Novos casos na Grande Lisboa aumentaram 18% numa semana

Dos 15 concelhos portugueses que registam mais de 500 infetados com covid-19, cinco são na região de Lisboa e Vale do Tejo (Loures, Amadora, Sintra, Lisboa e Cascais). Juntos, estes municípios, aumentaram o ritmo de contágio na última semana em 18%, quando os restantes dez concelhos mais afetados pela pandemia subiram 3%. Delegado de saúde de Lisboa explica que estas são zonas com maior densidade populacional e onde há focos circunscritos. ​​

Mais pessoas, mais mobilidade - e os mais pobres começam a ser afetados. Estes serão os fatores que justificam o aumento do número de casos na Grande Lisboa, segundo o delegado da Administração Regional de Saúde (ARS) da zona, Mário Durval.

A região teve praticamente metade (47%) do total de contágios nacionais contabilizados pela Direção-Geral da Saúde (DGS) na última semana. Entre os 15 concelhos com maior número de casos totais, há cinco da Grande Lisboa, e estes aumentaram em 18% o número de infeções pelo novo coronavírus. Por outro lado, os restantes dez municípios tiveram, em média, uma subida de 3%.

O Norte (onde o surto regista mais casos no total - 16 699 dos 30 788 contabilizados em Portugal) parece ter acalmado a transmissão. Focos anteriores como Ovar (652 casos), alvo de um cerco sanitário, têm agora um crescimento residual. Entre 18 e 25 de maio - a terceira semana do plano de desconfinamento e a primeira com escolas, creches e comércio abertos - os infetados cresceram 1,9%. Em sentido contrário, os concelhos de Loures (28,3%), Amadora (20,1%) e Sintra (19,9%), todos localizados na região da Grande Lisboa, foram os que mais aumentaram o número de novos contágios.

"É natural. São os concelhos com mais pessoas, portanto têm mais casos", diz Mário Durval. Amadora, Loures e Sintra são respetivamente o primeiro, o 18.º e 20.º concelhos com maior densidade populacional do país, de acordo com os dados da Pordata, atualizados em 2018. Há mais concentração de pessoas, o que em período de regresso a uma relativa normalidade pode significar dificuldades no distanciamento social.

Fonte da autarquia de Loures anui e menciona problemas na partilha dos transportes públicos: "Não se respeita o distanciamento, porque há muitas pessoas na paragem e sabem que se não entrarem naquele autocarro só têm outro dali a uma hora. E quem é que está lá para fiscalizar?"

Em Loures, os autocarros. Na Azambuja, os comboios. As imagens de milhares de trabalhadores, mais de oito mil, a chegar ao apeadeiro, ponto de passagem obrigatório para quem trabalha nas empresas em redor, mostram muito, mas muito pouco distanciamento social. Os degraus escasseiam para tanta pressa. É aqui que tem origem o surto que mais preocupa as autoridades de saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo.

Três empresas reportaram trabalhadores infetados. Na Sonae (o maior foco) há agora 121 casos, informou a DGS. "Foram feitos 346 testes e estão a ser feitos mais. 121 [exames] estavam de facto positivos, trinta e pouco pessoas apresentam sintomas e uma está internada. Está estável e bem", disse a diretora-geral da Saúde, em conferência de imprensa, nesta segunda-feira.

Mas já antes Graça Freitas justificava os números da Grande Lisboa com o surto da Azambuja, "que não é um surto na Azambuja", corrige Mário Durval. As pessoas que acusaram positivo para a covid "juntam-se ali para trabalhar", mas moram noutros sítios, "na periferia de Lisboa, essencialmente". Por isso, os concelhos à volta veem os dados que medem a pandemia a subir, enquanto o concelho da Azambuja acrescentou seis infetados durante a semana em análise.

Nestes últimos sete dias, a cidade de Lisboa somou mais 220 casos, Loures 186, Sintra 179, Amadora 111, Oeiras mais 50, enquanto Vila Nova de Gaia - o segundo concelho do país com mais infetados no total - subiu 67. O Porto aumentou 29 casos em sete dias, Matosinhos 33 e a Maia 28. O ritmo de crescimento dos municípios de Lisboa (região que tem 9567 casos e 322 vítimas mortais) é cinco vezes superior aos do resto do país.

A covid "está a ir para cima dos mais pobres"

Acelera o contágio, mas afinal o vírus não é democrático e o delegado de saúde da ARS de Lisboa e Vale do Tejo admite que os bairros sociais e de lata de Lisboa e arredores começam a ser fontes de transmissão preocupantes. "Nós começámos com pessoas com nomes compridos, que vinham dos Alpes Franceses e do Carnaval de Veneza e agora está a chegar aos nomes curtos. Está a levar o caminho que todas as doenças levam: ir para cima dos pobres", diz Mário Durval.

Na Grande Lisboa há mais de dez bairros de lata. Enquanto se repete o pedido de reforço das medidas de higiene em tempo de pandemia, como a lavagem das mãos ou a desinfeção de superfícies, há quem viva sem água e sem luz. Quem chame casa a uma colagem de contraplacado e cartão. A pobreza "é o principal fator de risco para todas as doenças, incluindo esta", aponta Mário Durval.

Quanto ao trabalho das autoridades de saúde, o delegado não hesita: é igual para todos. "Encontramos um caso, fazemos um cerco à volta. Tanto faz esse caso ser nas Avenidas Novas como na Almirante Reis", diz.

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