A constituição do presidente da Câmara da Amadora, Vítor Ferreira, como um dos arguidos da Operação Imergente, que investiga contratos públicos celebrados por autarcas do PS, está a ser vista pela oposição de direita, maioritária nesse executivo camarário, como um sinal de que o socialista está fragilizado ao ponto de poder não ter condições para manter o cargo.Vítor Ferreira foi constituído arguido por suspeitas do crime de prevaricação devido à adjudicação, através de ajuste direto de 2200 euros, de um discurso sobre o 25 de Abril, ao antigo jornalista Duarte Moral, outro arguido da Operação Imergente, que passou a responsável pela comunicação do PS após José Luís Carneiro se tornar secretário-geral, e antes fora assessor de António Costa, no Ministério da Administração Interna e na Câmara de Lisboa, e do grupo parlamentar do PS.Contactada pelo DN, a vereadora Suzana Garcia, que nas autárquicas de 2025 foi a cabeça de lista da coligação Amadora Resolve (PSD-CDS-PPM-MPT-RIR), ficando a 2110 votos do PS, disse que “o minoritário executivo socialista sai bastante fragilizado” e que o envolvimento do presidente gera na população “evidente descrença nas suas capacidades e idoneidade”, para o que “concorre, porventura, ou não, até injustamente, a conhecida e odiosa morosidade da justiça”.Sobre a possibilidade de Vítor Ferreira, que o DN tentou contactar, renunciar, Suzana Garcia é cáustica: “Para ser honesta, até acho que era a salvação da Amadora, porque em vez de mais três anos disto, que é coisa nenhuma, talvez consigamos fazer as coisas que têm de ser feitas.” A advogada, que já em 2021 fora candidata do PSD, realça que o implicado na Operação Imergente lidera o município desde 2024, quando a então presidente, Carla Tavares, integrou a lista do PS às eleições europeias, “inexistindo qualquer medida ou obra suas de relevo”.De igual modo, a cabeça de lista da coligação Amadora Resolve - que tem quatro vereadores, tantos quanto o PS, enquanto o Chega tem dois e a CDU um -, aponta a Vítor Ferreira “falta de transparência e lealdade para com os munícipes”, acusando-o de não ter tido “coragem e ombridade de assumir, desde logo, por sua iniciativa e ab initio, que tinha visto a sua casa particular ser alvo de buscas pela Polícia Judiciária”, omitindo-o na resposta a um deputado municipal. E que tinha sido constituído arguido por um crime de prevaricação de titular de cargo político, que “não se trata de uma qualquer bagatela jurídica”, pois a pena pode atingir oito anos. Embora “não comungue da posição populista, e ‘mais papista do que o Papa’”, da ex-ministra e vereadora socialista Alexandra Leitão, que defende a suspensão de mandatos e renúncia a cargos políticos e partidários de socialistas arguidos na operação.Para Rui Paulo Sousa, deputado do Chega, que foi cabeça de lista desse partido nas autárquicas, “mais do que uma questão judicial, existe também uma questão política”, cabendo ao próprio Vítor Ferreira avaliar se continua a ter as condições para continuar em funções “sem que esta situação prejudique a credibilidade da instituição que representa”.“Numa altura em que a transparência e a confiança são requisitos essenciais para quem exerce cargos públicos, esta notícia não abona a favor do presidente da Câmara nem contribui para prestigiar a atividade política e autárquica”, defende Rui Paulo Sousa, realçando que uma investigação relacionada com o exercício de funções públicas, e que implica o presidente de um dos principais municípios do país, “acaba inevitavelmente por levantar dúvidas e por fragilizar a confiança dos munícipes nas instituições”. Embora admita que ser arguido não significa ser condenado e que o presidente da Câmara da Amadora “beneficia da presunção de inocência, como qualquer outro cidadão”, cabendo à Justiça apurar os factos.Entre os arguidos da Operação Imergente, além de Vítor Ferreira e Duarte Moral (e sua mulher, Rute Reimão), estão vários atuais e antigos autarcas do PS: os vereadores da Câmara de Lisboa Sérgio Cintra e Carla Madeira, a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, Carla Almeida, o ex-presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (deputado municipal com mandato suspenso), Miguel Coelho, a ex-vereadora da Câmara de Oeiras, Ana Filipa Laborinho, e o antigo líder concelhio oeirense, Rui Pedro Nascimento, sócio na empresa de Duarte Moral..PS só tem maioria na Assembleia Municipal.Depois de cinco vitórias das coligações lideradas pelo PCP, a Câmara da Amadora tornou-se um feudo do PS a partir das eleições autárquicas de 1997.Mas a hegemonia foi posta em causa no ano passado: a lista encabeçada por Vítor Ferreira, que completara o mandato da eurodeputada Carla Tavares, venceu, mas com apenas 33% dos votos, contra 30% da coligação de centro-direita Amadora Resolve e 17,6% do Chega. Além do presidente só há três vereadores socialistas, enquanto a coligação liderada pelo PSD tem quatro, o Chega dois e a CDU um.Vantagem do PS só na Assembleia Municipal, pois além dos 12 deputados eleitos conta com o voto de cinco dos seis presidentes de junta de freguesia do município, pelo que o socialista António Ramos Preto preside a esse órgão autárquico. O PS tem tantos deputados quanto a soma da coligação Amadora Resolve (incluindo um presidente de junta de freguesia social-democrata) com o Chega, mas CDU (2) e Livre superam Iniciativa Liberal e MPT..Presidente da Câmara da Amadora é arguido na Operação Imergente.Operação Imergente. Carneiro admite que caso prejudica imagem do PS e diz que Duarte Moral está suspenso