuagem tradicional - chamada moko kauae - que fez aos 19 anos, numa demonstração de apoio aos dez anos de reinado do pai, que se assinalaram em 2016. “Este é o meu presente para ele”, garantia na altura.