"Trump é o mestre do ódio. Biden é simpático. Resta saber se a América escolhe o ruído ou a calma"

Patrick Siegler-Lathrop foi presidente do Democrats Abroad Portugal e é agora presidente do American Club of Lisbon. Na segunda-feira, o empresário franco-americano apresenta o livro Rendez-Vous com a América, no qual explica os meandros do sistema eleitoral dos Estados Unidos.

A 3 de novembro, os americanos vão escolher o novo presidente. São 50 estados, 50 eleições diferentes, mas apenas alguns são decisivos. Depois de 2016 houve alguma mudança nos swing states [estados oscilantes] e nos battleground states (estados decisivos)? Há mais olhares no Michigan e no Wisconsin?
Não, em geral são os mesmos. O Arizona, que há quatro anos não era dos mais decisivos, passou agora a ser. Há pequenas mudanças. Mas o que é espantoso é que a situação é muito semelhante a 2016. São os mesmos estados, as mesmas pessoas e as mesmas questões básicas que vão decidir tudo. Vai depender da mobilização do voto afro-americano, que é essencial para Joe Biden. Vai depender do número de mulheres dos subúrbios que votarem em Donald Trump. Vai depender de quão motivada a base republicana estará para ir votar, de quantos jovens vão votar. Em 2016, os jovens estiveram muito pouco presentes; em 2018, mobilizaram-se muito mais, para surpresa dos republicanos e de muita gente. Houve um forte aumento da participação dos eleitores abaixo dos 30 anos. Mas será que se vai repetir, ou reforçar, em 2020? O que é novo neste ano são as questões ligadas à covid. No que se refere ao impacto que a pandemia vai ter nas eleições, a verdade é que não sabemos. Isto nunca aconteceu antes. Podemos perguntar às pessoas se vão votar, mas todos sabemos que há uma grande diferença entre o que dizem que vão fazer e o que fazem verdadeiramente. Porque a situação é tão invulgar, há um nível de incerteza muito maior do que a imprensa vai dizendo. Se ler a imprensa hoje, diz que Biden vai ganhar - há sete hipóteses em oito de ganhar. É avassalador.

A imprensa também dizia que Hillary Clinton ia ganhar há quatro anos. E as sondagens davam-lhe a vitória...
Não era tanta diferença, mas sim. Há quatro anos, a vitória de Trump foi uma enorme surpresa. E quem faz as sondagens aprendeu muito em 2016. Por isso diria que as sondagens hoje são muito mais fiáveis. Fazer sondagens é muito complicado.

Especialmente nos EUA, onde o sistema eleitoral distorce tudo e as sondagens nacionais valem muito pouco?
Sim, as sondagens nacionais são irrelevantes nos EUA, tal como o voto popular é irrelevante. Sabemos disso. Fazer sondagens é difícil, até porque o resultado depende muito da forma como a pergunta é formulada. E nos EUA é ainda mais complicado porque mesmo que se encontre uma amostra de 2000 pessoas dispostas a responder, têm de refletir a diversidade da população. Em 2016, como o nível de educação não era visto como um fator fundamental para influenciar o sentido de voto, os institutos de sondagens não o tiveram muito em conta. Mas aprenderam com o erro.

Estava a falar dos efeitos da covid. Numa campanha marcada pela pandemia, com menos comícios, Biden sai a ganhar?
Sem dúvida. Trump é um mestre a fazer ruído. É melhor a fazer ruído do que qualquer político há muito tempo, e certamente melhor do que Biden. O facto de o nível de ruído gerado por Trump ter sido menor devido à relativa ausência de grandes comícios em estádios - apesar de ele ter feito alguns - tem beneficiado Biden. Mas uma das grandes questões que se põe e que os media tendem a esquecer é: qual é o estado de espírito da América. A eleição americana é uma eleição emocional, muito mais do que na maior parte dos outros países. Porque é que Ronald Reagan teve uma vitória tão expressiva? Porque, caramba, era um cowboy com bom aspeto, que todos adorávamos ver nos filmes e de repente era o nosso presidente. Da mesma forma que George W. Bush foi escolhido porque os americanos o viam como o tipo com quem queriam beber uma cerveja. Qual será agora o estado de espírito da América? Há sem dúvida um grupo de americanos emocionalmente muito ligados a Trump. Uma lição que aprendemos em 2016 é que ele tem apelo junto das pessoas que se sentem esquecidas e desiludidas com o sistema. Ele foi um mestre a mobilizar a sua frustração. E tanto os democratas como o Partido Republicano antes de Trump têm culpa por não se terem preocupado com estas pessoas. Trump mobilizou este grupo. Como ele disse, mesmo que desse um tiro em alguém na 5.ª Avenida, não perdia votos. E é verdade. Ele tem 40% de eleitores que são seguros. Voltando ao estado de espírito, resta saber se a América está pronta para mais quatro anos de ruído e conflito ou se prefere alguém mais pacífico e capaz de unir. Como escrevi há quatro anos, Trump é o mestre do ódio. Ele sabe como fazer as pessoas odiar-se umas às outras. Biden simboliza a calma, é simpático. Hillary Clinton não era simpática. E nós não estávamos habituados ao ruído de Trump. Isso é muito diferente agora.

Trump continua a repetir que pode não aceitar uma transição pacífica. Isso é possível? O que pode ele fazer?
Posso dizer-lhe o que ele não pode fazer. A 20 de janeiro de 2021, ao meio-dia, ele deixa de ser presidente. Isso está na Constituição. Nenhum tribunal nos EUA vai negar isso. O processo de eleição é muito claro: os estados enviam os seus votos eleitorais, estes são contados numa sessão conjunta do Senado e da Câmara dos Representantes no início de janeiro. É o novo Congresso que se reúne, mas sob a direção do antigo vice-presidente. Quem chegar aos 270 votos eleitorais será oficialmente designado presidente. Trump não pode mudar nada disto. Mas o que ele pode - e claramente vai - fazer é encher de queixas os tribunais, pondo em causa a contagem de votos nos estados. Neste momento, o Partido Republicano e Trump estão a tentar reduzir o número de pessoas que vão votar. E, tendo em conta a covid, temos de perceber quantas pessoas vão mesmo sair de casa e votar. Segundo as estimativas, o voto por correspondência deverá duplicar em relação a 2016. Há quatro anos foi 25% do total, desta vez deve ser 50%. É muita gente. Nas últimas eleições votaram 115 milhões de pessoas, um quarto por correspondência. Desta vez será metade. É óbvio que muitos estados não têm capacidade ou dinheiro para contar esses votos. Se for uma eleição renhida, é muito provável que não saibamos quem é vencedor a 3 de novembro.

É possível que não saibamos o nome do vencedor nessa noite?
Não vamos saber se a eleição for renhida. Pode demorar entre uma e duas semanas, isto por causa dos estados que vão ter dificuldades em contar os votos.

Mas voltando ao que Trump pode fazer caso não aceite os resultados...
Se houver resultados muito renhidos sobretudo nos swing states, com margens de 1%, 2%, 3%, vão ser apresentadas queixas pela equipa de Trump a alegar que houve fraude, que muitas pessoas votaram sem estarem devidamente registadas. Haverá um sem-fim de processos para tentar negar a legitimidade da vitória de Biden. E cada estado tem o seu sistema legal, as suas leis e os seus tribunais. Serão esses tribunais estaduais os primeiros a decidir sobre esta questão. Cada estado tem um Supremo Tribunal. Se esse decidir a favor dos democratas, os republicanos podem recorrer aos tribunais federais. E aí passará por todos os níveis até, eventualmente, chegar ao Supremo Tribunal, onde nessa altura já deve haver uma forte maioria conservadora, com uma nova juíza escolhida por Trump para substituir Ruth Bader Ginsburg. Resumindo, se a diferença para Biden for mínima, Trump pode recorrer e as eleições vão ser caóticas. Nesse caso, as coisas podem arrastar-se durante semanas.

Já vimos isso em 2000, com Bush e Al Gore.
Sim, mas na altura Al Gore acabou por ceder a eleição graciosamente, sem exigir uma recontagem que teria feito ultrapassar os prazos para o Congresso nomear o presidente.

Então qual é o pior cenário possível?
O pior cenário é o resultado ser muito renhido, Biden vencer mas com margem mínima e os republicanos lançarem inúmeros ataques na justiça a contestar o resultado em vários estados. O processo pode manter-se na incerteza durante meses. Durante esse tempo, Trump pode instigar os apoiantes a sair à rua, alegando que a eleição foi roubada. Não diria que cheguemos a uma guerra civil, mas podemos esperar agitação social. Neste cenário importa perceber o que irão fazer os restantes republicanos nesses estados, por exemplo os governadores.

Até agora, os republicanos têm-se mantido ao lado do presidente nos momentos-chave. É demasiado arriscado para um eleito republicano ir contra o presidente?
É muito arriscado. Se Trump se virar contra um candidato republicano, este quase de certeza que perde as primárias do partido, devido à capacidade de Trump para mobilizar os tais 40% de eleitores de que falei há pouco. Mas se Trump perder as eleições, já não terá o mesmo poder. Além de que estaremos a lidar com uma crise constitucional. Por isso temos visto os líderes republicanos nos últimos dias - como é o caso de Mitch McConnel [o líder da maioria no Senado] - a garantir que a transição será pacífica. Eles sabem que têm de seguir um presidente que odeiam, mas uma crise constitucional é mais grave. Eu acredito que vai ser pacífico.

Falava há pouco na sucessão da juíza Ruth Bader Ginsburg [RBG] no Supremo Tribunal. Acredita que Trump vai conseguir aprovar a que for nomeada antes das eleições?
Vou dizer-lhe o que vai acontecer. Trump vai nomear alguém muito à direita antes das eleições, sem dúvida. Também não duvido de que o Senado vai confirmar a nomeação antes de 3 de janeiro - data-limite para nomear o novo presidente. Não é claro se a confirmação no Senado vai decorrer antes das eleições. Eu acredito que será depois, a decisão é de Mitch McConnell. Uma questão essencial é quem vai ficar com a maioria no Senado depois das eleições. Neste momento, o Senado é republicano [53-47]. Os democratas deverão perder a reeleição no Alabama, é quase certo. Por isso, para ficarem com a maioria, têm de ganhar quatro lugares aos republicanos - e não perder nenhum. Nesse caso, ficaria 50-50 e, em caso de empate, o vice-presidente decide. Se Biden vencer, o vice-presidente será democrata, logo o Senado será democrata. Quanto à sucessão de RBG, obrigar os senadores republicanos que têm os lugares em risco a votar antes das eleições pode ser arriscado.

Em termos gerais, a morte de RBG e tudo o que significa foi positivo para Trump?
Sim, foi positivo para Trump. Primeiro porque afastou as atenções de um assunto que o deixa vulnerável: a forma como lidou com a pandemia. A base de apoiantes do presidente está muito satisfeita com as escolhas que ele fez para tornar o Supremo Tribunal mais conservador. E com a morte de RBG, têm oportunidade para encher as notícias com a escolha de Trump, sem deixar espaço para mais nada. Isso é bom para ele. Mas também tem aspetos negativos. Se Trump escolher uma candidata conhecida pela posição antiaborto (ou pró-vida, como eles dizem), isso pode levar ainda mais mulheres a votar em Biden. Além disso, este processo de nomeação para o Supremo veio mobilizar a base democrata, e o dinheiro que entrou para apoiar os candidatos na corrida ao Senado é espantoso e pode influenciar os resultados.

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