"Os grupos humanos mais arcaicos não eram loucos, mas os humanos modernos são"

Desbravou caminho na genética, abriu a porta ao estudo de ADN antigo, que revela espécies extintas e migrações populacionais, e o seu grupo sequenciou o genoma neandertal. Svante Pääbo esteve em Portugal e falou ao DN dessa aventura. (Artigo publicado originalmente a 24 de outubro de 2019)

Em 2010, o cientista sueco Svante Pääbo revelou ao mundo algo extraordinário: os humanos modernos e os neandertais cruzaram-se entre há 50 mil e 80 mil anos, muito provavelmente na região do Médio Oriente, e geraram descendência.

A prova, como ele publicou num artigo na revista Science, nesse ano, está no rasto genético que os neandertais deixaram nos europeus, asiáticos e seus descendestes - mas não nos africanos. É algo como 1% a 4% do genoma das populações modernas não africanas, mas a descoberta pôs fim a um longo debate sobre se esse cruzamento teria ou não existido. Existiu, ponto final. E deixou marca nos nossos genes.

Inicialmente formado em Medicina, Svante Pääbo fascinou-se com a ideia de "viajar" até ao Antigo Egito usando a genética quando estava a fazer o doutoramento em Upsala, no seu país, numa área que requeria a utilização das técnicas então em uso para sequenciar ADN.

A carreira científica que acabou por seguir conduziu-o aos estudos de ADN antigo, que permitem hoje lançar um novo olhar sobre o passado humano e o das outras espécies. A sequenciação do genoma neandertal pelo grupo que dirige no Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, foi um marco na ciência e na sua própria vida.

Foi dessa aventura, que conta no livro O Homem de Neandertal, em Busca dos Genomas Perdidos (Gradiva), que acaba de ser lançado em português, que Svante Pääbo veio falar na conferência "Como a genética conta a nossa grande história humana", que decorreu em Coimbra, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Ao DN, Svante Pääbo relembra essa história e fala também do futuro.

Foi o primeiro cientista a lembrar-se de estudar ADN antigo para tentar perceber o que ele poderia dizer-nos sobre o passado. Como lhe ocorreu essa ideia?
Penso que teve que ver com o facto de, à semelhança de muitas outras pessoas, sentir um fascínio desde criança pela arqueologia. Quando decidi estudar medicina, deparei-me com as novas técnicas para clonar e multiplicar o ADN de diferentes organismos usando bactérias. Sabia que existiam milhares de múmias egípcias em museus e muitas centenas que estavam a ser descobertas todos os anos no Egito, que pareciam muito bem preservadas, e não foi assim tão inusitado ocorrer-me a ideia de que poderia haver algum ADN preservado naquelas múmias com milhares de anos que pudesse ser estudado.

Conta no livro que quando procurou algo sobre isso na literatura científica não encontrou nada. Não ficou surpreendido por isso nunca ter ocorrido antes a ninguém?
Fiquei um pouco surpreendido. Mas também era verdade que as técnicas eram muito novas nessa altura [início da década de 1980]. E a maior parte das pessoas pensava que o ADN era uma molécula muito frágil, que se degradava em poucos minutos após a morte de um organismo. No laboratório, tínhamos de usar equipamento protetor e fazer preparações para manter a molécula. Portanto, havia essa sensação de que era uma molécula muito sensível.

A tecnologia para lidar com o ADN acabou por evoluir muito desde então. Para si, foi uma questão de persistência?
A tecnologia evoluiu muito, e fomos persistentes. A ciência é em grande parte uma ação combinada entre a tecnologia e a forma como a utilizamos. No início utilizámos uma tecnologia que designamos como clonagem em bactérias e que consistia em replicar cópias da molécula de ADN em bactérias, o que era muito ineficaz. Esta área de investigação do ADN antigo nunca teria descolado se essa tecnologia fosse a única forma de estudar o ADN. Aconteceu que surgiu uma nova tecnologia chamada reação em cadeia de polimerase [PCA, do inglês polymerase chain reaction], que permitiu fazer milhões de cópias de uma determinada sequência de ADN, numa mistura de outro ADN. Foi isso que tornou possível fazer esta investigação a uma escala maior.

Ainda era um pouco limitado para estudar sequências curtas da molécula e tinha muitos problemas, sobretudo porque era muito sensível à contaminação pela presença de outro ADN. O que aconteceu no início deste milénio foi que surgiu uma nova tecnologia de sequenciação genética, que permite fazer a sequenciação de milhões de moléculas de forma rápida e muito barata. Portanto, em vez de termos apenas uma determinada sequência, conseguimos obter muito rapidamente todas as moléculas de ADN a partir de um pequeno fóssil. Foi um desenvolvimento tecnológico feito de forma muito competitiva entre várias empresas.

Isso foi decisivo para o trabalho do seu grupo, de sequenciação do genoma neandertal?
Foi. O que fizemos foi pegar nestas novas técnicas e adaptá-las ao ADN antigo, para sequenciar moléculas que são muito curtas e que estão quimicamente modificadas.

Com isso abriu e desenvolveu uma nova área de investigação. Olhando hoje para trás, como vê essa caminhada?
Foi uma grande aventura, que até certo ponto excedeu os meus próprios sonhos. Quando comecei isto, quando era estudante de doutoramento em Upsala, com um projeto secreto de que o meu orientador não tinha conhecimento, sonhava com a possibilidade de reconstruir a história do Antigo Egito, de Roma ou da Grécia antigas. E isso está aliás a acontecer neste momento, mas o meu grupo não está envolvido nisso. Poder voltar atrás no passado, dezenas ou centenas de milhares de anos, e poder olhar do ponto de vista genético para espécies humanas que se extinguiram, que já cá não estão, excede todos os sonhos que tinha nessa altura.

Num certo sentido foi inesperado.
Sim. Na altura eu queria olhar para o ADN de pessoas que viveram há quatro, cinco mil anos, e acabámos por ir muito mais atrás, dezenas e centenas de milhares de anos.

O estudo das múmias, que originalmente era o seu objetivo, acabou por não ir muito longe.
Não. Surpreendentemente, nas múmias egípcias, que parecem muito bem conservadas, a preservação das moléculas de ADN não é boa. Só muito recentemente, em certos casos, foi possível recolher algumas sequências de ADN de algumas células em múmias. É mais fácil, por exemplo, recolher ADN de ossos com dez mil anos encontrados no norte da Europa, sobretudo porque o clima é mais frio.

Ainda tem esperança de que com novas tecnologias as múmias possam finalmente contar-nos um pouco mais da sua história?
Sim. Esse trabalho já está a ser feito por outros grupos. Um dos meus antigos estudantes de doutoramento, Johannes Krause, é agora professor em Jena [Alemanha] e está a trabalhar justamente sobre o Antigo Egito. Já publicou um artigo nessa área e penso que há outros para serem publicados em breve.

São respostas às perguntas que o fizeram começar a trabalhar nesta área?
Sim. Em geral, na arqueologia, quando vemos uma mudança nos padrões culturais isso pode dever-se a novas ideias ou a novas pessoas que chegam. Sabemos que o Antigo Egito foi conquistado por outros povos, e depois por Alexandre, o Grande, pelos romanos, pelos árabes, e a questão que se coloca é o que isso significa para a população daquela região. Tratou-se apenas de uma pequena elite política que chegou ali e mudou as coisas, ou houve uma mudança populacional substancial? Esse é o tipo de questões a que agora podemos responder?

Depois do Brexit "acabaremos por encontrar uma maneira de seguir em frente na colaboração científica..Outros países que não pertencem à União Europeia, como a Noruega ou a Suíça, encontraram" forma de o fazer

Do que o ADN antigo já nos mostrou até hoje, qual foi a maior surpresa para si?
Para mim foi surpreendente descobrir que os neandertais se misturaram com os humanos modernos quando se cruzaram entre si, e que contribuíram para o património genético ancestral das pessoas de hoje não africanas. Foi certamente também uma surpresa descobrir na Ásia um outro parente distante dos neandertais [os denisovanos, um grupo descoberto pelo grupo de Svante Pääbo em 2010, a partir da análise de DNA de um único registo fóssil, um pedaço minúsculo de uma falange, que foi encontrado em 2009 por investigadores russos na gruta de Denisova, na Sibéria], que provavelmente se espalhou na Ásia, quando os neandertais viviam na Europa. E também o trabalho feito por outros, particularmente por David Reich e o seu grupo de Harvard, que usam as nossas técnicas, e que estão a mostrar como as migrações humanas fazem parte da história da Europa, desde a primeira colonização dos humanos modernos aqui chegados, vindos de África [entre há 45 mil e 70 mil anos], e os muitos movimentos populacionais que se registaram no continente europeu, por pessoas geneticamente mais diversas entre si do que, por exemplo, os europeus e os chineses de hoje.

Diz que estes estudos genéticos, incluindo os de ADN antigo, podem agora ajudar-nos a desvendar o enigma do que nos torna realmente humanos, com características que nos tornam os únicos seres do planeta que fazem coisas como falar, produzir arte e ciência, rezar ou interferir na própria biosfera, de forma preocupante em muitos casos. De que forma é que isso pode ser feito?
Os seres humanos modernos são muito especiais, se comparados por exemplo com os neandertais, os denisovanos ou os outros grupos de hominídeos que existiram nos últimos dois milhões de anos. Nenhum dos outros tipos de humanos teve populações superiores a cerca de cem mil indivíduos num dado momento, as suas tecnologias alteravam-se muito lentamente, a uma escala de dezenas ou centenas de milhares de anos, e eram muito homogéneas geograficamente falando. As ferramentas de pedra dos neandertais encontradas em Espanha são idênticas às que eles já tinham, muito antes, na Ásia Central. Os humanos modernos são muito diferentes disto.

Quando surgiram, as tecnologias começaram a mudar muito rapidamente e a expandir-se regionalmente, tornaram-se também muito mais numerosos, chegando aos milhões - hoje milhares de milhões -, substituindo todos os outros grupos humanos que então existiam. Espalharam-se, atravessando oceanos. Nos últimos dois milhões de anos, outras espécies de hominídeos viveram em África e na Ásia e nunca atravessaram o mar para chegar à América ou à Austrália.

Os humanos modernos começaram a expandir-se de forma consistente a partir de África e do Médio Oriente há 65 mil anos e em menos do que isso chegaram a todo o lado no planeta, incluindo as pequenas ilhas do Pacífico. Portanto, há algo diferente no comportamento dos humanos modernos. Às vezes digo que os grupos humanos mais arcaicos não eram loucos, mas os humanos modernos são, porque é uma loucura atravessar um oceano sem se saber o que há do outro lado. Ou ir à Lua, ou a Marte, porque não paramos. Portanto, há algo na nossa cognição, ou na nossa visão do mundo, que penso que é diferente e único. Talvez tenha que ver com a sociabilidade, ou para nos impressionarmos mutuamente, mas há algo aí, e provavelmente tem que ver com a forma como o nosso cérebro se desenvolveu e funciona.

Agora já podemos comparar os genomas das pessoas que hoje existem com o dos neandertais, que são o nosso parente mais próximo em termos evolutivos. Podemos olhar para todas as alterações que hoje todos temos, em relação a eles, e cujo número não é muito grande. São cerca de 30 mil alterações de nucleótidos [os blocos de ácidos nucleicos que constituem a estrutura da molécula do ADN] as que hoje temos e os neandertais não possuíam no genoma. O nosso sonho é poder compreender no futuro quais destas alterações podem ter consequências na forma como funcionamos, e com isso perceber o que nos torna tão únicos e especiais. Esse trabalho está a começar e vai continuar nos próximos cinco, dez anos.

Já há algum resultado, alguma ideia sobre o que pode estar na base desses comportamentos que tornam os seres humanos tão especiais?
Não. Estamos mesmo a começar. O meu grupo está a trabalhar em alguns aspetos da questão e um dos problemas é que estas são alterações que quase toda a gente tem no seu genoma e portanto não podemos fazer a comparação entre genomas modernos. Temos de ter outras abordagens. Uma delas é usar células estaminais humanas [que dão origem a todos os tecidos do organismo] e alterar-lhes o genoma, transformando-o no genoma ancestral neandertal, e depois fazê-las diferenciar-se em células do sistema nervoso, fazendo em seguida comparações com células neuronais derivadas de células estaminais humanas não alteradas genomicamente, estudando-as em culturas celulares.

Outra possibilidade é desenvolver organoides, que são versões simplificadas de poucos milímetros de um dado órgão produzidas in vitro, como os organoides neuronais, que permitem estudar as fases precoces do desenvolvimento cerebral. Estas variantes genómicas neandertais podem também ser introduzidas em ratinhos para depois se estudar o seu desenvolvimento. É este trabalho que está a ser feito pelo meu grupo e por outros, que é fastidioso e muito trabalhoso, mas muito interessante.

É um grande projeto, como foi o da sequenciação do genoma neandertal?
Sim, mas é muito específico. Cada uma das alterações do genoma em que estamos interessados exige diferentes especialidades, dependendo de ter que ver com metabolismo, desenvolvimento cerebral, ou outro, e por isso colaboramos com outros grupos que são especializados nessas diferentes áreas.

Em que questões concretas estão a trabalhar neste momento?
Usando estas abordagens estamos a focar-nos nas alterações [do genoma] mais simples. Estamos particularmente interessados em alterações que produzem mudanças num aminoácido de uma enzima que esteja relacionada com o metabolismo, ou com o processo da divisão celular durante o desenvolvimento cerebral. Este tipo de coisas muito básicas.

Quando poderão ter respostas concretas?
É difícil de prever, será uma construção gradual do conhecimento, passo a passo.

Que impacto social poderá ter esse novo conhecimento científico sobre a espécie humana, sobretudo numa altura em que aumentam as tensões, o racismo e a xenofobia, nomeadamente nas sociedades europeias, que têm registado um aumento dos refugiados e dos imigrantes económicos oriundos de outros países?
De um modo geral, conhecer os factos e a verdade sobre a história humana é importante, mas hesito em dizer que a ciência deve servir um propósito político, porque na verdade nunca sabemos o que vamos descobrir em ciência. O racismo, por exemplo, é uma afirmação valorativa, segundo a qual diferentes grupos não teriam o mesmo valor ou capacidades. Penso que a resposta para isso só pode vir de políticas sociais que contrariem essas afirmações. Não é possível dizer que a ciência deve dar provas contrárias disso, uma vez que se trata [no caso do racismo] de uma afirmação no plano social. Só uma outra afirmação social pode lutar contra isso.

Nunca sabemos o que podemos descobrir em ciência. Até poderemos descobrir coisas diferentes entre populações, felizmente ainda não aconteceu. Mas mesmo que as encontremos, o racismo seria sempre errado, porque os direitos humanos são uma coisa absoluta. Os direitos humanos são para todos, incluindo alguém deficiente mental, ou diminuído nas suas capacidades. Os direitos humanos são uma afirmação social e política.

A ciência não pode dar mais força aos direitos humanos?
O que seria uma definição científica de direitos humanos? Não estou a ver. Os direitos humanos são um valor social, cultural e político que conseguimos nas nossas sociedades e de que nos devemos orgulhar.

Quando a sequenciação do genoma humano foi concluída em 2003, uma das coisas que se disse foi que aquela era também a prova de que somos todos iguais e de que não existem raças.
Sim, mas isso já se sabia antes. Não existe uma definição de raça, trata-se de uma categoria social. E sim, podemos dizer que não há diferenças genéticas fixas, não há uma única variante genética que seja uma diferença absoluta.

Mas uma política social cientificamente informada, em princípio, deverá ser melhor do que uma que não é.
Sim. Mas acima de tudo a ciência não deve ser mal usada, por exemplo, para promover certas ideias.

"Poder olhar do ponto de vista genético para espécies humanas que se extinguiram, e já cá não estão, excede todos os sonhos que tinha"

Essa foi uma das suas preocupações, quando descobriu que o património genético neandertal persiste hoje nos europeus e nos asiáticos, mas não existe nas populações de África. Chegou a temer que pudesse haver um mau uso dessa informação.
Sim, e de certo forma isso ilustra como as pessoas usarão sempre estas coisas para quaisquer fins políticos que tenham. O nosso trabalho mostrou que os não africanos têm esse componente primitivo no seu genoma e, como menciono no livro, houve um artigo publicado na revista Jeune Afrique, da África Ocidental, que escreveu algo como isto: agora sabemos porque os brancos são tão agressivos e colonialistas, porque têm aquele componente neandertal primitivo no genoma deles, o que foi, se quiser, uma forma de racismo contra as pessoas brancas. Todas estas categorias de bom e de mau não têm nada que ver com ciência, são questões de ideologia e ideias preconcebidas. Mas também não passou dali, não houve nenhum debate racista que tivesse por base aquela informação, o que é positivo.

O Brexit está aí à porta. Pensa que terá algum impacto negativo na investigação científica europeia?
Não sei, não sou especialista nisso. Claro que se houver menos mobilidade de cientistas e menos oportunidades de viajar, isso será mau para a ciência. Mas sou otimista e penso que acabaremos por encontrar uma maneira razoável de seguir em frente. Há outros países que não pertencem à União Europeia, como a Noruega ou a Suíça, que encontraram forma de trabalhar em comum.

Lendo o seu livro, parece ter sido um trabalho que lhe deu prazer. Foi assim?
Bem, comecei por escrever um livro muito mais sério, mais científico, com referências, e comecei a ficar entediado. Então pensei: se até eu estou entediado, quem é que vai querer ler? Decidi que ia escrever para os meus filhos, para que saibam no futuro, quando tiverem idade para ler livros, o que o pai deles fez quando não estava em casa. Foi talvez por isso que o livro acabou por se tornar mais pessoal e mais agradável de ler.

Vai escrever outro livro?
Não. Este livro, na verdade, foi muito bem recebido e foi traduzido para 16 línguas. Portanto, foi divertido, correu bem mas não vou repetir. Escrevi nele tudo o que tinha para contar.

(Artigo publicado originalmente a 24 de outubro de 2019)

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG