Hospitais apostam em videochamadas para responder ao covid e a consultas em atraso

Começou em Ovar, durante o cerco sanitário, mas o objetivo é estender-se ao resto do país, diz o presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, em entrevista ao DN. Os médicos estão a começar a acompanhar os doentes com covid-19 através de uma videochamada. Este método permite também responder a parte das consultas adiadas em tempo de pandemia.

Ao som acrescentam a imagem. Os hospitais portugueses começam a apostar em videochamadas para monitorizar os doentes com covid-19 que estão a ser tratados em casa. A experiência começou em Ovar, por altura do cerco sanitário, chegou à Póvoa do Varzim, nesta semana, e para a próxima deverá ser implementada na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano, disse o presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), Luís Goes Pinheiro, ao DN. Mas o objetivo é que se estenda ao resto do país. A grande vantagem é a redução da probabilidade de contágio do novo coronavírus, que também se aplica a quem não foi infetado e que, através deste método, impede o aumento das listas de espera.

No caso dos doentes com covid-19, trata-se de uma atualização da plataforma Tracecovid - criada durante o surto para monitorizar os infetados (22 353, segundo dados da Direção-Geral da Saúde desta quinta-feira, que dão ainda conta de 820 mortes) e os contactos em vigilância (mais de 30 mil pessoas). Até aqui os médicos de família ou os especialistas nos hospitais faziam o contacto apenas pelo telefone. Agora, poderão ver os pacientes, aceder ao processo clínico de cada um e prescrever exames. Passa também a ser possível que os doentes entrem em contacto com os clínicos sem marcação prévia.

Desde que foi disponibilizada (a 26 de março), a Tracecovid já permitiu mais de meio milhão de contactos entre os utentes e os profissionais de saúde. "Nós já tínhamos lançado as teleconsultas em que os promotores desta consulta eram os médicos de família e os médicos especialistas, mas um utente - que acede à área reservada do Portal do Serviço Nacional de Saúde para contactar um médico por videoconferência - é inovador", explica Luís Goes Pinheiro,, presidente do conselho de administração dos SPMS, que assumiu a direção deste organismo no início de março, quando se registaram os primeiros casos de covid-19 em Portugal. Num "contexto único", diz, mas também motivador porque "tudo o que fazemos aqui pode fazer a diferença".

A primeira videoconsulta no âmbito desta experiência aconteceu no Hospital Dr. Francisco Zagalo, em Ovar, precisamente quando o concelho se encontrava em estado de calamidade pública (de 17 de março a 18 de abril) e com um cerco sanitário que restringia entradas e saídas ao indispensável para evitar a propagação do vírus SARS-CoV-2. "Foi simbólica a escolha", refere Luís Goes Pinheiro,. Seguiu-se o Centro Hospitalar Póvoa de Varzim-Vila do Conde, onde o projeto foi implementado nesta quarta-feira.

"A nossa expectativa é que para a semana aconteça na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano e que depois muito rapidamente comece a estender-se a diversas unidades de saúde tendo em conta a necessidade e a capacidade de robustecer o sistema", indica o presidente dos SPMS.

Teleconsultas aumentaram 26,9% neste trimestre

Não é só no caso dos doentes infetados com covid-19 que as videoconferências podem ser úteis. Desde o início da pandemia que substituem, em alguns casos, consultas presenciais. Com a atividade programada em abaixo (embora já tenha sido dada indicação para retomar as consultas e as cirurgias não urgentes), a telemedicina tem sido uma solução para alguns utentes.

Marta Temido, ministra da Saúde, admitiu, neste sábado, uma quebra "muito significativa" na atividade assistencial do Serviço Nacional de Saúde (SNS) por causa do novo coronavírus, referindo-se ao adiamento de 3,9% das consultas nos cuidados primários (cerca de 300 mil consultas) e de 5,7% nas unidades hospitalares (cerca de 180 consultas). Foram ainda canceladas temporariamente nove mil cirurgias. Pelo contrário, no primeiro trimestre de 2020, as consultas por videochamada cresceram 26,9%, informou, nesta quinta-feira, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, em conferência de imprensa.

"Sabemos que há variação homóloga, do primeiro trimestre de 2020 para 2019, nos cuidados primários de saúde, de cerca de 6,6% de consultas, mas em relação a consultas não presenciais tivemos um aumento de 26,9%. O que significa que as novas ferramentas, nomeadamente digitais, de consultas à distância e através do telefone conseguem de facto fazer o acompanhamento de muitos destes doentes", apontou António Lacerda Sales. Relembrando que toda a atividade urgente mantém-se a funcionar.

Luís Goes Pinheiro salienta que os mecanismos de telessaúde são mais importantes numa altura em que se fala da suavização das medidas de contenção, previsíveis para o mês de maio, que podem levar a um aumento da procura dos serviços de saúde. "Neste contexto, é preciso que o sistema esteja preparado para lidar com algum aumento de procura que seguramente vai acontecer. Para evitar contactos desnecessários entre utentes e profissionais de saúde é importante dotar o SNS do maior número de ferramentas suscetíveis de evitar esse contacto, garantindo aquilo que os profissionais de saúde considerem que é necessário para fazer uma avaliação integral das condições do utente", diz.

Linha SNS24 atende oito mil chamadas diárias

As videochamadas podem ser uma solução, mas há outras alternativas bem conhecidas, como a linha SNS24, a recomendada porta de entrada do sistema de saúde.

Por esta altura, o centro de atendimento da linha recebe em média oito mil chamadas diárias e tem tempos de espera inferiores a um minuto, garante o presidente dos SPMS. Luís Goes Pinheiro, fala num reforço técnico dos meios (que permite atender duas mil chamadas em simultâneo, quando antes eram 200) e de recursos humanos (de cerca de 1000 para 1400 profissionais) para superar as dificuldades iniciais, criadas pelo aumento da procura.

"No ano passado, a linha atendeu mais de 1,3 milhões chamadas. Só no mês de março [de 2020] atendeu mais de 300 mil", sublinha.

A SNS24 aumentou ainda a sua oferta através da criação de um serviço dedicado a apoio psicológico e, desde terça-feira, conta também com uma plataforma de videochamada para atendimento a cidadãos surdos, 24 horas por dia. Seis intérpretes de língua gestual portuguesa farão a mediação entre o utente e o enfermeiro.

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