Geringonça. Aproximam-se as eleições, zangam-se as comadres

Costa foi cáustico com o Bloco, Catarina não gostou e Marisa chamou-o de ingrato. E Jerónimo disse que é preciso ter uma "paciência revolucionária" para negociar com o PS. Eleições legislativas são daqui a 44 dias. Rui Rio fala de "divórcio violento".

Arrumados quatro Orçamentos do Estado, depois de 1368 dias de governo com apoio da esquerda parlamentar, o primeiro-ministro e líder socialista, António Costa, olhou para a sua esquerda e foi cáustico com o Bloco de Esquerda e elogioso para com o PCP. O motivo: já só faltam 44 dias para as eleições legislativas de 6 de outubro.

No dia em que o BE publicou o seu programa eleitoral, que se assume como um caderno de encargos do Bloco para uma nova geringonça, as palavras de António Costa, em entrevista ao semanário Expresso, estilhaçaram os meios bloquistas - e de caminho fizeram desaparecer do horizonte mediático as 156 páginas de propostas do Bloco para a próxima legislatura, nas quais se lê que "o Bloco de Esquerda é o partido que quer e pode impedir uma maioria absoluta".

Para o socialista, BE e PCP "são partidos de natureza muito diferente". E explicou-se: "O PCP tem uma maturidade institucional muito grande. Já fez parte dos governos provisórios, já governou grandes câmaras, tem uma forte presença no mundo autárquico e sindical, não vive na angústia de ter de ser notícia todos os dias ao meio-dia... Isto permite uma estabilidade na sua ação política que lhe dá coerência, sustentabilidade, previsibilidade, e, portanto, é muito fácil trabalhar com ele."

Esta explicação surge depois de Costa admitir que concorda com Jerónimo de Sousa "quando ele diz que entre gente de bem basta um aperto de mão ou mesmo olharmo-nos olhos nos olhos", dispensando-se assim um acordo escrito, como os que existiram em 2015 (então por exigência do ex-Presidente da República). Com a sua "experiência de trabalho com Jerónimo de Sousa", Costa não tem "a menor das dúvidas".

Já com o BE não é assim, subentende-se, e provaram-no também as últimas semanas da legislatura, em que se multiplicaram os desentendimentos públicos entre socialistas e bloquistas, entre Costa e Catarina, como por exemplo na Lei de Bases da Saúde, em que o BE deu como garantido o fim das parcerias público-privadas, quando o PS insistia que essa era uma versão de trabalho que caiu.

Depois de ter lido a entrevista do socialista, a coordenadora do BE, Catarina Martins, atualizou a sua entrevista ao jornal Eco, que tinha sido dada na sexta-feira. E não foi meiga: "O desejo de uma maioria absoluta pode levar à arrogância e à tentação de fazer caricaturas." E completou: "Prefiro a humildade de reconhecer o caminho que fizemos e discutir as diferenças que apresentamos para o país", afastando a ideia de que o Bloco é gerador de ingovernabilidade, como Costa sublinhou ao Expresso.

"O Bloco é um fator de estabilidade e de segurança na vida das pessoas, no seu salário e na garantia de que se pode viver melhor. Creio que ninguém duvida disso", atirou a líder bloquista.

Ao almoço, pelo Twitter, o primeiro desabafo público bloquista foi da deputada no Parlamento Europeu Marisa Matias, que sublinhou o que disse ser um sentimento de ingratidão. "Nestes 4 anos, enquanto precisou de parceiros para ser governo, António Costa nunca fez caricaturas de mau gosto. Agora parece que vale tudo para tentar maiorias absolutas", escreveu naquela rede social.

Quem concordou com as bloquistas foi Rui Rio, também visado na entrevista de Costa. "O que eu pessoalmente não acho bonito - e isso eu não faço - é, por exemplo, o que está a fazer o Partido Socialista, que andou com o Bloco de Esquerda de braço dado durante quatro anos [...] e agora que precisa está com medo de que os votos da esquerda fujam para o BE", atirou o presidente social-democrata.

Rio completou a sua ideia: "Nós não devemos andar na política à espera de gratidão, efetivamente não, mas a ingratidão não é uma coisa bonita. Aquilo que eu noto e leio naquela entrevista é efetivamente uma relação com quem o apoiou que mostra uma forma de estar", referiu o líder do PSD, adiantando que este é "um divórcio violento".

Menos tido e achado nesta história, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, põe água na fervura no ambiente da geringonça. Para o comunista, em entrevista à agência Lusa, Costa "é um PS, um homem, dirigente do PS, que tem um sentido de perspicácia e de inteligência, em relação ao diálogo, em relação a saber ouvir".

Não deixando de apontar o dedo aos socialistas - para Jerónimo, não houve "um governo de esquerda, nem uma maioria de esquerda", mas antes um "governo minoritário do PS", com "políticas de direita", nomeadamente em matéria de legislação laboral - o líder comunista sublinhou que "o PS, em relação a medidas positivas, concretizou-as, e isso não pode ser escondido".

Para o PCP, o trato foi franco, longe da aspereza mais recente entre bloquistas e socialistas. "Nas relações que tivemos com o PS sempre houve uma grande franqueza, de procura de fundamentação, de demonstração, de que era possível ir mais longe, garantir direitos. Da parte do PS, embora nalgumas matérias bastante renitente, onde, por vezes, quase era necessário uma paciência revolucionária - passe o termo -, fosse nas reformas, pensões ou manuais escolares, lá vinha sempre a preocupação em relação ao défice, à economia, com o Ministério das Finanças a ter ali um papel de negação ou de carimbo em relação àquelas medidas."

O final da legislatura foi destapando ainda mais uma irritação crescente entre o secretário-geral do PS e a coordenadora do BE, com socialistas e bloquistas a trocar acusações sobre alguns dos dossiês mais quentes que foram ficando em aberto, como as leis laborais ou a Lei de Bases da Saúde. E nem o acordo de última hora alcançado para este texto ajudou a disfarçar a tensão.

Em novembro de 2015, o relacionamento até parecia mais fácil com o BE: os chamados jovens turcos socialistas (e entre eles o então secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, que era o negociador-mor com a geringonça) davam-se bem com os bloquistas e a posição conjunta assinada entre Bloco e PS era mais objetiva do que aquela que socialistas e comunistas rubricaram. Nesta ficava escrito aquilo em que não havia acordo, na outra, os partidos de Costa e de Catarina prometiam aprofundar propostas comuns em várias áreas através de grupos de trabalho.

Com o avanço da legislatura, dossiês como as rendas excessivas ou a reestruturação da dívida tropeçaram na governação pragmática das contas certas do ministro Mário Centeno, que se tornou senha e contrassenha para António Costa. No programa eleitoral hoje apresentado para os próximos quatro anos, os bloquistas recuperam as propostas do grupo de trabalho da dívida, recordando que o PS "renegou" o documento.

O episódio da contagem do tempo integral de professores, que uniu BE e PCP ao PSD e ao CDS, a semanas das eleições europeias de maio passado, deu o pretexto que faltava aos socialistas para se apresentarem com o discurso da responsabilidade. E se o verão tem sido ameno nas temperaturas, a entrevista de António Costa veio agitar a sala de estar da geringonça. Na noite de 6 de outubro ver-se-á se alguém terá de fazer um ato de contrição.

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