"A fase da pedagogia já lá vai, temos de ser muito duros"

Numa fase crítica da pandemia, a presidente da Câmara da Amadora lembra que o concelho é todo urbano e com uma população que se desloca para o trabalho todos os dias. Admite que com o desconfinamento os ajuntamentos acontecem e diz que já há 33 estabelecimentos encerrados por más práticas. A autarca do PS Carla Tavares defende, por isso, as medidas duras que foram determinadas para a Área Metropolitana de Lisboa para conter a pandemia.

A que se deve este aumento de casos no concelho da Amadora? Ao desconfinamento?
Na cidade da Amadora este processo do covid começou em fevereiro, logo após as férias do Carnaval, quando tivemos as primeiras situações em escolas, numa fase em que foi possível controlar muito porque a epidemia não estava ainda espalhada na comunidade. Mas falamos de um concelho com características muito próprias na Área Metropolitana de Lisboa (AML), é o mais pequenino dos 18 municípios, não chega a ter 24 quilómetros quadrados de área, é o mais densamente povoado do país, ou seja, que tem mais habitantes por quilómetro quadrado, e é todo urbano. Sobre o ponto de vista territorial, temos uma maior propensão para a propagação da epidemia na comunidade. Estamos a falar de seis freguesias, todas contíguas, e, independentemente de termos zonas mais frágeis socialmente, vírus propaga-se pela cidade muito pelas suas características.

O perfil da população do concelho também influencia esta situação?
Maioritariamente, os nossos cidadãos saem para trabalhar em Lisboa, outra parte em Sintra e Oeiras, mas essencialmente em Lisboa. Aliás, quando se começa a fazer testes aos profissionais da construção civil, das empresas de contratação de limpeza ou de trabalho temporário, claro que, inevitavelmente, encontra-se muitas pessoas da Amadora. Não é, por isso, um concelho com características de teletrabalho, o que também pesa na propagação do vírus, visto que as pessoas deslocam-se muito para o trabalho.

As medidas tomadas peloGoverno, em colaboração com os autarcas dos municípios da AML mais afetados, são as necessárias e suficientes?
São medidas duras, muito musculadas. A fase da pedagogia já lá vai, temos de ser duros e as medidas têm de mais musculadas para proteger toda a comunidade. Atendendo à situação que vivemos, em particular no município da Amadora, são absolutamente adequadas neste momento. Foram tomadas decisões muito importantes como o encerramento de todos os estabelecimentos e de todo o comércio a partir das 20.00, permitindo só continuar a funcionar a restauração e o take away, mas sem venda de bebidas alcoólicas; a proibição de bebidas alcoólicas no espaço público e a proibição da sua venda a partir das 20.00 nos postos de combustível; os ajuntamentos voltaram a dez pessoas. E, paralelamente, um quadro de contraordenação para os incumpridores. São medidas essenciais para ajudar a conter os focos e ajudar-nos mais a muscular a intervenção, seja o município sejam as autoridades, como a PSP e a Polícia Municipal, na fiscalização e na aplicação das medidas.

A Amadora não é um concelho com características de teletrabalho, o que também pesa na propagação do vírus, visto que as pessoas deslocam-se muito para o trabalho.

As multas são mesmo imprescindíveis para travar comportamentos errados? Acho mesmo essenciais por experiência do último mês e é bom que se possam se executadas o mais depressa possível.

A autarquia tem condições financeiras e logísticas para responder a este agravamento dos casos ou até, eventualmente, a um agravamento da situação pandémica no concelho?
É uma resposta difícil porque nenhum de nós estava preparado para isto. Tem de ser uma resposta articulada com todos os agentes da comunidade e tem sido feita desde o primeiro momento. Se a nossa dimensão de território é um desafio, também é uma janela de oportunidades quando temos de intervir em conjunto porque temos uma rede social muito consolidada e muito madura na cidade. Por isso, a resposta tem sempre sido articulada entre a câmara, as juntas de freguesia, as IPSS, a Cruz Vermelha, a Segurança social, a Saúde, que tem aqui um papel muito importante neste processo, e as forças de segurança. Temos também mecanismos financeiros, reforçámos o fundo de coesão social, criámos um programa de apoio ao pequeno comércio com cerca de dois milhões de euros, o Revitalizar, reforçámos os apoios às instituições, mas temos conseguido encontrar entre todos as soluções para os nossos desafios. Quanto às questões sociais, o que mais me preocupa é a fome, que a todos mobiliza. Tivemos também autorização muito recentemente por parte da Segurança Social para aumentar em 100% os apoios alimentares no âmbito europeu e que vai permitir dobrar a capacidade de apoio às pessoas que necessitam de géneros alimentares e que, no caso da Amadora, é gerido localmente pela Cruz Vermelha em instalações municipais.

Se a nossa dimensão de território é um desafio, também é uma janela de oportunidades quando temos de intervir em conjunto porque temos uma rede social muito consolidada e muito madura na cidade.

No que diz respeito à saúde pública, há reforços nesta fase mais crítica?
Há reforço de profissionais para o controlo epidemiológico, o que é absolutamente essencial para cortar as cadeias de transmissão e perceber quando uma pessoa é infetada onde é que esteve e com quem esteve. Muitas vezes temos um caso positivo referenciado pela saúde pública que chega a ter cerca de 40 contactos, que é preciso inquirir e perceber onde estiveram, por onde passaram e onde estão a trabalhar. Essa grande equipa de saúde pública estará aqui reforçada, mas se for necessário, quer ao nível da Segurança Social local quer da PSP, se nas reuniões diárias que vamos tendo, nos for transmitido que é necessária a intervenção da câmara para um reforço dos recursos em particular nestes dias que se seguem, claro que o faremos.

Nesta fase do desconfinamento, houve muitos ajuntamentos e sem as devidas precauções de saúde pública?
Na última semana e meia fechámos 33 estabelecimentos, os últimos foram emitidos os documentos da saúde pública no domingo à noite, exatamente porque as pessoas não respeitam os comportamentos desejáveis dentro e fora dos estabelecimentos. Eram situações recorrentes e foi necessário fechá-los durante 14 dias conforme a determinação da Autoridade de Saúde Pública. Agora acontecem situações de ajuntamentos no espaço público e isso tem tudo que ver com a forma como absorvemos e gerimos a informação que nos é transmitida. O que sinto relativamente à cidade é que com o desconfinamento as pessoas pensam "isto já passou", nomeadamente os mais jovens. Muitas das pessoas são assintomáticas e não cumprem muitas das recomendações das autoridades de saúde locais para os confinamentos nos prazos que estão determinados. Basta ver que há cada vez pessoas mais jovens e em idade ativa que estão bem mas são portadores. As notícias dos últimos dias, mesmo fora da AML, mostram que uma simples festa resulta num número enorme de casos positivos. Todos somos potenciais portadores. É importante voltarmos a uma vivência comunitária, que a retoma ao nível dos pequenos estabelecimentos, as mercearias, a restauração, os cafés, aconteça, mas depende de cada um de nós individualmente ter a consciência de que estar sentados numa esplanada com uma amiga a beber um café ou levar os nossos filhos aos parques públicos mudou e temos de viver e apropriar-nos do espaço público de uma outra forma. Não é igual ao que era até março ou abril, e quanto mais rapidamente assumirmos aqui o nosso papel de agentes de saúde pública, mais depressa vamos conter cadeias de transmissão.

O que sinto relativamente à cidade é que com o desconfinamento as pessoas pensam 'isto já passou'.

Quais são as medidas de fiscalização no terreno?
Reforçámos as equipas na rua, parámos com a fiscalização noutras áreas, e as de proteção civil. Foram varridas as seis freguesias para ver se estava tudo a ser cumprido.

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