Avante! "Nesta festa há muitos abraços e beijinhos. Mas neste ano não"

Contra tudo e contra todos, o PCP faz avançar a sua festa anual, agora já em fase final de construção na propriedade que os comunistas compraram no Seixal, a Quinta da Atalaia. O DN visitou o espaço. Um dos organizadores reconheceu que, dentro do partido, "tudo foi ponderado", até a hipótese de, neste ano, o evento não se realizar.

Nos tempos pré-pandemia, um dos espaços tradicionais na Festa do Avante! era o da reconstituição do prelo onde o jornal do PCP era impresso nos tempos da clandestinidade - pequenas máquinas muito primitivas facilmente deslocáveis de um lado para o outro e facilmente ocultáveis. O espaço era reconstituído, com as máquinas ainda a funcionar - e para as pôr a funcionar, recriando-se o espírito da época, mobilizavam-se velhos camaradas ainda do tempo da clandestinidade.

Desta vez, para desgosto dos velhos militantes que alinhavam nessa recriação, tal não vai acontecer. Numa visita feita nesta sexta-feira de manhã pelo DN ao espaço, ainda em construção, daquilo que será a Festa do Avante! dos próximos dias 4, 5 e 6 de setembro - no sítio do costume, a Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal -, um dos responsáveis pela Festa, Paulo Lóia, funcionário do partido de que é militante desde 1979, explica que a decisão não teve apenas a ver com o facto de a recriação envolver pessoas idosas. Mais importante do que isso foi o facto de aquele espaço suscitar muita curiosidade dos visitantes. "Não vamos ter mais pontos de concentração de pessoas do que os necessários."

Para que haja mais espaço, o recinto foi aumentado em dez mil metros quadrados, ocupando ao todo 30 hectares (o equivalente a 30 campos de futebol). É possível, sem grande esforço, uma lotação da ordem das cem mil pessoas. Mas o PCP decidiu que, desta vez, não poderão estar mais de 30 mil pessoas ao mesmo tempo no recinto. E esta é apenas uma das medidas de segurança determinadas, num processo que tem envolvido conversações entre o partido e funcionários da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Em frente ao maior dos palcos, o 25 de Abril, já foram pintados na relva círculos brancos, correspondendo ao espaço que cada pessoa vai ocupar para assistir aos espetáculos. Toda a gente estará a 1,5 metros do vizinho - à semelhança do que se viu no 1.º de Maio, na manifestação que a CGTP fez na Fonte Luminosa, em Lisboa.

DGS quer tudo sentado?

Dito de outra forma: para assistir aos concertos, desta vez não poderá haver contacto entre as pessoas que estarão na plateia. É neste momento da visita organizada para o DN que Paulo Lóia admite: "Nesta festa há muitos abraços e beijinhos, mas neste ano não." A dimensão da plateia foi aumentada em seis mil metros quadrados. Mas, por exemplo, tornou-se impossível levar neste ano à Festa uma orquestra sinfónica. É impossível, nesse caso, manter a qualidade musical e, ao mesmo tempo, aumentar a distância entre os músicos.

As mudanças feitas na Festa para a adaptar aos tempos de pandemia foram várias - começando pela tal redução máxima da lotação de cem mil pessoas para cerca de 30 mil. Os espaços para teatro e cinema passaram a ser ao ar livre. O Auditório 1.º de Maio também passou a ser ao ar livre (antes era fechado). Palcos de grandes dimensões para concertos passaram a ser apenas três, sendo o maior, como sempre, o Palco 25 de Abril.

A visita do DN realizou-se durante a manhã e ao fim da tarde. Já quando se fechava esta edição, surgiu a notícia, via SIC, de que a DGS exigia aos comunistas que os concertos se fizessem com plateias sentadas (e não em pé, como o PCP pretendia, assegurando a tal distância de segurança entre pessoas de 1,5 metros). Interpelado pelo DN, o gabinete de imprensa do PCP assegurou, numa nota escrita, que o partido "não tem conhecimento de qualquer comunicação da DGS nesse sentido". Concluindo: "Como se sabe, as matérias tratadas com a DGS têm decorrido no estrito plano da relação entre o PCP e essa entidade."

A última Festa de Jerónimo?

Quase tudo passou, portanto, a ser ao ar livre - o que leva os organizadores a fazer figas para que não chova. Paulo Lóia diz que, nesta matéria, os comunistas têm "tido sorte". Mas recorda que, uma vez, por estar a chover, o comício de encerramento - que marca a mensagem política do PCP para a rentrée do novo ano político - teve de ser mudado para o Auditório 1.º de Maio, nessa altura fechado.

Desta vez está aberto - e se chover não haverá outro remédio para os militantes senão aguentarem à chuva. Como de costume, estão espalhadas pelo recinto todo colunas de som que debitarão o discurso do secretário-geral do partido, Jerónimo de Sousa.

Há muito que se especula que esta poderá ser a última Festa do Avante! em que Jerónimo de Sousa discursará como secretário-geral do PCP. O partido tem marcado congresso eletivo para novembro - mas a questão da liderança mantém-se tabu. Há palpites para todos os gostos. Já se sabe, entretanto, que, como é habitual, o PCP terá um candidato presidencial próprio. Não se sabe quem será.

"Tudo foi ponderado"

Paulo Lóia explica ainda outras mudanças introduzidas na Festa por causa do covid-19. O fogo de artifício final criava grandes concentrações de pessoas - e por isso foi decidido cancelá-lo.

Também não haverá a corrida da Festa (uma prova de atletismo) nem a prova de cicloturismo, e não realizará o ato de receção ao campista. O minicomício de abertura também foi cancelado. Os concertos terão intervalos entre si de meia hora para dar tempo para higienizar os espaços. No posto médico foi construído uma sala de isolamento, para quem apresente sintomas de covid-19. Os profissionais do posto - médicos, enfermeiros, auxiliares - são militantes do PCP (ou amigos do partido) mas também trabalham para o Serviço Nacional de Saúde, pelo que no caso de ser necessário remeter alguém para uma unidade de saúde, já levará consigo a uma guia devidamente assinada. Nos espaços de restauração espalhados pelo recinto será proibido servir ao balcão.

Interpelado pelo DN, Paulo Lóia reconhece que "tudo foi ponderado" quando o PCP teve de decidir se fazia neste ano a Festa. Por outras palavras: todas as hipóteses estiveram em cima da mesa, começando pela de, desta vez, não realizar o evento. Em abril, o partido decidiu que ia avançar - e com isso pôs-se debaixo de fogo de muita gente.

"Fruir a vida é essencial"

Paulo Lóia diz que importa distinguir entre os que manifestam "genuínas preocupações" quanto às condições sanitária do evento - e "os que não querem que a Festa se realize porque na verdade nunca quiseram que isso acontecesse".

Mas, acrescenta, o partido decidiu avançar porque "o fruir da vida é essencial ao bem-estar". E porque o partido sentiu que "é preciso dar às pessoas a esperança de que é possível que a vida continue um pouco como era".

A Festa irá então avante. Na próxima semana irão acelerar definitivamente os trabalhos de preparação do espaço - e esperam-se cerca de 250 militantes mobilizados para o efeito, como todos os anos. O cartaz musical já está estabelecido: Xutos & Pontapés, Peste & Sida, Camané e Mário Laginha, Aldina Duarte, Capicua, Dead Combo, Lena d'Água, a orquestra de jazz do Hot Clube de Portugal, entre outros.

Na gastronomia, o panorama também será o habitual: restaurantes com a comida típica de quase todas as regiões do país, de norte a sul e ilhas, bem como um espaço vegetariano na Cidade da Juventude erguida pela JCP. Além disso, culinárias internacionais várias, de Angola ao Brasil, passando por Chile, Moçambique, Vietname ou Rússia. Os mojitos do Bar da Associação Amizade Portugal-Cuba são famosos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG