Foi com ironia que viu o regresso ao Serviço Nacional de Saúde, e à ideia de que é essencial para Portugal? Não sei se é ironia, mas é interessante perceber como a covid 19 alterou as perceções que sobre o sistema de saúde. E é interessante verificar como o sistema consegue estar a dar esta resposta. Ao contrário de outros países - e conseguimos fazer essa comparação - conseguimos perceber a vantagem de ter um serviço de saúde universal. Há outros países onde parte significativa da população não tem acesso a serviços de saúde. Portugal acaba por ser bom exemplo, na prestação de cuidados a imigrantes, refugiados. O SNS tem muitas vantagens e os portugueses acabam por se aperceber disso na altura de maior crise..Vai de uma vez por todas perceber-se que um SNS público faz parte de uma espécie de soberania? A memória é curta - as mesmas pessoas que criticavam o SNS, os profissionais de saúde, são as mesmas que batem palmas e que se sentem muito emocionadas com a resposta dos profissionais de saúde. Não esquecendo que vamos atravessar uma grave situação de crise económica. Costumo dar o exemplo da crise de 2008. No mesmo dia que há a falência do Lehman Brothers em Talin é assinada uma carta entre o Banco Mundial e os vários países da OMS na Europa e que diz que o investimento em saúde é investimento em crescimento económico. A partir da crise financeira, que começa naquele dia. a grande maioria dos países europeus faz uma redução nos seus orçamentos na saúde. A prova dos nove será perceber se essa perceção da importância do SNS se mantém. E não estou tão certo disso, porque o comportamento dos agentes é muito mais oportunístico do que estratégico. Se houvesse uma visão estratégica conseguíamos perceber isso..O que havia no SNS que o levou a responder de forma tão rápida e eficaz? Primeiro que tudo é importante dizer que a epidemia em Portugal não se fez sentir como noutros países. Conseguimos implementar as medidas de distanciamento físico mais cedo. E daí que o impacto no SNS foi menor do que em Espanha ou Itália. O SNS acabou por ser poupado... Mas tem uma flexibilidade, e competência técnica dos recursos humanos que lhe permitiu dar uma resposta adequada. Se tivéssemos outro modelo seria muito mais complexo. A grande flexibilidade do SNS é pela via de ser público - essa capacidade de se moldar face ao interesse coletivo..O que é que isso quer dizer? É mais simples dizer a todos agentes qual é o interesse coletivo - e esse era responder à covid. Se houvesse várias entidades, grandes interesses económicos envolvidos seria mais difícil e teríamos que estabelecer questões contratuais - vimos isso noutros países - para que o sistema respondesse e isso exige negociação, por mais pressão e urgência que exista. Com sindicatos, com agentes patronais, representantes dos hospitais, das seguradoras, algo que torna muito mais complexa a resposta..Como é que se estão a portar os privados? Houve esta polémica de quem paga o quê? É preciso voltar atrás, ao início da evolução da epidemia. Houve uma grande incerteza que levou a planear que recursos precisamos para responder. E não conseguimos logo perceber os efeitos das medidas do distanciamento físico - essa incerteza levou o ministério da Saúde a tomar opções para minimizar o risco. Sem ter uma perceção dos recursos. E nessa lógica chamou os privados. Os privados também perceberam - não necessariamente de forma altruísta - que tinham de reduzir a atividade, porque o risco de contaminação cruzada, de infeções, era elevado. O grau de incerteza podia até ser mais penalizador do setor privado. E facilmente aderem ao pedido do MS. Mais à frente vai perceber-se que não era necessária essa resposta do setor privado, como não é parte da resposta que foi designada para a covid-19. Toda esta capacidade que foi solicitada pelo grau de incerteza, percebeu-se que não era necessária. E houve o recuo do ministério a estabelecer que só existiria recurso ao setor privado em caso de referenciação. O que é isto causa? Incómodo de ambas as partes. Evidentemente há outro efeito: o privado teve uma redução de remuneração de mais 70%. E vai existir uma pressão para que voltem à atividade normal. Esta situação não é sustentável do ponto de vista financeiro - e os atores vão defender-se..Houve médicos a voltar para o setor público - os que tinham saído? Não. Houve casos pontuais. O SNS acabou por ficar altamente concentrado na covid-19 que necessita de recursos muito específicos. Grande parte dos outros recursos do SNS hoje estão ociosos. O que temos, e vai ser um problema para o futuro, é que em alguns lugares esgotamos a capacidade na área da medicina intensiva, intensivistas, médicos e enfermeiros. Fomos buscar outros profissionais a outras áreas: anestesiologistas, etc... Vamos sentir um problema porque estas pessoas não podem estar a trabalhar continuamente a fazer 40 horas por semana. É um trabalho muito esgotante, em condições muito adversas. Será necessário fazer descansar estas pessoas que estão na linha da frente, e vamos ter de encontrar pessoas para as substituir. E não é facil. É preciso treinar pessoas. E isso vai exigir quase a duplicação dessa resposta. Para além disso é preciso reativar as outras áreas. Nunca tivemos doentes tão caros. Imagino um hospital com 200, 300 camas que só tem dois doentes covid e parou toda a sua outra atividade... o custo daqueles dois doentes para o sistema é absurdamente elevado. Vamos ter de ter medidas de melhor resposta - e faz sentido concentrar a resposta em alguns hospitais. Definir bem os recursos, com flexibilidade de resposta. Todos os hospitais vão ter que fazer triagem de urgência, e em todos haverá zonas tampão em que os doentes vão aguardar resultados de teste. Mas não faz sentido que haja internamento em todos..A falta de recursos que o SNS sentiu deveu-se à situação depauperada em que já estava? A grande maioria dos países subestimou a epidemia. Ate porque já tínhamos atravessado outras, dadas como assustadoras e acabaram por não ser. Há também um problema grave de capacidade de produção destes materiais - dos vários países. Portugal não foi exceção nisso. Creio que podia ter havido uma preocupação maior com a compra centralizada em vez de deixar que as unidades comprassem per si e até contribuírem para um aumento de preços e distribuição com fraca equidade de testes e de ventiladores..Ainda há falta de materiais? Continua a sentir-se. Os hospitais continuam dependentes de doações de entidades individuais. Até temos equipamentos, mas não há protetores de sapatos, ou uma viseira, há falhas pontuais. A situação é melhor do que há um mês..Ou seja, há um certo risco se houver uma abertura à normalidade como se anuncia... Há vários requisitos que devem ser cumpridos para isso. Um deles é a existência de equipamentos protetores não só para profissionais de saúde mas para os doentes não-covid que vão passar a circular nos hospitais..E não há? Não consigo perceber se há estimativas de reforços de stock... Isso não conseguimos dizer..E os outros requisitos? Estamos preparados? Não estamos preparados para um sistema como teríamos antes da covid. Precisamos de estabilizar a rede covid, por exemplo. Devemos saber quais os recursos alocados à covid garantindo que o sistema mantém a flexibilidade para novos picos. Vamos ter que estabilizar para saber que estes hospitais têm resposta e estes não. Os doentes vão circular em todos. Mas não faz sentido que alguns hospitais estejam muito limitados na sua capacidade de atuação por terem três ou quatro doentes covid. Esses doentes podem ser transferidos. Temos grandes hospitais com taxa de ocupação na ordem dos 50%. Ou abaixo. Devemos concentrar a resposta em alguns hospitais. Mantendo a capacidade para responder-lhe. Um dos grandes problemas que vamos ter são as segundas ondas, terceiras, e ondas locais. Vamos ter de ter esse sistema operacionalizado. E temos de começar a planear a resposta não covid..E para isso, o que é preciso? Equipamentos de proteção individual. Testes para profissionais e doentes. E na prática mais recursos humanos. A situação como está não é minimamente sustentável..Porquê? Vai ter efeitos claros na saúde das populações. Reduzimos a atividade em cerca de 75%. Os doentes não estão a entrar no sistema, não estão a ser diagnosticados e isso vai ter impacto. A grande questão aqui é como vamos mitigar os efeitos da paragem do sistema. Quer do ponto de vista da saúde quer do ponto de vista económico..Vai haver uma data de abertura - até porque há grande pressão... E a ministra já avisou. Se for, por exemplo, meados de maio. Chega para fazer essa reorganização? Chega. A resposta será sempre gradual. Ninguém vai ter um sistema igual ao que tinha antes. Mas por exemplo, podemos abrir a pediatria. Sabemos que é um grupo muito poupado e se se cumprirem os requisitos, pode começar a abrir. Podemos fazer por áreas. O sistema não vai abrir tudo ao mesmo tempo. Nem existem recursos. Por exemplo, há anestesiologistas alocados a cuidados intensivos. Se já tínhamos falta deles, ainda vamos ter mais défice. E os hospitais vão ter uma obrigação grande de implementar novos modelos organizacionais e usar esta urgência de abertura para isso. As medidas de distanciamento foram usadas para poupar o sistema de saúde e a população a uma morte exagerada. Mas o sistema de saúde também é penalizado pelo confinamento - é importante ter essa noção. Vai levar a aumento de doenças de saúde mental, a uma redução da procura, o empobrecimento generalizado da população vai levar a novos estados de doença - e vai existir uma procura maior. O SNS também precisa que as medidas de confinamento terminem. Mas deve ser gradualmente e devem existir medidas de controlo da epidemia pelo próprio sistema de saúde..O que quer isso dizer e como é diferente de agora? Se no período de contingência fizemos a deteção dos casos suspeitos e procurámos isolar os doentes em casa, agora vamos ter de ter uma estrutura para o fazer. Já não estamos a falar de dez pessoas que vieram de Itália. Estamos a falar de dez mil pessoas que devemos ativamente procurar: casos suspeitos, contactos suspeitos para testar e isolar. E aí deve haver uma formação das pessoas no sistema de saúde, de busca de novos recursos, autarquias, forças de segurança, para apoiar o sistema nessa etapa. Isso vai ser essencial para controlar. Se não formos capazes, vai continuar a generalizar-se, vamos ter outros picos. E será muito difícil controlar..Isto é uma maratona de estafetas. A primeira etapa era com a saúde pública, agora vai ser preciso procurar as pessoas contaminadas, é isso? O ideal seria o teste em massa... Mas com uma dimensão completamente diferente - se antes podíamos ter um médico de saúde pública a fazer isto com quatro, cinco técnicos, agora o volume tem de ser muito maior. Temos de ter muito mais recursos - os do sistema de saúde não são suficientes..Como é que isso podia ser feito na prática? Temos de ser muito imaginativos. Há apps que podem apoiar, através do telefone. O Papel da Saúde 24 pode ser mais ativo na pesquisa. Termos locais de teste como os Drive-through. O que parece é que tem de ser planeado, não pode ser deixado ao acaso, como deixamos no inicio - deixamos as autarquias transformar os gimno-desportivos em hospitais de campanha, sem ser evidentemente necessário. Tem de existir uma maior coordenação destas forças, porque todas serão poucas para conseguir fazer este trabalho..Como é que a covid-19 vai mudar os hospitais? Esta nova realidade vai permitir ao sistema de saúde ser mais eficiente e até a experiência do doente ser melhor. Será possível, por exemplo usar novos modelos de prestação de cuidados, usando a urgência de resposta para garantir consensos para alteração de modelo. Já sugerimos, por exemplo, que as consultas não podem ser marcadas todas para a mesma hora, com agora, e que tem de haver consultas de manhã e à tarde. Há uma razão agora de controlo de infeção...para reduzir a afluência excessiva. Temos que aproveitar esta oportunidade. Veja a telemedicina: há hospitais em que dois terços das consultas são feitas à distância. Existia um resistência enorme, antes. Quer dos doentes quer dos profissionais.Até que ponto tem havido uma coordenação internacional? Portugal beneficiou da aprendizagem em Itália e Espanha. Na questão do distanciamento, por exemplo. Fomos dos únicos que o fizemos antes de termos mortes, por exemplo. Qual é a vantagem? Atrasamos a dinâmica da epidemia. E o que tem sido demonstrado é isso - fomos poupados. Esta aprendizagem podia estar a ser usada em África ou na América do Sul. Infelizmente nem todos os agentes políticos aprendem. Há uma discussão se as organizações multilaterais como a OMS podiam ter um papel sanitário superior. Essa discussão deve ser feita - mas parece-me uma crítica injusta em relação às organizações. São o resultado do que os países querem delas e não têm autoridade sobre os países. A OMS não tem autoridade para dizer a Portugal: implementem o confinamento. Faz recomendações técnicas. E esse é o papel dela. Podemos é pensar se no espaço europeu, se o papel da comissão europeia deve ser mais interventivo. Esta crise veio ajudar-nos nisso. A única agência de saúde - a ECDC - é de reporte epidemiológico. Apesar de todos os problemas que tivemos, até com países como a Alemanha e a França a contrariar os tratados europeus em termos de mercado único, com açambarcamento de ventiladores... Apesar de tudo existiu solidariedade da Alemanha em acolher doentes franceses. Mas há uma necessidade de aprofundamento da política sanitária a nível europeu, isso parece-me claro..Já disse que a maior vítima da última anterior crise económica e financeira foi o SNS... Foi sempre por duas vias. A da procura: vamos ter muito mais pressão. A outra é a redução do investimento..Acha que vai repetir-se o aperto ao SNS quando a crise sanitária passar? Ou nos habituarmos a ela? O SNS não recuperou da última crise, quer em recursos humanos, quer em investimento. Chega a esta crise muito depauperado e com graves problemas estruturais. Se reduzirmos o investimento no SNS vamos agravar os problemas. E mesmo esta matéria - será o novo normal, e com picos problemáticos, sempre. Ninguém consegue prever o que irá suceder e a pressão que irá haver sobre o sistema. Por exemplo, como é que a partir de outubro vamos vier com a covid-19 e a epidemia habitual da gripe? Com o drama que já é a gripe sazonal em Portugal...A tentação de cortes no SNS vai ser imensa. Foi preciso haver uma crise destas para o ministério das finanças perceber que tinha de dar autonomia às instituições hospitalares. Para contratar, por exemplo. Mesmo assim foi só quatro meses! Porque houve uma vontade politica para resolver os problemas. O que me parece é que antes de haver uma tentativa de redução do investimento, que vai surgir, não tenho a menor dúvida, há uma oportunidade de o SNS promover uma reestruturação do sistema. E nas grandes carências. Articulação com setor social. Transformação digital. Novos modelos de prestação de cuidados. Integração com os cuidados primários. Até porque os agentes estão muito sensíveis. Mas não tenhamos dúvidas: as mesmas pessoas que estão agora a aplaudir o SNS são as que vão pedir redução de salários da administração pública.