Investimentos de 15 a 25 milhões de euros em programas de restauro ecológico poderiam ter representado uma redução potencial de prejuízos de centenas de milhões de euros nas tempestades deste ano.A estimativa é da NBI-Natural Business Intelligence, consultora especializada na valorização do capital natural, que explica a importância de se investir na natureza e apresenta valores de “quanto custa” ignorá-la.Cruzando informações sobre os danos do “comboio de tempestades” de janeiro e fevereiro com estimativas económicas de medidas de restauro ecológico e gestão natural do risco de inundação, a NBI avança que as tempestades terão causado prejuízos de entre 5.000 e 6.000 milhões de euros.Desse valor, 40 a 55% estará associado a fenómenos hidrológicos, como cheias, o que corresponde a perdas de 2.200 a 3.300 milhões de euros.No que considera “um cenário conservador”, a NBI estima que cerca de 15% dos danos poderiam ser mitigados com soluções baseadas na natureza, representando uma redução de perdas de entre 330 e 495 milhões de euros. E tal podia ser conseguido com programas de restauro ecológico.O restauro ecológico em bacias hidrográficas prioritárias poderia exigir investimentos de entre 15 e 25 milhões de euros, que teriam apoios de fundos europeus, nota a empresa, que aponta a perda gradual de planícies naturais de inundação e a fragilidade das infraestruturas e sistemas naturais de proteção costeira face aos ventos ciclónicos.Ou seja, diz, o país tem vindo a perder capacidade natural de absorver eventos extremos.Nuno Gaspar de Oliveira, diretor da NBI, estava na Marinha Grande aquando da tempestade Kristin, a mais devastadora.Em declarações à Lusa, diz que com os terrenos saturados e a velocidade dos ventos haveria sempre danos. Mas podiam ser menores.Zonas com bolsas de vegetação nativa, como carvalhos e zonas de mato e outras, registaram danos 30 a 40% menores do que zonas só de pinhal ou eucaliptal, exemplifica o especialista.Lamenta que se esteja agora a calcular danos das tempestades para se reconstruir depois “na mesma lógica”, quando é público que os eventos extremos serão mais frequentes e as paisagens têm de ser mais resilientes.“Era ótimo que conseguíssemos aprender alguma coisa” com o que aconteceu, diz.E acrescenta: “Cada investimento que se tenta fazer na natureza aparece logo no vermelho”, como um custo sem retorno.“A natureza está no ângulo morto da economia”, afirma, alertando que investir na natureza é diferente de gastar na natureza.Há municípios do interior com trabalho de preservação em que “só se vê a despesa”, mas estão a “produzir coisas importantes, como diminuir a severidade dos incêndios, manter as águas nos aquíferos”, exemplifica.Segundo Nuno Gaspar de Oliveira, a natureza ajuda a proteger dos incêndios e das tempestades, ajuda na produtividade agrícola, no turismo.“E não podemos olhar para isto só como um custo”, o benefício não pode vir sempre a zeros, alerta.Nas palavras do responsável, é preciso criar modelos económicos que tornem viável investir nos territórios, e mostrar que investir é diferente de gastar.Quando se investe num hospital sabe-se qual será o retorno, mas “não se pode não saber qual é o retorno quando se investe numa frente ribeirinha ou num leito de cheia”.E com os incêndios é igual. Nuno Gaspar de Oliveira antecipa que se vai falar de que são necessários carros de bombeiros e aviões, mas se alguém disser que é preciso 80 milhões de euros para criar corredores para diminuir o risco de incêndio com outros modelos de vegetação, parece que é “só gastar”.Ainda esta semana a NBI deve lançar uma aplicação, de acesso livre, que permite a qualquer pessoa no país saber quais as espécies de árvores e arbustos serão mais resistentes e melhor adaptadas para cada local. .Mau tempo: Governo lança plano de 111 milhões de euros para recuperar zonas do litoral