Um filme para causar pesadelos a Fernando Medina e aos lisboetas

Alis Ubbo é um documentário mordaz sobre as transformações de Lisboa nesta altura de turismo global. A estreia de Paulo Abreu no campeonato das estreias comerciais. Ótimo para quem nunca se sentou num tuk-tuk da capital...

Continua a ser um cineasta invisível para a maioria dos cinéfilos portugueses. Paulo Abreu é alguém que tem apostado num cinema experimental e em curtas com espírito rock and roll, tendo sido nas longas documentais que tem mostrado uma maior vitalidade, em especial em obras como Phil Mendrix (sobre o falecido rocker) e I Don't Belong Here (êxito no circuito festivaleiro), mas é agora com este novo documentário que finalmente se estreia no circuito comercial aos 56 anos.

O filme, estreado no Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira no ano passado, é uma meditação punk sobre o fenómeno da gentrificação de Lisboa. Abreu limita-se a observar uma cidade incapaz de suster o fenómeno da invasão do turismo de massas. Em última instância, funciona como um manifesto livre sobre a impotência de todos perante um flagelo que mudou o próprio comportamento dos lisboetas.

O olhar do cineasta espalha uma ironia e uma amargura perante o tal estado das coisas: as ruas são dos tuk-tuks, das trotinetas e os guias, bem como as hordas de turistas, enchem todos e mais alguns passeios. Esse mesmo olhar tem um cicerone que é um protagonista carismático, João Patrício, historiador que ao volante do seu tuk-tuk subverte a função do "agente" de passeio lúdico. Patrício, qual ator ou performer, está em modo de agente provocador, fazendo uma ponte para uma ideia de património e história de uma cidade que já não é a mesma.

Filmado sempre pela calada (num trabalho que terá começado em 2016), Alis Ubbo (que em fenício significa porto seguro) põe a ridículo a febre e os procedimentos do novo turismo enlatado. Abreu observa e deixa-nos perante o vazio de toda esta tragédia de consumo rápido e de falta de respeito pela identidade de Lisboa. Conforme o cineasta brasileiro Karim Aïnouz já disse, Lisboa transformou-se numa Lisboalândia, numa feira de futilidades com propensão gourmet e o gesto deste olhar acutilante (mas nunca interventivo) é político.

Quem vir este filme vai sorrir com amargura e perceber que é tudo o que o município de Lisboa não quer como publicidade. E não deixa de ser curioso que chegue ao circuito dos cinemas (em Lisboa apenas numa sala numa zona na qual não se sente tanto a infestação do turismo de logótipo unificado...) um pouco depois de um filme feito já o ano passado: Lisboa Revisitada, de Eugène Green, encomenda da Casa de Cinema Manoel de Oliveira, onde o cineasta americano radicado em França filmava a mesma vampirização a Lisboa.

As más-línguas podem dizer que tudo isto é "chover no molhado", mas a verdade é que o modus operandi de Abreu traz sempre um valor de perplexidade perante uma estupidificação global, da ignorância dos turistas à farsa de quem permite a destruição da Lisboa antiga e dos seus valores. O turismo global tem destas coisas: é um predador tão veloz que consegue que um filme como este possa ser metade comédia à Tati (o realizador, na sua nota de intenções, refere também Dziva Vertov e Jean Vigo no seu A Propos de Nice e tal não é descabido) e metade filme de terror à Carpenter. O melhor de tudo é que nunca se cede ao pecado do objeto panfletário. Na boleia deste mordaz condutor de tuk-tuk vamos seguros, mesmo com tanto buraco na estrada e paragens para selfies pindéricas... E olhemos Lisboa com calma, com olhos de cinema...

*** Bom

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