Em maio de 2020, no auge da epidemia de covid nos EUA, uma Weijia Jiang de máscara colocou uma pergunta ao presidente Donald Trump durante uma conferência de imprensa nos jardins da Casa Branca. “Porque é que insiste que os EUA estão melhor do que outros países no que se refere aos testes, porque é uma competição global”, questionou a jornalista da CBS. “Pergunte à China”, respondeu Trump, passando a outro jornalista. Mas Jiang, nascida na China e cujos pais imigraram para os EUA quando ela tinha dois anos, não se calou e questionou: “porque é que me está a perguntar isso a mim, especificamente?” Visivelmente irritado, o presidente garantiu que não era uma pergunta específica, tentou dar a palavra a outro repórter, mas acabou por interromper a conferência de imprensa e sair. Passados quase seis anos, foi uma Weijia Jiang bem sorridente quem se sentou ao lado do presidente no jantar dos correspondentes na Casa Branca no passado sábado. Primeira mulher não branca à frente da associação de correspondentes, Jiang passou meses a planear o evento que junta mais de 2500 jornalistas, celebridades, empresários e membros da Administração. Este ano, o momento era ainda mais especial, ou não fosse a primeira vez que Trump aceitara estar presente no evento desde que chegara à Casa Branca. Os convidados estavam a terminar o primeiro prato enquanto Jiang olhava para o mentalista que contratara para animar o serão e que estava a mostrar ao presidente e à primeira-dama Melania Trump um cartão com o nome que garantia ser o do filho de Karoline Levitt, a porta-voz da Casa Branca que está prestes a dar à luz, sentada ao lado de Melania, quando se ouviram barulhos e agentes do Serviço Secreto acorreram ao palco para retirar o presidente. Lá fora, um homem disparara antes de ser detido pelos agentes. Jiang obedeceu aos gritos de “para baixo” dos agentes e saiu a rastejar atrás do presidente. Apenas para voltar pouco depois para anunciar que o jantar ia prosseguir, como era desejo de Trump. Mas tal não aconteceu e Jiang e outros jornalistas, ainda envergando vestidos de noite, saltos altos ou smokings, acabaram na Casa Branca numa conferência de imprensa em que Trump deu à jornalista da CBS oportunidade de fazer a primeira pergunta da noite. “O que pensou quando percebeu o que estava a acontecer?”, quis saber a jornalista. Depois de admitir que primeiro pensou que era “um tabuleiro” a cair, o presidente garantiu: “Este foi um evento dedicado à liberdade de expressão que se destinava a reunir membros de ambos os partidos com representantes da imprensa e, de certa forma, conseguiu-o, porque eles simplesmente uniram-se. Vi uma sala que estava totalmente unida.”É raro ouvir Trump falar assim de união e foi isso que Jiang destacou no dia seguinte na CBS ao recordar os eventos da noite. Nascida em Xiamen, na província de Fujian, Jiang foi criada numa cidadezinha da Virgínia Ocidental onde os pais tinham um restaurante chinês, trabalhando muitas vezes 18 horas por dia. “O presente que me deram foi a minha ética de trabalho”, disse a jornalista e, 2024 ao New York Times, acrescentando “e a minha compreensão de que é uma oportunidade poder fazer o trabalho que amamos.”Casada com Luther Lowe, executivo da Yelp, desde 2018, Jiang conheceu o futuro marido na universidade, em 2003, mas só em 2015 passaram de amigos a namorados. Lowe estava na sala durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca, com a filha mais velha do casal, de sete anos (têm também um rapaz), e os pais de Jiang. Foi neles que a jornalista pensou quando foi levada para as traseiras. “Quem os vai tirar dali? Quem vai empurrar as cadeiras de rodas? E a minha filha, estará assustada, a chorar?”, foram algumas das perguntas que lhe passaram pela cabeça. Sossegada em relação à segurança da família, Jiang voltou a vestir a pele da jornalista e seguiu para a Casa Branca, apanhando “boleia” na comitiva presidencial, enquanto algumas colegas “correram até ao local, em cima dos saltos altos”.Na CBS, explicou mais tarde que ao longo da carreira, acompanhou vários tiroteios, como o da escola Sandy Hook em 2012, mas esta foi a primeira que esteve “do outro lado”. E, admitiu, “nada nos prepara para isso.”Apaixonada por jornalismo desde os 13 anos, a mulher que na universidade William & Mary criou na televisão do campus um programa semanal em que ela vestia a pele de repórter séria e o futuro marido fazia de analista político divertido não se deixou abalar pelo barulho dos tiros ou contagiar pelo pânico na sala. Nessa noite, lembraria aos colegas: “o jornalismo é um serviço público, porque, quando há uma emergência, corremos para o local da crise, não fugimos dele.” Aos 42 anos, é isso que promete continuar a fazer. E o jantar dos correspondentes? Trump prometeu que se realizará em 30 dia. Jiang lá estará..O jantar com o presidente é a noite mais esperada pelos jornalistas