Peter S. Miguel Jr.: o lusodescendente na primeira página do NYT sobre as vítimas do covid-19

Os EUA alcançaram nesta quarta-feira a marca dos cem mil mortos por coronavírus. No domingo, o The New York Times publicou na primeira página, sem foto e a continuar no interior, os nomes de quase mil dessas vítimas. Entre elas estava o pai de Lisa Miguel, filho de açorianos.

"Muito ativo na comunidade portuguesa. Peter S. Miguel Jr., 66 anos, Nashua, New Hampshire." No meio dos quase mil nomes que figuram na edição histórica de domingo do The New York Times, cuja primeira página é totalmente composta pela lista, sem imagens, está o do pai de Lisa Miguel. Filho de imigrantes da ilha Terceira, casado há quase 49 anos com outra açoriana, mas da Graciosa, morreu por complicações do covid-19 a 8 de maio de 2020.

"Fiquei muito feliz por saber que ele estava no The New York Times", disse Lisa, que descobriu que o pai fazia parte da lista por causa do contacto do DN. "Qualquer maneira de o podermos lembrar é sempre positiva. É óbvio que ainda é doloroso e há momentos em que não queremos pensar nisso, mas noutros momentos queremos e é bom ter mais esta lembrança", acrescentou.

Peter Sousa Miguel é um de mais de cem mil mortes por coronavírus nos EUA que o jornal norte-americano homenageou na sua edição de domingo (além da primeira página, os nomes ocupam mais três páginas). "Estas mil pessoas representam apenas um por cento do total. Nenhuma delas era apenas um número", lia-se no texto, transformado num especial no site do NYT, onde os nomes surgem como figuras a negro rodeadas de outras figuras a cinza, aqueles que ficam por nomear.

Lisa contou ao DN que o pai é filho de imigrantes açorianos da ilha Terceira, que tinham imigrado para o sul de Massachusetts. Ele nasceu em Seekonk, mas mudou-se para Lowell ainda adolescente. Nos últimos anos de vida, residia em Nashua, a cerca de 30 quilómetros de distância, já no estado de New Hampshire.

"O meu pai falava 100% português", explicou Lisa, indicando que a mãe, Maria Nazaré, mas que é conhecida por Mary, é ela própria açoriana, da ilha Graciosa. "A minha mãe só veio para os EUA quanto tinha 16 anos. Ela trabalhava e andava à noite na escola para aprender inglês. O meu pai falava perfeitamente português e foi na escola que se conheceram. Casaram um ano depois. Iam fazer 49 anos de casados em outubro", contou, acrescentando que também se sente 100% portuguesa.

O The New York Times fez a compilação de nomes através de obituários publicados em jornais locais ou por casas funerárias. O obituário de Peter S. Miguel foi publicado pela funerária McDonough. Nele lê-se: "Ele era muito ativo na Comunidade Portuguesa e era um comungante na Igreja de Santo António e muito dedicado à Sociedade do Espírito Santo, que ajudava regularmente e que frequentava, e adorava cantar karaoke no Four Seasons." Segundo a filha, o favorito era Johnny Cash e não se lembra de o ver cantar canções portuguesas, mas adorava dançar. O restaurante português lembrou o "Big Show" no Facebook.

Lisa explica que tanto o pai como a mãe eram voluntários e trabalhavam na organização de várias festas religiosas da comunidade portuguesa, como a festa do Espírito Santo ou a da Nossa Senhora de Fátima. "Foi bonito de ver que, apesar das condições do covid-19 e não serem permitidos grandes funerais ou velórios, veio muita gente para a rua ver passar o carro fúnebre do meu pai. Na rua da igreja de Santo António estavam pessoas alinhadas em ambos os lados da rua. Toda a gente adorava o meu pai. Ele fazia tudo para que as pessoas estivessem bem, felizes, ele fazia o que fosse preciso por qualquer pessoa e tinha sempre um sorriso na cara", contou Lisa.

O pai de Lisa contraiu o covid-19 no lar em que vivia desde outubro. Depois de há nove anos ter tido um enfarte, Peter deixou de poder trabalhar - tinha trabalhado no setor dos resíduos urbanos e em vendas, sendo que toda a vida foi uma espécie de faz tudo em casa, que adorava trabalhar com carros e ensinar depois os filhos e quem mais quisesse. "Nunca se chamava um eletricista ou um canalizador, o meu pai descobria como fazê-lo e depois ensinava a toda a gente", lembra a filha.

Depois do enfarte, ficou aos cuidados da mulher. "A minha mãe estava a tratar dele desde então, mas tornou-se demasiado. Tinham ambos 66 anos. Não são velhos, mas vai pesando teres que cuidar do teu marido que está numa cadeira de rodas, é muito difícil para ele ir de um lado para o outro, e não consegue comunicar", explicou.

A família - são três filhos e cinco netos - visitava-o todas as semanas, mas em março, por causa do covid-19, as visitas foram proibidas. De vez em quando as enfermeiras faziam uma videochamada para a família o poder ver.

Até que um dia, o lar contactou a mãe de Lisa a dizer que o pai tinha testado positivo para o covid-19, mas que não tinha sintomas. "Em três dias as coisas mudaram completamente, ele ficou muito doente e chegou a um ponto em que tinha que ser hospitalizado", disse Lisa. No hospital, onde deu entrada numa quarta-feira, disseram-lhe que não tinham muito tempo.

"Permitiram que a minha mãe, eu e um dos meus irmãos estivéssemos com ele e pudéssemos despedir-nos. Fiquei muito grata por nos terem deixado fazer isso. Foi muito difícil ver o meu pai, mas foi bom que tenham deixado que o fizéssemos", contou Lisa, com a voz emocionada. Por haver falta de camas e por o desfecho ser previsível, transferiram Peter para um centro de cuidados paliativos, onde acabaria por morrer na sexta-feira seguinte a ter ido para o hospital, depois de ter recebido mais uma visita da mulher.

Apesar da ligação à comunidade portuguesa, Peter e a mulher só vieram uma vez a Portugal, tendo passado uma semana em Lisboa há cerca de 20 anos. "Disseram que a cidade era linda e que foi uma das melhores viagens que fizeram", explicou Lisa. Peter não chegou a visitar as ilhas dos Açores, de onde os pais tinham partido.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG