Maçonaria: "Bases" do GOL travam desconfinamento

Direção do GOL deu ordem de desconfinamento mas as "bases" disseram que é melhor não. Permanece suspensa a "normalidade constitucional"

Tal como em muitas empresas, onde o regresso do teletrabalho às sedes está a enfrentar resistências, também no Grande Oriente Lusitano (GOL, a mais antiga obediência maçónica em Portugal) a ordem geral de desconfinamento teve dos "irmãos" uma resposta negativa.

Por causa disso, o grão-mestre, Fernando Lima, emitiu nova diretiva, reconhecendo que a "normalidade constitucional" na obediência está suspensa (pelo menos) até setembro. Já uma outra obediência maçónica, a Grande Loja Legal de Portugal, tinha há muito determinado que só iria regressar a essa normalidade em setembro.

O que se passou no GOL foi que, depois de o Conselho da Ordem (o "governo" da organização) ter emitido a tal ordem de (re)abertura - ordem acompanhada de uma lista com 50 novas regras de segurança sanitária -, esse mesmo Conselho começou a reunir com os responsáveis das várias "lojas" ("oficinas", no léxico interno) para operacionalizar a decisão.

Ora nessas conversas, o grão-mestre e o Conselho da Ordem verificaram que era grande a resistência - ou mesmo insuperável, no imediato - a ordem de desconfinamento. As reservas ultrapassavam em muito a disponibilidade para regressar aos tempos e retomar as reuniões presenciais. As quais, aliás, são no GOL as únicas possíveis, visto que o grão-mestre proibiu reuniões virtuais, com receio de quem fossem parar à net.

Há dias, na sua "mensagem do solstício de verão" - à qual o DN teve acesso - o grão-mestre reconheceu que a reabertura interna tinha de dar um passo atrás.

"Na última semana, o Conselho da Ordem reuniu, uma vez mais, com uma larga maioria das Oficinas do Grande Oriente Lusitano, a fim de ouvir as suas sugestões e conselhos", escreveu.

"Dado o juízo que o grão-mestre, ouvido o Conselho da Ordem, faz da incerteza por todos reconhecida do que poderão ser os próximos e imediatos tempos, entende não ser, ainda, o momento da retoma da normalidade constitucional."

Acrescentando que nessas reuniões se colheu "maioritariamente a opinião que, para a grande maioria, não existem condições para reunir antes das férias, com o conselho de em setembro se fazer a avaliação da situação que então se viva, por efeito da pandemia".

Conclusão: "Do mesmo modo, dado este facto e dado o juízo que o grão-mestre, ouvido o Conselho da Ordem, faz da incerteza por todos reconhecida do que poderão ser os próximos e imediatos tempos, entende não ser, ainda, o momento da retoma da normalidade constitucional".

"É obrigatório o uso permanente de máscara, que não deve ser retirada em qualquer momento, devendo cada obreiro ser portador da sua."

O que esta suspensão da "normalidade constitucionalidade" significa é que, para já, as "Oficinas" e os seus responsáveis ("veneráveis") estão por ora desobrigados de cumprir algumas das obrigações estatutárias internas. Por exemplo: as leis internas do GOL obrigam a que as "Oficinas" reúnam pelo menos duas vezes por mês. No momento presente, essa obrigação está suspensa. Dito de outra forma: se quiserem podem reunir; mas não têm que.

As 50 regras de segurança emitidas há semanas pela direção do GOL determinavam, por exemplo, que o uso do aventual continuava obrigatório nas reuniões presenciais. Mas tornava de uso obrigatório uma outra "peça" de vestuário: "É obrigatório o uso permanente de máscara, que não deve ser retirada em qualquer momento, devendo cada obreiro ser portador da sua." Ao mesmo tempo dispensava os "irmãos" de usar as luvas rituais, dado "não haver garantias quanto à sua higienização".

As regras pareciam seguir, no que toca à lotação e aos momentos litúrgicos, as regras das missas católicas. Nas salas das reuniões, cada "irmão" deverá dispor para si de "um espaço mínimo de quatro metros quadrados". E "deve garantir-se, com medidas adequadas, que as distâncias necessárias sejam respeitadas (por ex: barrando acesso a alguns bancos ou alternando as filas, afastando cadeiras, marcando os lugares com cores ou outra sinalética"). Sugere-se também marcação prévia de lugar.

Foram também aprovadas regras que interditam procedimentos que obrigam ao contacto físico entre os maçons. "A Cadeia de União, nos termos em que a praticamos, não será realizada por não garantir o distanciamento mínimo". A "cadeia da união" é algo equivalente ao abraço da paz na liturgia católica (aquele momento em que o crente cumprimenta com um aperto de mão ou um beijo o crente ao lado).

Ao mesmo tempo, o Tríplice Abraço Fraterno "está vivamente desaconselhado em todos os momentos, antes e após as sessões, e temporariamente suspenso no decurso destas, incluindo os momentos rituais em que estes estivessem previstos" - "e o mesmo se aplica a apertos de mão, ainda que com sentido ritual". Também, "por ser um meio de possível contaminação, não haverá circulação do Tronco da Beneficência" (outro momento com equivalência nas missas, o da recolha da esmola).

Ficavam também suspensas as sessões de iniciação (que consagram a entrada na obediência de um novo "irmão"). E "as votações secretas, bola branca e bola preta, considerando o processo de manuseamento das mesmas, não são admitidas, pelo que as deliberações que delas dependam devem ser adiadas".

O documento previa ainda as regras a cumprir depois das reuniões ("sessões"). "A realização de ágapes [refeições] nas instalações ou utilização de copas e bares está desaconselhada, devendo o seu acesso estar vedado"; descaconselhava também sessões comemorativas. (ex: aniversário de Loja)". E determinava que "não são autorizadas visitas de obreiros de outras obediências, independentemente da existência de relações fraternais reguladas"​.

Dizia igualmente que "se após uma sessão qualquer obreiro manifestar sintomas normalmente associados à doença, deve dar conta ao Venerável Mestre que, de imediato, deve informar por telefone ou e-mail o coordenador covid (grande tesoureiro-geral)".

"Só com o empenho de todos poderemos ultrapassar este período mais sombrio e almejar a claridade dos trabalhos."

Nessas circunstâncias, deveria "o venerável [chefe da Loja] também informar todos os obreiros que partilharam trabalhos com o obreiro sintomático" e "em face da gravidade que se vier a manifestar, o reporte às autoridades de saúde será da responsabilidade do venerável mestre". Nestas circunstâncias, o coordenador covid do GOL "espoletará todos os procedimentos de higienização da instalação em causa".

Os documentos internos incluíam um apelo: "Só com o empenho de todos poderemos ultrapassar este período mais sombrio e almejar a claridade dos trabalhos". E por isso"é necessário que todas as regras sejam atendidas."

Diziam também que, para já, a ordem de abertura não se aplicava à sede o GOL, o palácio maçónico do Grémio Lusitano, no Bairro Alto, devido à situação especial que se vive na Área Metropolitana de Lisboa.

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