Portugueses e búlgaros, por motivos diversos, são os povos europeus que mais acreditam no fim da guerra na Ucrânia, iniciada em 2014 com a anexação da Crimeia e as guerras separatistas do Donbass, e que conheceram novo capítulo com a invasão russa de 24 de fevereiro de 2022. Na sondagem realizada em 13 países para o grupo de reflexão Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR), os búlgaros são quem mais crê que, no prazo de um ano, as armas se tenham calado: 30% acredita na vitória de Moscovo e igual percentagem num acordo de paz. Já os portugueses, além de serem os segundos, a seguir aos ucranianos, a menos crerem numa vitória russa (4%), são quem mais se manifesta esperançado num acordo de paz (51%), muito acima da média (29%).O presidente ucraniano, por sua vez, mostra-se, no mínimo, cético em alcançar a paz. Em entrevista à BBC disse acreditar que o líder russo Vladimir Putin já iniciou a terceira guerra mundial. “Acredito que Putin já a tenha iniciado. A questão é quanto território ele conseguirá conquistar e como detê-lo”, afirmou Volodymyr Zelensky à estação pública britânica. .“Joga-se xadrez com muitos líderes, não com a Rússia. Não existe um único caminho certo. E um desses caminhos paralelos vai, penso eu, ter sucesso. Para nós, sucesso é deter Putin.”Volodymyr Zelensky.O ucraniano mostrou-se ainda aparentemente pouco sujeito às pressões dos Estados Unidos, o parceiro de defesa transformado em mediador que publicamente defende concessões de apenas um dos lados, o do país sob invasão, e voltou a apontar o dedo ao Kremlin. “Acredito que deter Putin hoje e impedi-lo de ocupar a Ucrânia é uma vitória para o mundo inteiro. Porque Putin não vai parar na Ucrânia.” Em Kiev, a chegada de Donald Trump à Casa Branca obrigou a um ajustamento diplomático, em especial desde a humilhação a que Zelensky foi votado na Sala Oval pelo vice J.D. Vance, há quase um ano. O único acordo entre a Ucrânia e os EUA foi o da exploração de terras raras. Enquanto Moscovo e Washington reabriram canais para explorar uma normalização bilateral — explicado pelos ideólogos republicanos como uma tentativa de separar a Rússia da China —, os Estados Unidos deixaram de fornecer material militar e até suspenderam a partilha de informações militares. No primeiro caso, os parceiros europeus viram-se obrigados a suprir o fim da ajuda, passando a adquirir o material e armamento de fabrico norte-americano. Quanto às informações, os EUA retomaram a partilha, mas estarão a deixar a tarefa para outros. Segundo palavras do presidente francês Emmanuel Macron, hoje em dia “dois terços” das informações militares prestadas à Ucrânia têm origem em França. Pelo meio, o aparente favorecimento à Rússia manifestou-se na cimeira entre Trump e Putin no Alasca, no subsequente plano de paz favorável à Rússia e as suas versões emendadas, a exigência de realização imediata de eleições presidenciais na Ucrânia, e mais recentemente, na última ronda de negociações, as reivindicações russas sobre a totalidade dos territórios do Donbass.No que toca às negociações, se do lado russo a posição maximalista não é abandonada — além da conquista territorial, exige-se a neutralidade política e a neutralização militar de Kiev —, do lado ucraniano o presidente agarra-se às garantias de segurança que poderão ser prestadas pelos EUA. Como a Ucrânia já foi vítima da violação pela Rússia, e em certa medida da inação dos EUA e Reino Unido, todos signatários do Memorando de Budapeste de 1994 que previa proteger Kiev em troca do abandono do programa nuclear, e mais a mais com uma presidência norte-americana distante e que já ameaçou os próprios aliados da NATO, de que forma pode Zelensky confiar? “Não é apenas o presidente Trump, estamos a falar dos Estados Unidos. Todos nós somos presidentes por períodos apropriados. Queremos garantias, por exemplo, para 30 anos. As elites políticas vão mudar, os líderes vão mudar”, disse à BBC, lembrando ainda que o acordo vincularia o Congresso..“Esta guerra só acabará quando um dos dois lados estiver esgotado, militar ou economicamente. Argumentos razoáveis e humanitários não irão convencer Putin. Esta é a amarga verdade.”Friedrich Merz. Refira-se que, na citada sondagem para o ECFR, os europeus em geral mostram-se insatisfeitos quer com os esforços de Trump (só 19% acredita que está a fazer um bom trabalho) , mas também com o papel da União Europeia (23% de avaliações positivas). Da Alemanha, o país que tem liderado os esforços no apoio militar desde a retirada dos EUA, o chanceler, que há dias se mostrara pessimista quanto a um desfecho da guerra no horizonte próximo, voltou a falar sobre o tema. “Estamos num ponto de viragem que poderá decidir o destino de todo o nosso continente. Todos devemos estar conscientes de que a forma como acabarmos com esta guerra na Europa terá um impacto duradouro na nossa vida e no nosso papel no mundo”, considerou Friedrich Merz. O democrata-cristão disse ainda que a Rússia queria fazer crer estar a ganhar a guerra, “mas os factos são muito diferentes”. Talvez por isso, alguns especialistas alertam para o perigo de um regime aprisionado à lógica da guerra e ao mito da invencibilidade, em especial depois de a janela de oportunidade de um acordo de paz parecer esfumado e de ter, pela primeira vez, perdido mais militares num ano do que aqueles que conseguiu arrebanhar. “A escalada deixa de ser uma escolha, é uma necessidade”, dizem William Dixon e Maksym Beznosiuk em artigo para o grupo de reflexão RUSI. Essa escalada, preveem, vai acentuar-se em ações de sabotagem, subversão e coerção.