José Rodrigues dos Santos: "Havia carrinhas dos CTT que recolhiam cadáveres espalhados pelas ruas"

O autor que mais vende em Portugal lança hoje um novo romance: A Amante do Governador.

É o décimo nono romance de José Rodrigues dos Santos que chega hoje às livrarias e revela uma história mal conhecida, ou mesmo desconhecida, pelos leitores portugueses, segundo garante o autor. Intitula-se A Amante do Governador e resulta da habitual investigação que o autor costuma fazer para os seus trhillers ou, neste caso, romances históricos, colocando em pano de fundo uma relação de amor durante os dias do cerco japonês ao território de Macau durante a Segunda Guerra Mundial.

Rodrigues dos Santos já vendeu mais de três milhões de exemplares dos seus livros em todo o mundo, está traduzido em mais de duas dezenas de línguas e em Portugal lidera habitualmente as tabelas de vendas. Mesmo que em declarações ao DN a propósito deste novo romance garanta que o essencial para si "não é top nenhum, mas sim verter em prosa a grande aventura do que é ser português, com as glórias e as misérias, o bom e o mau, o grandioso e o mesquinho, sem preconceitos ideológicos nem ideias feitas".

Segundo Rodrigues dos Santos, A Amante do Governador faz parte de uma literatura que "é também um baú de memórias", daí que procure nos seus romances históricos "recuperar episódios importantes, porém esquecidos, negligenciados ou ignorados, da história do nosso país". É o que explica no vídeo em que conta o argumento em chinês.

Esta busca não surge pela primeira vez, pois considera que está na base de romances como A Filha do Capitão, "sobre a presença portuguesa na Flandres", com O Anjo Branco, "sobre a Guerra Colonial em África", ou no díptico O Homem de Constantinopla/Um Milionário em Lisboa, "sobre Calouste Gulbenkian e como veio ele parar a Portugal". A Amante do Governador, afirma, "insere-se nessa senda de recuperar pela ficção a história de Portugal".

O novo romance de Rodrigues dos Santos baseia-se em acontecimentos verídicos e tem como personagem principal o coronel Artur Teixeira. Segundo a sinopse do livro, trata-se da sua resposta quando "se vê obrigado a enfrentar a maior crise do império português na Segunda Guerra Mundial: os dias de Macau sob cerco japonês". É isso que o autor pretende contar, descrevendo uma parte do mundo onde "Portugal manteve a única bandeira ocidental hasteada no Extremo Oriente durante toda a Segunda Guerra Mundial".

Questionado sobre o porquê da escolha desta temática, José Rodrigues dos Santos refere que é incontornável: "A história de Portugal é incrivelmente rica, mas a nossa arte é incrivelmente pobre a contá-la. A literatura inglesa já explorou milhentos episódios sobre a história de Inglaterra, a francesa fez o mesmo sobre a sua história, e nós é o que se sabe."

Para o autor, "quando se fala em Portugal na Segunda Guerra Mundial quase só se fala nos espiões do Estoril e na rota de fuga dos judeus". São episódios interessantes e importantes, diz, "mas tornaram-se já clichés, porque houve tantos outros episódios extraordinários que não são contados". Dá exemplos: "A maior parte das pessoas não sabem que houve combates ou bombardeamentos em territórios do império português durante esse conflito. Em Timor os portugueses foram enjaulados em campos de concentração, coisa de que ninguém fala, apesar de ainda existirem sobreviventes desse tempo, e Macau foi cercada pelos japoneses, bombardeada, inundada de refugiados e com a comida cortada. Um milhão de pessoas numa cidade do tamanho de Cascais, a maior cidade do império em população e onde morriam centenas de pessoas por dia à fome".

A investigação sobre o cerco japonês a Macau permitiu-lhe contar neste romance que "havia carrinhas dos CTT que recolhiam todas as manhãs os cadáveres espalhados pelas ruas". O que o leva a perguntar: "E ninguém sabe nada." Acrescenta que "o meu romance é por isso um esforço para resgatar esse pedaço da história de Portugal, usando a ficção para nos transportar para aquele tempo e lugar como num filme de época. Acho que a literatura, como outras formas de arte, tem a capacidade de tornar a história viva e é isso que tento fazer com A Amante do Governador".

Baseado em acontecimentos verídicos e em personagens que realmente existiram, explica, "procurei reproduzir a forma como os portugueses lidaram com o cerco japonês a Macau e as dinâmicas complexas e dramáticas que se estabeleceram".

A apresentação oficial do romance será no próximo sábado, pelas 17.00, na Sociedade de Geografia, em Lisboa. Durante a sessão vai realizar-se a encenação de um excerto do romance pela companhia de Teatro Fatias de Cá, bem como uma demonstração da Dança Chinesa do Leão executada pelo Clube de Kung Fu Hong Long de Oeiras e ainda um momento de declamação de poemas em patuá pelo mestre Joaquim Ng Pereira.

A Amante do Governador

José Rodrigues dos Santos

Editora Gradiva

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