Invasão de Alcochete: "arrependidos" podem vir a ter guarda-costas da PSP

Fuga de informação deixou em risco de segurança três arguidos que terão culpado Bruno de Carvalho e Mustafá pela invasão da Academia do Sporting, em Alcochete.

A PSP está "preocupada" com a segurança dos três arguidos "arrependidos" da invasão da Academia do Sporting, em Alcochete, cujos nomes foram divulgados publicamente. A identificação destes elementos da Juve Leo faz parte do despacho do Ministério Público (MP), que fundamentou a detenção de Bruno de Carvalho e Mustafá, e foi divulgada por alguma comunicação social. Estes "arrependidos" fazem parte dos 38 arguidos que estão em prisão preventiva.

O despacho do MP, assinado pela procuradora do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa Cândida Vilar, fundamentava o pedido de prisão preventiva de Bruno de Carvalho e de Mustafá (que não foi concedido pelo tribunal) no testemunho destes três arrependidos, que apontavam Bruno e Mustafá como autores morais do ataque.

A fuga de informação que revelou quem tinha denunciado o ex-presidente do Sporting Clube de Portugal e o atual líder da Juve Leo, Nuno Mendes, conhecido por Mustafá, causou surpresa e indignação nos meios judiciais e policiais. "A proteção dos arguidos que colaboram com a justiça é elementar para um investigador. Ainda mais num caso desta natureza, quando todos se conhecem", sublinha fonte judicial.

Fonte da PSP, que tem estado a acompanhar este processo, revelou que esta polícia - que acompanha e monitoriza em permanência as claques de futebol - ficou "muito preocupada" quando o nome daqueles três elementos foi divulgado. "Foi colocá-los numa situação terrível, uma insensatez. Revelaram o que nunca se devia revelar e colocaram as suas vidas sob ameaça séria", salienta.

A PSP admite que vai ser necessário, quando forem libertados, que estes três elementos tenham guarda-costas por parte do Corpo de Segurança Pessoal desta polícia, mas isso só pode ter efeito "se assim for requerido pelo MP e decidido por um juiz", o que ainda não aconteceu.

A mesma fonte policial referiu que "neste momento a PSP está a investir nas suas competências exclusivas de proteção de testemunhas e altas entidades, e que muito brevemente irá adquirir viaturas, bem como diverso equipamento de alarmística, de vigilância e contravigilância".

Fugas de informação desagradam

A publicação do nome dos arrependidos é mais uma fuga de informação relacionada com este processo. Outra foi a divulgação do audio do interrogatório ao arguido Fernando Mendes, ex-presidente da Juve Leo e também detido. Em relação a este último a Procuradoria-Geral da República (PGR) determinou a abertura de um inquérito disciplinar e de um inquérito criminal visando Cândida Vilar, a magistrada titular do processo.

Conforme o DN já noticiou, a condução desta investigação tem provocado mal-estar, ao mais alto nível, nas polícias e também no MP. A PSP, que colaborou com o DIAP nesta investigação, não gostou de não ter sido informada sobre a detenção de Bruno de Carvalho e de Mustafá em pleno dia de jogo no Estádio de Alvalade.

Por seu lado, as constantes fugas de informação sobre o processo desagradaram à procuradora-geral da República, Lucília Gago, tal como o facto de Cândida Vilar se ter atrasado a pedir a especial complexidade do inquérito, o que a impediu de ter mais seis meses de investigação.

O DN já perguntou à PGR, há uma semana, se iria ser aberto algum inquérito às sucessivas violações de segredo de justiça neste processo, mas continua sem resposta. Além dos inquéritos sobre o áudio do interrogatório, "não temos mais informações", disse nesta sexta-feira fonte oficial da PGR.

Para adensar ainda mais o clima de guerra com as polícias (com exceção da GNR, à qual foi atribuída a execução da investigação), no seu despacho de acusação contra os 44 arguidos, a procuradora do DIAP responsabiliza a PJ por atrasos na investigação e a PSP por ter defendido o papel de Mustafá como "pacificador" da claque. A direção da PSP reagiu ao DN, a PJ prometeu reagir, mas acabou por não o fazer até ao momento.

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