"Gripezinha." Como Bolsonaro e Trump têm encarado a pandemia

Donald Trump e Jair Bolsonaro são aliados e, no que ao covid-19 respeita, têm estado alinhados na minimização do problema que representa.

Se o presidente dos Estados Unidos diz que tem um "palpite" de que a taxa de mortalidade do novo coronavírus é menor do que 3,4%, veiculada pelo diretor da Organização Mundial da Saúde, para o presidente brasileiro a doença que se tornou uma pandemia é simplesmente uma "gripezinha". Se Trump quer o país, ou parte, a celebrar a Páscoa em comunidade, Bolsonaro mostra-se contra a decisão de governadores e autarcas em aplicarem o confinamento ou, como diz, a política de "terra queimada".

Os dois políticos de direita têm sido aconselhados ou corrigidos em público por autoridades de saúde, mas nada os faz mudar de ideias. Se bem que, ao contrário do brasileiro, o líder norte-americano acrescentou uma camada de complexidade ao declarar-se um presidente em guerra contra o "vírus chinês" - uma formulação que deixou Pequim indignada. E que foi seguida, se não no termo, na acusação pelo filho de Bolsonaro, Eduardo. "Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. [...] A culpa é da China e liberdade seria a solução", disse no Twitter o deputado federal, comparando o que ocorreu no desastre nuclear de Chernobyl com o que se passou na cidade de Wuhan.

A embaixada da China em Brasília não foi branda na resposta: "As suas palavras são extremamente irresponsáveis e soam-nos familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infetando a amizade entre os nossos povos", uma referência à viagem presidencial que juntou os chefes de Estado norte-americano e brasileiro na estância de Mar-a-Lago, propriedade de Trump.

Pânico ou menosprezo

Nem sempre os comentadores de serviço têm a arte ou o engenho para dizerem algo mais do que uma banalidade, em especial quando são chamados a comentar banalidades. Não é o caso do tema nem do comentário de John Cohen para a ABC News. "O perigo de fornecer informações imprecisas ou politicamente motivadas durante uma pandemia é que as pessoas ou entrarão em pânico porque não têm confiança de que o governo está a protegê-las ou as pessoas ignorarão completamente a crise e não tomarão as medidas de salvaguarda para se protegerem a elas próprias, às suas famílias e às suas comunidades. Já vimos isso com o covid-19", disse o ex-subsecretário dos Serviços de Informações do Departamento de Segurança Interna.

A forma como os presidentes dos EUA e do Brasil têm intervindo publicamente tem dado azo a respostas de um ou de outro lado, seja na corrida às armas, seja a participar em festas na praia como as ocorridas na Florida. Na semana passada, uma sondagem da Pew dava conta de que 47% dos norte-americanos viam o novo coronavírus como uma ameaça à saúde dos habitantes. Mostraram-se mais apreensivos com a saúde da economia: 70% considerou-o uma grande ameaça.

Por outro lado, a troca de comícios por conferências de imprensa diárias e o pacote de anúncios para intervir na economia tem dado uma visibilidade a Trump que já deu frutos. Segundo uma sondagem Gallup, 60% dos norte-americanos concordam com a forma como o presidente tem lidado com o tema, e 40% discordam. E em termos genéricos Trump alcançou o seu recorde de popularidade, 49%, enquanto 45% continuam com imagem negativa do homem que se senta na Sala Oval.

Para o analista democrata Geoff Garin, em declarações à CNN, Trump está agora inclinado para vestir o fato de "presidente em tempo de guerra em parte porque alguém lhe disse que os presidentes em tempo de guerra são reeleitos". Para Garin, que fez uma sondagem sobre as reações públicas à crise, "a analogia certa é que é um presidente de desastres e não um presidente em tempo de guerra", comparando a liderança de Trump com a George W. Bush na sequência do furacão Katrina. "De uma perspetiva política isto é muito mais como uma versão nacional do Katrina com as águas a subir muito mais alto e a durar muito mais tempo do que Pearl Harbor ou o 11 de Setembro."

Um dia antes de os Estados Unidos terem passado a barreira dos 60 mil infetados e quase mil mortos, já Donald Trump expressara confiança no "rápido" levantamento das restrições até meados de abril para parte do país. "Temos de voltar ao trabalho, muito mais cedo do que as pessoas pensam", disse o presidente dos EUA à Fox News.

Embora admitindo que as restrições durariam um pouco mais do que a quinzena inicial, disse estar a "ver uma luz ao fundo do túnel". Apesar das reservas dos especialistas como o imunologista Anthony Fauci, Trump disse que quer ver "grandes partes do Texas e territórios do Oeste" sem restrições na Páscoa, que neste ano se celebra no dia 12 de abril. Para o presidente, o prazo depende apenas de as pessoas regressarem ao trabalho "com distanciamento social".

Na linha de Trump

Já Bolsonaro, que não esconde a admiração por Trump, disse estar a seguir a política do nova-iorquino. "Estamos a seguir uma linha semelhante." Na terça-feira à noite, conseguiu o pleno da oposição ao comparar as medidas de contenção decretadas pelos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro de "terra queimada". "O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco são pessoas acima de 60 anos, então porquê fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas com menos de 40 anos de idade." Solução: reabrir escolas, "levar as pessoas de volta ao trabalho e proteger os idosos".

Com menos casos de covid-19 do que em Portugal, mas com mais mortos (47), o Brasil viu na quarta-feira o seu presidente voltar à carga: "Se a economia entrar em colapso, não haverá forma de pagar aos funcionários públicos. Estamos enfrentando o caos. Podemos acabar com problemas como pessoas saqueando supermercados. E o vírus ainda estará lá, também. Portanto, teremos o caos mais o vírus", advertiu o por vezes denominado "Trump dos trópicos" depois de o seu discurso ter sido recebido com manifestações ruidosas (o chamado panelaço).

Bolsonaro não tem seguido as políticas adotadas pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas do "gabinete do ódio", presidido pelo filho Carlos Bolsonaro e que se inspira em Olavo de Carvalho, um charlatão que nega a existência da pandemia e que, entre outras excentricidades, defende que a Terra é plana.

Trump e o coronavírus ao longo do tempo

"Temos tudo debaixo de controlo. É uma pessoa que veio da China. Vai correr tudo bem." (22 de janeiro).

"Esperemos que não seja tão mau como algumas pessoas pensam que pode ser." (30 de janeiro)

"O vírus de que falamos - muita gente pensa que desaparece em abril com o calor, quando o calor chega. Normalmente, isso vai desaparecer em abril. Estamos em grande forma, no entanto." (10 de fevereiro)

"Há uma teoria de que, em abril, quando aquece, historicamente, isso tem sido capaz de matar o vírus. Então, ainda não sabemos." (14 de fevereiro)

"Acho que todos os setores da nossa sociedade devem estar preparados. Acho que não vai chegar a isso, especialmente com o facto de estarmos a descer, não a subir. Estamos a descer muito substancialmente, não a subir." (26 de fevereiro)

"Vai desaparecer. Um dia, como um milagre, vai desaparecer." (27 de fevereiro)

"Eles [os democratas] tentaram de tudo, tentaram repetidamente. E este é o novo embuste deles." (28 de fevereiro)

"Uma série de coisas muito entusiasmantes estão a acontecer e estão a acontecer muito rapidamente." (2 de março)

"Não sei qual vai ser o momento [de uma vacina estar pronta]. Ouvi números de meses, muito rápido. Acho que não é um mau número. Mas fala-se de três a quatro meses num par de casos, um ano noutros casos." (3 de março)

"Acho que o número de 3,4% [taxa de mortalidade estimada pela OMS], é realmente um número falso. Isto é apenas o meu palpite, mas com base em muitas conversas, pessoalmente, diria que o número está abaixo de 1%." (4 de março)

"Penso que estamos realmente a fazer um ótimo trabalho neste país em manter os números baixos. Um trabalho fantástico. Não precisamos de duplicar os números por causa de um navio pelo qual não fomos responsáveis (o cruzeiro Diamond Princess)." (6 de março)

"Não estou nada preocupado. Fizemos um trabalho fantástico." (7 de março)

"Isto tomou o mundo de surpresa." (9 de março)

"Tenham calma. Isto vai desaparecer." (10 de março)

"A nossa resposta é uma das melhores, com uma rápida ação de fecho de fronteiras e uma taxa de aprovação de 78%, a mais alta de que há registo." (12 de março)

"Isto é uma pandemia. Eu senti que ia ser uma pandemia muito antes de ter sido chamado de pandemia. Sempre achei que era uma coisa muito séria." (17 de março)

"É o inimigo invisível. Eu vejo-me, de certa forma, como um presidente em tempo de guerra." (18 de março)

"Este não é um país que foi construído para isto. Não foi construído para ser fechado. A América estará, novamente, e em breve, aberta aos negócios. Temos pessoas com tremenda ansiedade e depressão, e há suicídios por causa de coisas como esta, quando há uma economia péssima. [A morte] seria em muito maior número do que os números de que estamos a falar em relação ao vírus." (23 de março)

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