Sandro Arantes, trabalhava na restauração. Pensava que ganharia 1700 euros mensais. Leva mil.

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Estafetas preparados para levar pedidos a lisboetas confinados

Há mais restaurantes com serviço de entregas, mas aumentou ainda mais o número dos que entram na profissão de estafeta e que esperavam fazer mais entregas nesta segunda fase do estado de emergência.

Quem anda por Lisboa já se habituou a ver jovens, e menos jovens, com mochilas e malas, a maioria às horas das refeições. Guiam motos, bicicletas e, até, trotinetas, concentram-se no centro da cidade onde são esperados mais pedidos para levar a casa. São os estafetas das aplicações e das empresas com serviço de entrega que já existiam antes da pandemia, a que se juntaram agora mais restaurantes e novas áreas, como as farmácias. É uma ajuda para o negócio em tempos de crise. Já dos que andam nas ruas a fazer entregas, muitos perderam o emprego anterior, dizem ter menos euros para contar ao fim do mês. O grande boom aconteceu na primeira fase do estado de emergência, depois os pedidos caíram. O primeiro fim de semana de confinamento não trouxe os rendimentos que desejavam. Esperam que as coisas melhorem a partir de hoje.

A circulação em Lisboa estará limitada neste fim de semana entre as 13.00 e as 05.00, tal como em outros 190 concelhos de Portugal. Os estafetas gostariam de atingir os serviços que fizeram entre março e maio. "Houve um aumento muito bom, todo o mundo estava em casa, toda a gente precisava de comida. Depois, o mercado caiu uns 30%, vamos ver se vai melhorar com o inverno como costuma acontecer, mas o volume de trabalho oscila muito. O sábado é sempre o melhor dia", diz Wildson Will. Trabalha para a Home Sweet Sushi, comida japonesa para takeaway (levantar no local) ou delivery (entrega em casa), que tem seis lojas no país. Ele está em Benfica, onde Bernardo Trindade , o responsável, aumentou de sete para 11 o número de estafetas desde março.

Sandro Arantes, 52 Anos, Uber Eats desde março

Trabalhava na restauração. Pensava que ganharia 1700 euros mensais. Leva mil. "Comecei um dia antes da quarentena oficial, uma triste coincidência", regista Sandro Arantes. Brasileiro, chegou a Portugal em fevereiro de 2018, esperou dois anos pela autorização de residência, condição para se inscrever na Uber Eats.

"O problema é que há muitos imigrantes ilegais a trabalhar com contas arrendadas e ninguém fiscaliza", protesta. Poderia ter ido para a Glovo, mas não quer andar com dinheiro. "Se me mandarem parar, só levam comida." Afinal, deixou o Brasil pela violência. "Não quis oferecer ao meu filho [14 anos] a infância que tive. Em Portugal há segurança." Estima que 40% dos estafetas sejam brasileiros, outros tantos do Bangladesh, do Paquistão e do Nepal, portugueses serão 20%.

Almoça em cima da moto enquanto espera pelos pedidos, junto à praça de touros do Campo Pequeno, onde há muita oferta na restauração, não só no centro comercial como nas zonas circundantes, além de um Continente. Trabalha das 12.00 às 22.00, às vezes mais horas, todos os dias da semana. Recebe uma média de 2,50 euros por cada entrega (depende da distância).

Descontando a gasolina e outros encargos, leva "mil euros sofridos" no final do mês. Acrescenta: "Fiz um levantamento do mercado antes de escolher esta plataforma, disseram-me que podia ganhar 100/120 euros por dia, agora, se levar 30/50 aos dias de semana já é bom. Consegui ganhar 100 euros no último sábado, é muito bom, mas pensava que teria mais pedidos por Lisboa estar em confinamento. Andei aqui todo o dia." Assegura que os estafetas antigos e que estavam habituados a rendimentos de 1500/1700 euros mudaram de profissão ou de país. Foram para Inglaterra, onde se ganha mais com o mesmo trabalho. Sandro poderá seguir o exemplo; se as coisas não melhorarem até meados de 2021, irá para a Alemanha. A mulher trabalha numa residência para idosos, com um salário baixo, apesar de a mensalidade para quem lá viva ser alta.

Ana Carla Anic, 36 anos, primeiro dia na Glovo

Natural de São Paulo, chegou a Portugal a 1 de fevereiro. "No dia 13 já estava a trabalhar, veio a pandemia e as coisas foram ficando cada vez mais difíceis. O patrão teve de dispensar pessoas. Entreguei currículo em todo o lado e não consegui nada", conta Ana Anic . Vive com os dois filhos em Lisboa, de 13 e 16 anos.

Comprou uma trotineta por 100 euros a um antigo estafeta, começou a fazer entregas nesta quinta-feira, duas na primeira hora do almoço, "não é mau", para uma principiante. "Estou a aprender", diz.

Imigrou por causa da falta de segurança no Brasil. "Adoro Lisboa, é muito bonita, ando por todo o lado, imagine, comparando com São Paulo. Os meus filhos estão a entrar na adolescência, foram várias vezes roubados no Brasil, tinham medo de sair na rua, de usar o telemóvel. Mesmo assim, se as coisas não melhorarem até ao início de 2021, terá de regressar ao seu país.

Sofia Henriques, 23 anos, Uber Eats desde setembro

Licenciou-se no ano passado em Línguas e Literaturas Asiáticas e deveria estar no Japão a fazer ilustração (manga), depois de fazer um curso de formação na Áustria. A covid-19 travou a fundo os planos de Sofia Henriques. "Parou tudo, a empresa esperará até que abram as fronteiras no Japão, talvez em março", explica. Faz entregas desde setembro aos almoços e jantares, descansa ao domingo. Ganha 30 a 45 euros por dia, cerca 800 euros mensais. Os melhores dias são a sexta e o sábado, também os de chuva prendem mais as pessoas em casa do que a pandemia. "Lisboa estava cheia no sábado de manhã, estava sol. Talvez por isso, não tive muito mais pedidos devido às restrições."

Sofia Henriques costuma esperar junto ao Atrium Saldanha, há ciclovias e é terreno plano, prefere esperar sozinha. Justifica: "Ainda é uma profissão com muitos homens, há sempre quem queira falar."

Wildson Will, 38 anos, há dois na Home Sweet Sushi


Estafeta numa empresa que nasceu para fazer takeaway (levantar na loja) e delivery (levar a casa) de comida japonesa, Wildson Will não sentiu diferença nos pedidos do último fim de semana. Natural do Recife, chegou a Portugal em janeiro de 2018. Meses depois estava na Home Sweet Sushi, que também entrega pela Uber Eats e pela Glovo. Wildson prefere a empresa a outras plataformas.

"A equipa é boa , tem clientes certos e faz uma boa logística dos pedidos. Também me sinto mais respeitado quando ando na rua", diz. Apresenta-se ao serviço das 12.00 às 15.00 e das 19.00 às 20.30, folga ao domingo. Faz uma média de 13 a 16 entregas por dia, mas já aconteceu fazer metade às segundas-feiras. A última segunda-feira foi uma surpresa: dez entregas. No anterior estado de emergência chegou a levar 33 pedidos. Ganha 3,90 euros por cada entrega, o que dá 1300 a 1400 mensais. Tem de descontar despesas, nomeadamente 180 euros em gasolina. Tem contas para pagar em Portugal e no Brasil, onde vive a filha.
Deixou uma fábrica de estendais no Brasil, que está a ser gerida pelo sócio, foi a insegurança que o levou a imigrar. "Fui assaltado dez vezes, com arma apontada à cabeça. Aqui, ando por todo o lado, a qualquer hora da noite, trago relógio e ouro, isso era impensável no Recife", assegura. Considera a profissão de estafeta perigosa. "Estava parado num sinal, bateram-me e voei dez metros, aconteceu duas vezes." Espera a autorização de residência para abrir a empresa Deixa Que Eu Faço, reparação de motorizadas ao domicílio. Já está a trabalhar no logótipo: DQF.

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