Ruben Alves após 'A Gaiola Dourada': "Sou uma esponja! Quero contar histórias"

À última hora estreou-se Miss, de Ruben Alves, o sucessor de A Gaiola Dourada, a história de um rapaz que sonha em ser Miss France. O realizador luso-francês conta como resistiu a não fazer A Gaiola Dourada 2 e de como acredita numa leveza humana.

O mais azarado dos cineastas. Ruben Alves, lusodescendente, tinha este mais do que simpático Miss para estrear em França no primeiro trimestre, depois foi atraiçoado pelo fecho das salas em virtude do vírus. Azar duplo: no mês passado iria tentar estrear uma vez mais o filme em muitas salas de França depois de uma campanha a grande escala da Warner e de um tour promocional por várias cidades que prenunciava um sucesso ainda maior do que A Gaiola Dourada. Iria mas não se estreou - as salas voltaram a fechar portas 24 horas antes da estreia.

Em Portugal, quando os cinemas ficaram impossibilitados de poder fazer sessões após as 13.00 ao fim de semana, Miss voltou a ser adiado. O azar continua nesta semana: sem ninguém esperar, talvez devido a timings de janelas com compromissos com o streaming, estreia-se com aviso em cima da hora e sem o balanço da promoção desejada. Tudo o que esta comédia sobre identidade não merecia, um relato sobre um jovem que decide concorrer ao concurso de Miss France. Com a ajuda da sua família adotiva e de um travesti old school, Alex (interpretado com subtileza e garra por Alexandre Wetter, modelo que não é trans), começa a singrar nas provas de seleção. Num abrir e fechar de olhos, está a representar a região de Paris na prova que faz parar a França, tudo isto sem ninguém perceber que se trata de um homem graças a conselhos de drag queens e a muito tucking (a arte de esconder os genitais).

O filme é espantosamente versátil do ponto de vista emocional e mostra um Ruben Alves cada vez mais seguro num estilo de realização narrativo bem apelativo. Na Festa do Cinema Francês colocou o primeiro-ministro e um Cinema São Jorge esgotado a aplaudir de pé e efusivamente...

O Ruben ainda é um ator que começou a realizar? Ou sempre foi essencialmente um contador de histórias?
Sou um criador de emoção, uma esponja! Quero contar histórias... Seja onde estiver, seja ao pequeno-almoço, estou sempre a absorver tudo e, depois, tento recriar aquilo que me dá gozo, aquilo que me faz chorar. Fui ator porque em criança sempre imitei os meus professores, a minha família...

Era um entertainer...
Isso, mas atrás da câmara é onde tenho maior felicidade. Aí e na escrita. Fazer um filme leva-me uns três, quatro anos... A experiência de cineasta enriquece-me mais até porque adoro dirigir. Aliás, não gosto muito de ser dirigido, não gosto de estar à espera do desejo do outro. Pego nas minhas ideias e faço! Quando era ator, fazia aquilo, mas não estava totalmente feliz.

Mas perdeu-se o Ruben Alves ator?
Não se perdeu mas não é a prioridade. Por acaso, estou agora como ator num projeto sobre o Proust, com o Depardieu, cuja vontade era que entrasse à força toda no papel do Marcel. Quis antes fazer outro papel... Em suma, ser ator para mim não é vital e nem fico à espera de que me escolham.

Nem o vamos ver como protagonista nos seus filmes no futuro?
Neste nem tive tempo para brincar. Em A Gaiola Dourada fiz aquela coisinha apenas por brincadeira, foi tipo Hitchcock.

Será que consegue perceber se o sucesso de A Gaiola Dourada o mudou enquanto pessoa, enquanto artista?
De todo. Nada, era o que faltava! Como artista talvez tenha mudado o facto de ter ficado mais conhecido no meio.

Mas o sucesso não é por vezes um peso?
É mesmo! Mas comigo não, não carrego esse peso. Sabe, não gosto desse peso. Comecei a levar com a pressão do segundo filme e disse logo que não tinha de levar com expectativa nenhuma. Ora essa! Fiz o filme que queria fazer. Se levei sete anos para o fazer foi porque não estava a encontrar aquela coisa que me preenchia. Só quando conheci o Alexandre Wetter, primeiro nas redes sociais e depois ao vivo, é que percebi que aquela pessoa dava um filme. Vi nos seus olhos que ele tinha tudo para dar. Desde pequeno que o Alexandre faz performances, sempre trabalhando com a sua feminilidade. Abraçou o seu lado feminino de forma única, mas não quer ser uma mulher, apenas gosta de jogar com isso. Percebi que a feminilidade não pertence apenas às mulheres, tal como a masculinidade não é pertença só dos homens. Acho muito sexy uma mulher com o seu lado masculino desenvolvido.

Quis também fazer um discurso das políticas do género com Miss?
A base desta história é sobre assumir quem somos. Quando se é diferente, nesta sociedade de hoje tão violenta, tem-se uma vida difícil. Esta globalização dominante quer colocar-nos em caixas, todos iguais. Se és negro só podes falar sobre negros ou se és gay tens de fazer um filme sobre gays. Se és judeu tens de falar sobre judeus e por aí afora. Acho uma coragem inacreditável aqueles que assumem a sua diferença com um sorriso na boca. E o Alexandre é uma dessas luzes! Neste tema há também a questão da tolerância e da fraternidade. Se em A Gaiola Dourada trabalhava a identidade de um povo, aqui falo da identidade de um sonho.

Como conseguiu convencer a Warner a investir num filme em que se aborda o transgénero?
O meu pitch foi simples: um rapaz com um sonho sonha ser Miss France. "O quê!", responderam. Sim, é isso. Acabaram por adorar. A Warner, por serem americanos, arrisca muito mais...

E pode dar um remake em Hollywood? A América compra a ideia de um homem como Miss America?
De certeza que sim, então eles não fizeram o maravilhoso Tootsie? Vamos ver, porque não? Era fantástico. Eles que arranjem outro Alexandre... Não tenho interesse em ir para os EUA, estou bem na Europa.

Mas o difícil num filme como Miss é não perder a qualidade e conseguir ser acessível para vários públicos, não? É uma fina linha, parece-me...
Esse é o fator a que dou mais atenção na minha escrita e na realização. Gosto disso e o meu cinema está sempre nesse equilíbrio. Na verdade, o que conto não é nada de comédia. O que escrevo é cinema de autor mas a forma passa pela leveza, uma leveza que não é light, é humana. A bem dizer, as pessoas riem-se com Miss, mas no final também choram muito. Na antestreia de Lisboa houve mesmo emoção e as pessoas acabam por se emocionar mais do que rir.

É então um adepto do humor emocional...
​​​​​​​Não gosto de me rir se por trás não houver drama. Na comédia só me interessam os afetos humanos. Gosto desta mistura. Sem me querer comparar, o Almodóvar o que faz? Os percursos dos seus filmes são todos dramáticos mas as personagens são surreais e fazem rir, mas, para mim, tudo ali é drama. Em Miss as personagens dos travestis no Bosque de Bolonha têm imensa piada. Conheço aquelas pessoas e elas sabem brincar consigo próprias.

Estamos em 2020 e os concursos de misses parecem estar mais populares do que nunca. Como explica este fenómeno?
Também não estava à espera de que esta indústria fosse tão forte. Escolhi este mundo das misses também com intenção de sátira. O que achei interessante é ter uma personagem que não quer regras algumas na sociedade mas que depois entra num concurso que é composto somente por regras e supernormativo. Por outro lado, nunca pensei que a direção do Miss France dissesse sim a este filme. Acharam o guião maravilhoso e abriram-me todas as portas. Não são parvos, perceberam que esta era uma maneira de as pessoas verem o quão são modernos. O concurso Miss France tem muito mais audiências do que a Eurovisão, muito mais!

O seu filme leva também à mesa de debate a idealização da beleza. O que é isso? Até pode ser um homem...
Já me disseram que fui fazer um filme sobre algo que promove a beleza exterior, mas ao colocar um homem a concorrer a miss estou a combater os clichés, a dar um safanão...Fiz este filme para mostrar que não há só uma beleza. Fiquei muito feliz nas antestreias que fizemos em toda a França por ver que concorrentes de muitos concursos tipo Miss Redonda apareceram. A beleza é interior. Miss é criado para combater frases como "não podes chorar porque és rapaz".

A sociedade francesa está ainda demasiado heteronormativa?
Sim, ainda está. Até acredito que possa haver preconceito em relação ao filme, que haja quem pense que possa ser queer, mas depois de o verem não vão pensar assim. O filme é realmente universal e bate em todos os que não querem ser apenas ovelhas. Assusta-me ver as pessoas todas iguais nas redes sociais.

Antes de se meter neste projeto deve ter levado muito com a insistência de fazer uma sequela de A Gaiola Dourada...
Nem imagina... Nunca quis.

Mas também não acha que deveria dizer "nunca digas nunca"?
​​​​​​​Eu digo também, mas não quis vender a minha alma. Foi o meu primeiro filme e é especial - fi-lo com amor e para homenagear os meus pais. Não vejo a utilidade, apesar de ser muito fácil pensar-se numa sequela. Digo-lhe apenas que houve um momento em que se pensou fazer uma série e aí não disse totalmente que não pois seria uma outra coisa e poderíamos desenvolver outros temas dentro do tema. Ainda tentámos mas depois já não tive gozo.

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