Carlos Gaspar: "Existe um risco real de confrontação militar direta entre os Estados Unidos e a China"

Entrevista a Carlos Gaspar, autor de O Regresso da Anarquia (Aletheia) e professor na Universidade Nova, sobre a ordem internacional marcada pelo trio EUA, Rússia e China. O livro será apresentado nesta quinta-feira em Lisboa na livraria da Travessa às 18.30 por Vasco Rato, académico e ex-presidente da FLAD.

A Guerra Fria foi um tempo de ordem internacional, embora com dois blocos antagonistas. Hoje, vivemos numa anarquia em termos de relações entre potências, apesar de o antagonismo entre as grandes potências não ser tão claramente militar como entre 1945 e 1989. Significa isto que a década de 1990, logo após a desagregação da URSS e ainda com a China a meio gás, foi a melhor das eras, um mundo em ordem sem grandes antagonismos?
A anarquia é a ordem dos Estados, que não reconhecem nenhuma autoridade superior à sua soberania e, nesse sentido, a anarquia define a ordem internacional tanto na Guerra Fria como no pós-Guerra Fria. Dito isso, é possível reconhecer que o "momento unipolar", o breve intervalo em que os Estados Unidos consolidaram a sua preponderância na política internacional, foi um período de "anarquia temperada", ou "anarquia domesticada". Nesse período diminuiu tanto o número de conflitos como a sua intensidade, uma vez que nenhuma potência tinha condições para desafiar os Estados Unidos. O fim do "momento unipolar" significa o regresso da competição estratégica entre as principais potências num sistema internacional cuja dinâmica é determinada pela luta pelo poder entre os Estados Unidos e as potências revisionistas, como a China, a Rússia ou o Irão, que querem pôr fim à ordem liberal.

Vladimir Putin está no poder desde 2000, Xi Jinping desde 2012, Donald Trump só desde 2017. Em que medida cada um deles tem responsabilidades neste regresso da anarquia?
As suas responsabilidades variam com o poder relativo de cada um dos principais dirigentes da Rússia, da China e dos Estados Unidos. Putin moldou a nova estratégia da Rússia, que implica um alinhamento crescente com a China, em nome do ressentimento nacionalista contra o Ocidente; a tomada do poder de Xi Jinping marca uma viragem na estratégia da China, que assume uma linha ofensiva de competição direta com os Estados Unidos para restaurar a sua hegemonia na Ásia Oriental e recuperar o seu lugar histórico no centro do mundo; Donald Trump não só confirmou a estratégia de retraimento dos Estados Unidos, iniciada por Barack Obama, como se quer libertar das alianças tradicionais e da ordem liberal e pôr fim à interdependência económica e tecnológica entre os Estados Unidos e a China, com o desacoplamento das duas maiores economias do mundo.

Estados Unidos de um lado, apesar da atração de Trump pela Rússia, Rússia e China do outro, como aliados. Esta parceria russo-chinesa é só de interesses momentâneos e pode desfazer-se como nos tempos comunistas da rivalidade entre Moscovo e Pequim, ou tem bases para perdurar?
A aliança entre a Rússia e a China é ditada pela vontade comum de contrabalançar os Estados Unidos e de desfazer a ordem internacional das democracias, que as duas autocracias continentais consideram como uma ameaça à sua sobrevivência política. Nesse sentido, tem condições para durar, embora persistam na relação russo-chinesa fatores de competição: a Rússia quer usar a "parceria estratégica" bilateral para enquadrar a ascensão da China, a China precisa da Rússia para garantir a sua retaguarda, uma vez que a sua prioridade é confrontar os Estados Unidos na Ásia.

O isolacionismo de Trump, mesmo que este não seja reeleito, fez já mossa incontornável na relação de confiança entre Estados Unidos e aliados europeus da NATO?
Há uma mudança inevitável nas perceções dos aliados da NATO em relação aos Estados Unidos, a partir do momento em que a garantia estratégica norte-americana, de que depende a defesa europeia, deixou de ser incondicional. Nesse contexto, é urgente criar um dissuasor europeu com uma credibilidade mínima.

Pode a União Europeia, mesmo debilitada pelo Brexit, desempenhar algum papel para contrariar a anarquia global?
A Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e a União Europeia como um todo continuam unidos na defesa da ordem liberal e das suas instituições multilaterais, incluindo a NATO, que servem para garantir a "paz democrática" no espaço da comunidade de segurança do Atlântico Norte.

Potências como a Índia ou o Japão podem emergir como atores de peso nas relações internacionais ou estão condenados a ser parceiros de um dos três grandes atores?
A Índia, o Japão e a própria Europa são os principais pivôs da competição entre as três principais potências internacionais. O seu alinhamento, ou não alinhamento, com os Estados Unidos, a China e a Rússia vai ser crucial para definir a conjuntura internacional.

Centrando-nos na rivalidade Estados Unidos-China, as duas grandes potências do futuro, ela pode transformar-se numa rivalidade militar como aconteceu entre americanos e soviéticos na Guerra Fria, quase desaparecendo os laços económicos?
A analogia entre a Guerra Fria e a competição entre os Estados Unidos e a China é equívoca. Desde logo, a Rússia continua a ser a segunda maior potência nuclear e a China uma potência nuclear de segunda ordem. Por outro lado, nunca existiu uma interdependência económica entre os Estados Unidos e a União Soviética, que se excluiu a si própria do sistema económico internacional. Finalmente, existe um risco real de confrontação militar direta entre os Estados Unidos e a China que os dois "irmãos inimigos" da Guerra Fria sempre conseguiram evitar.

Perante este regresso da anarquia, qual o papel a esperar de pequenos e médios países como Portugal e a maioria dos Estados europeus?
Portugal deve assumir a vocação internacional que partilha com os outros Estados históricos europeus - grandes, como a Grã-Bretanha ou a França, ou médios, como a Espanha ou a Holanda - para reintegrar o espaço atlântico como um todo e para abrir caminho para novas parcerias da Europa com a Índia e o Japão. A maioria dos Estados europeus são muito recentes ou são sazonais, sem nenhuma experiência política e diplomática relevante para lá das fronteiras da Europa.

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