Este ano, a unidade  de Braga vai fabricar  dez milhões de radares. No primeiro trimestre, já produziu 40% do volume total de 2025.
Este ano, a unidade de Braga vai fabricar dez milhões de radares. No primeiro trimestre, já produziu 40% do volume total de 2025. Foto: D.R.

Bosch acelera condução autónoma com investimento de 30 milhões na produção de radares em Braga

Multinacional escolheu o centro de produção de Braga para testar e fabricar os novos sensores inteligentes. Este ano, vai produzir dez milhões de unidades. Será a fábrica com maior produção da Bosch.
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A Bosch quer imprimir a sua marca nos automóveis de condução autónoma e, para esse objectivo, está a apostar no conhecimento e no saber fazer português. A multinacional alemã tem uma equipa de 200 pessoas em Braga dedicadas à investigação, produção e industrialização de radares. A cada dois segundos é fabricado um destes equipamentos na unidade de Lomar que, no último ano, viu a sua capacidade de produção duplicar, após um investimento de quase 30 milhões de euros. Braga tornou-se o epicentro destes componentes do grupo alemão, que estão a revolucionar a mobilidade automóvel.

A fábrica bracarense - altamente robotizada (o desenvolvimento e o fabrico das máquinas têm assinatura Bosch) -, está já a produzir amostras do radar geração 7, o primeiro que irá incorporar inteligência artificial. Esta é a mais recente tecnologia da multinacional alemã e a unidade minhota foi selecionada a contribuir. A produção em série deverá arrancar no próximo ano e, em 2028, será a vez do geração 7 Premium. São equipamentos que vão transformar a condução automóvel. Segundo Carlos Jardim, administrador técnico do grupo em Braga, a Bosch está a trabalhar “a tecnologia para o carro do futuro, que será mais seguro, autonómo, conetado e divertido”.

Estes novos radares (ou sensores inteligentes) vão acelerar a entrada efetiva da condução autónoma nas estradas. A indústria automóvel global poderá incorporar vários sensores nos carros, permitindo uma maior eficácia na condução e, em determinadas circunstâncias, até a substituição das mãos no volante. Como sublinha Carlos Jardim, o automóvel do futuro “estará conetado a outros carros e infraestruturas e será cada vez mais personalizado por software”. E exemplifica: “Será como um telemóvel. Com aplicações selecionadas”. Para já, o geração 7 irá trazer mais segurança ao condutor e passageiros, através da deteção de obstáculos, como pneus e paletes, caídos na estrada a uma distância superior a 200 metros.

É uma inovação chave que se vai juntar a funcionalidades já incorporadas noutros radares Bosch, como deteção de campo de visão morto, assistência para mudança de faixa de rodagem e em engarrafamentos, controlo de velocidade adaptativo ou apoio na condução. E, muitas vezes sem o sabermos (até porque os sensores estão normalmente ocultos), encontram-se em modelos da BMW, Honda, Nissan, grupo Volkswagen e mesmo nos carros chineses da BYD. A Bosch fornece mais de vinte clientes no mundo, entre fabricantes de carros, motas, camiões e comboios. Ainda este ano, previsivelmente em setembro, a unidade de Braga vai também lançar um radar para o interior do veículo - o cabin sensing -, que permitirá alertar para a presença de bebés esquecidos no carro, entre outras possibilidades. A cereja em cima do bolo será a Geração 7 Premium, que assegurará a condução autónoma. Os sensores da sétima geração ainda não chegaram ao mercado, mas em Braga há a certeza de encomendas.

Carlos Jardim é o administrador técnico do grupo Bosch em Braga.
Carlos Jardim é o administrador técnico do grupo Bosch em Braga.Foto: D.R.

Enquanto decorrem os testes de fabrico desta nova geração, a unidade minhota está a fabricar radares Geração 5 Plus e 5 Premium, e Geração 6. Este é um percurso que se iniciou em 2022, com o 5 Plus, e cresceu ao ponto de Braga ser “a única unidade da Bosch a produzir o radar Geração 6”, frisa Nuno Ribeiro, diretor do programa do grupo. Nestes quatro anos, já saíram mais de 17 milhões de radares da fábrica de Lomar e, neste exercício, está previsto o fabrico de dez milhões de unidades, fruto do investimento nas três novas linhas que rondou os 25 a 30 milhões de euros, diz. Será quase o dobro da produção registada em 2025.

Segundo Nuno Ribeiro, “este ano, seremos a fábrica com maior produção de radares da Bosch”. Como frisa, só “nestes três primeiros meses de 2026, produzimos 40% do volume total de 2025”. E não deixa ainda de sublinhar: “Desde 2022, crescemos oito vezes em volume de vendas”. Com a duplicação da produção (passaram de três para seis linhas) há também capacidade instalada para responder ao expectável crescimento do mercado. Isso espera a Bosch, que já percebeu que as OEM (Original Equipment Manufacturer ou, em português, fabricante do equipamento original), estão a optar por radares ao invés de câmaras ou a combinar os dois equipamentos. Esta mudança deve-se à capacidade dos radares funcionarem em condições extremas de temperatura (até 40 graus negativos e 85 positivos) e de luz (em situações de nevoeiro e escuridão), explica. Mas não só. Os radares são transmissores e receptores de sinal. Já as câmaras apenas recebem dados.

Estes indicadores ilustram uma posição altamente competitiva de Braga dentro do universo do grupo Bosch. Até porque este centro de produção minhoto tem como “concorrentes” as fábricas da multinacional na Alemanha, China e México. No total, as quatro unidades fabricaram 100 milhões de radares nos últimos 25 anos e garantiram a liderança de mercado neste negócio. Nuno Ribeiro explica o sucesso do centro minhoto pela eficiência e custos da operação. Como frisa, “temos qualidade, temos custos competitivos até para concorrer com a China e somos muito rápidos”.

Hernâni Correia, responsável de desenvolvimento de hardware do grupo em Braga, lembra que inicialmente, os sensores da Geração 5 eram vendidos ao mercado a 40 euros, mas o preço desceu para metade logo que chegaram os de sexta geração. Atualmente, cada unidade é vendida a 10 euros. Valores que demonstram a dificuldade em ganhar espaço num mercado altamente concorrencial. É um negócio de um dígito de margem, que se sustenta no volume. E Braga afirmou-se competitiva nos custos e na rapidez. Ficou inclusive conhecida como Braga Speed, depois de ter industrializado o radar Geração 6 em menos de um ano. É uma agilidade de resposta “rara” nesta indústria, aponta Nuno Ribeiro.

Neste caminho, o centro de investigação & desenvolvimento da Bosch em Sequeira, Braga, tem uma marca ímpar. Com 60 colaboradores altamente qualificados, é o núcleo responsável pela inovação e testagem dos sensores. A engenharia preditiva é um dos principais focos. Como explica Hernâni Correia, o desenvolvimento de um produto como o radar exige conhecer o perfil dos condutores nos vários países onde irá operar e a dimensionar o equipamento para todos esses mercados. Uma ciência que obriga a cálculos matemáticos, simulações várias e à testagem das ondas eletromagnéticas, para medir com precisão as distâncias e os ângulos.

O negócio de radares da Bosch em Braga está também a impulsionar o emprego. Como adianta Lukas Wassermann, diretor de engenharia, “queremos contratar entre dez a 15 pessoas em diferentes disciplinas de engenharia”. Este responsável frisa mesmo que a Bosch tem o objetivo “de criar empregos e trazer tecnologia para Portugal”. E sintetiza: “Esta é uma área em crescimento”.

O complexo da Bosch em Braga, que surgiu em 1990, integra atualmente três áreas de produção, três armazéns logísticos e três centros de desenvolvimento. A presença da multinacional alemã em Portugal estende-se ainda a Aveiro, Ovar e Lisboa, empregando no total 6880 pessoas em território nacional. Em 2024, a operação portuguesa da Bosch gerou vendas de 2,4 mil milhões de euros, com a exportação a valer 97%. As contas do exercício de 2025 só serão divulgadas em maio. A nível global, o grupo informou recentemente que as receitas de vendas atingiram os 91 mil milhões de euros no ano passado (dados ainda preliminares), um ligeiro aumento face aos 90,3 mil milhões obtidos em 2024.

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