Seguindo a dica recebida na aldeia do Sistelo, fomos ver o pôr do Sol ao topo da montanha. Uma vista

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Desconfinar sobre rodas: sete dias para conhecer as maravilhas do Norte

A nossa aventura do desconfinamento foi numa autocaravana, uma forma segura para ir de férias em tempo de pandemia. Sete dias a conhecer as maravilhas da zona norte de Portugal, a usufruir do contacto com a natureza e a gozar do sossego em família.

Don"t worry. Go Indie. O mote inscrito na autocaravana da Indie Campers que nos foi atribuída para a aventura do desconfinamento parecia certeiro para os primeiros dias fora de casa. Naquela semana de junho, desconfinar era a palavra de ordem. Após 86 dias amarrados ao teletrabalho e à telescola, o desejo de expandir a vista, o corpo e a alma era enorme.

Dia 1

O primeiro contacto com a nossa nova morada exigiu procedimentos diferentes dos habituais - desinfeção -, prova de que a descontração que procurávamos não podia significar baixar a guarda perante o inimigo. Acomodámos a tralha no espaço limitado que um furgão permite - e que por momentos nos fez pensar: terá sido boa ideia desconfinar com duas crianças num espaço tão reduzido? - e lançámo-nos ao caminho.

Eram 13h40, estávamos em Guilhabreu, no norte do país. E agora, para onde vamos? Se a vontade de nos fazermos à estrada era grande, na prática não tínhamos roteiro. É isto que nos atrai neste tipo de turismo, que descobrimos há três anos: ir sem destino, abertos à surpresa do caminho, ajustando as ideias trazidas de casa às sugestões recolhidas no terreno.

Conduzidos pelo GPS, percorremos as localidades que ligam esta freguesia à costa, sem saber onde íamos desembocar e, ao aproximarmo-nos do rio, vimo-nos em terra conhecida: Vila do Conde. Já tínhamos aqui passado bons momentos e um lugar concreto despertava memórias antigas: a nau quinhentista, ancorada no rio Ave. Levámos as crianças a visitar esta nau-museu e ficaram fascinadas.

Mais à frente, a chegada a Viana do Castelo é deslumbrante. A vista sobre o rio Lima, a cidade erguida na encosta com o Mosteiro de Santa Luzia bem lá no topo. Aí podemos apreciar a magnífica paisagem sobre a cidade, com a foz do rio de um lado e, do outro, a costa, num contraste de campos verdejantes e floridos com o azul do mar.

Por aí seguimos até Vila Praia de Âncora, outra bela surpresa, onde fomos recebidos por um rancho minhoto que atuava junto à praia. Depois de um delicioso arroz de tamboril num restaurante à beira-mar, naquela que foi a primeira refeição fora de casa em tempo de pandemia (com crianças, o truque é ser dos primeiros a chegar), chegou o momento memorável do dia. Enrolados numa manta, sentámo-nos num banco em frente ao mar, na marginal que liga a vila à praia de Moledo, a ver o Sol a pôr-se, desfrutando de uma imensa beleza e serenidade.

Percurso: Guilhabreu-Praia de Moledo (80 km)
Pontos de interesse: Vila do Conde, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora
A não perder: pôr do Sol na marginal

Dia 2

Não é fácil dormir até tarde numa caravana, devido ao sol e ao ruído envolvente. Por isso, há que escolher bem o sítio para pernoitar, de preferência parques dedicados ao caravanismo, mas não muito concorridos. A alvorada foi na praia de Moledo e a manhã tinha dois objetivos: tomar um bom pequeno-almoço e mergulhar na famosa praia minhota. O primeiro foi fácil de concretizar, no supermercado, onde aproveitámos para abastecer, pois nunca se sabe onde haverá outro local para fazer compras. Mas o segundo foi impossível de pôr em prática, tal era o vento e o frio. Ficámo-nos pela selfie.

Passámos por Caminha, com o rio Minho a separar Portugal de Espanha, e subimos até Valença. Ao entrar na fortaleza percebemos o encanto desta cidade fronteiriça: o empedrado das ruas e o casario da vila dentro das muralhas. A vista sobre Espanha é lindíssima, com um ténue e arborizado vale a ver passar os rebanhos conduzidos por pastores de outro século. Na vila, assustadoramente vazia, aproveitámos para fomentar a economia local, algo que procuramos fazer sempre por onde passamos. Colhemos dicas para a viagem e escutámos lamentos dos empresários locais que ansiavam pela chegada dos espanhóis, ali tão perto e tão separados pela fronteira encerrada.

O plano era seguir por Monção e Melgaço, mas a tarde já ia longa e o desejo de descobrir um sítio para mergulhar levou-nos até à aldeia histórica de Sistelo, uma maravilha da natureza. Um mergulho por dia, no mar ou no rio, é uma regra quase sagrada destas viagens de família. A água do rio estava gelada, mas a praia fluvial quase deserta, e no final, já refrescados, seguimos pela ecopista do Sistelo, passadiço acima até à aldeia, com as águas a correrem entre as pedras, lá em baixo.

Esvaziada dos turistas que a encheram durante a tarde, a aldeia desvendou-nos os seus encantos: a Casa do Conde, a igreja, o largo, as ruelas tão típicas da região. Ao ritmo dos sons do campo (os pássaros, o gado a recolher a casa e as vozes com pronúncia da terra) e embalados pela vista para as montanhas, usufruímos de uma sessão de mindfulness orientada pela nossa filha mais nova.

Foi o aperitivo para o jantar, no Cantinho do Abade, o restaurante com a melhor vidraça sobre a montanha, e que estava por nossa conta. Da proprietária recebemos a dica de ver o pôr do Sol no miradouro dos socalcos, quase no topo da montanha, e para lá seguimos, por uma estrada a desafiar a ravina, mesmo a tempo de ver o Sol a ir-se embora.

Percurso: Praia de Moledo-Arcos de Valdevez (100 km)
Pontos de interesse: Valença, aldeia do Sistelo
A não perder: Ecopista do Sistelo

Dia 3

Acordámos junto ao rio Vez enquanto os habitantes locais rumavam às suas rotinas e a vila de Arcos despertava. Apesar do espírito campista que encarnamos nestas viagens, o pequeno-almoço é a única refeição que tomamos na autocaravana (embora esta venha apetrechada para cozinhar) e é um ponto alto do dia: há tempo para conversar, sonhar o dia, até para ler.

O destino do dia era o Gerês e o caminho até Terras de Bouro foi serra acima, ao longo de 30 quilómetros, por uma estrada a serpentear montes, quase sem ver ninguém. O passo lento que a caravana obriga permite-nos descansar a mente e apreciar a paisagem. Contudo, quando se viaja com crianças são de evitar percursos longos, pois facilmente se aborrecem.

Já no distrito de Braga, fomos diretos ao rio Homem mergulhar numa praia cujo único "incómodo" era o coaxar das rãs que se escondiam nas poças. São as vantagens de viajar em época baixa: nem muita gente (muitas praias fluviais encontram-se encerradas e sem vigilância, pelo que é preciso cuidado extra) nem altas temperaturas.

O percurso até à Barragem de Vilarinho das Furnas brindou-nos com outra paisagem de cortar a respiração: por um lado o ainda verde viçoso do Minho, mas já contrastando, por outro, com as montanhas e fragas onde as cabras buscam alimento. Lá em cima, a imensa albufeira que esconde a aldeia que há quase 50 anos submergiu a este projeto de engenharia.

Entrámos no parque nacional, aquele que já calculávamos que seria o ex-líbris desta viagem. Em junho, o turismo aqui ainda estava a meio gás: parques de campismo a reabrir, poucas atividades disponíveis e - felizmente - mais natureza do que turistas. Na descida para Rio Caldo, uma travagem brusca para tirar a fotografia que ficará para a posteridade: um sorriso forçado junto à placa que assinala a localidade Covide.

Nas praias fluviais que se abrem à albufeira da Caniçada, e que no verão juntam milhares de pessoas e muitas atividades náuticas, demos mais um mergulho em paz e acolhemos a chegada do Avô Zé, que não víamos há vários meses e se juntou à nossa aventura. Mais um objetivo do desconfinamento que se cumpriu: rever a família distante.

Percurso: Arcos de Valdevez-Gerês (80 km)
Pontos de interesse: praia fluvial do rio Homem, Barragem de Vilarinho das Furnas, Campo do Gerês, Rio Caldo
A não perder: praias de Rio Caldo

Dia 4

Em três anos de caravanismo, foi a primeira vez que pernoitámos num parque de campismo. Mas o Vidoeiro Gerês Camping vale a exceção. Atravessado pelo rio Gerês, permite uma autêntica simbiose com a natureza e é um sítio central para descobrir a região.

Tomar o pequeno-almoço a ouvir a água a correr entre as pedras, e participar, ao mesmo tempo, numa aula de matemática online é algo que ficará na memória da nossa filha mais velha. Ao decidirmos viajar antes de terminar o ano letivo mais atípico de sempre, assumimos o compromisso de se ligarem às aulas sempre que possível. E assim foi, com o particular gozo de partilharem com os colegas, em direto, o que iam vivenciando.

O coração do Gerês começou a desvelar-se à medida que subimos a estrada que conduz à mata de Albergaria, um deslumbrante bosque com fauna e flora autóctones. Aqui o equilíbrio frágil do ecossistema impõe regras de circulação: é preciso pagar uma taxa, não se pode parar nem estacionar fora dos locais delimitados e a velocidade é reduzida. Mas caminhar e parar para escutar os sons da natureza foi um exercício que nos encheu a alma.

A cascata que surgiu do lado direito e a possibilidade de mergulhar nas suas águas límpidas compensou os obstáculos que foi preciso superar para lá chegar. Todo o cuidado é pouco, principalmente com crianças, pois o trilho é apertado e há que caminhar por cima das pedras (algumas escorregadias). Cumprir o distanciamento social nestas circunstâncias também não foi fácil.

Outra paragem obrigatória é a Portela do Homem, mas estar junto à fronteira e não poder atravessá-la suscitou-nos uma sensação peculiar. Até comentámos entre nós: qual é a probabilidade de as crianças virem a vivenciar outro momento como este?

A descoberta do Gerês prosseguiu na cascata do Arado, onde é preciso caminhar um bom bocado e saltar muitas pedras. Todos os anos há acidentes nestas lagoas e basta prestar atenção para perceber que muitos visitantes descuram a segurança, mergulhando em zonas perigosas.

A volta deste dia deu-nos ainda a conhecer o Miradouro da Pedra Bela, uma privilegiada varanda sobre a albufeira da Caniçada. Sendo um dos pontos mais atrativos da região, é o local ideal para procurar uma cache. O geocaching é uma atividade que une milhares de pessoas na procura de pequenos tesouros, simbólicos (caches) através de georreferenciação (GPS). Encontrá-los (usando uma app) tem sido uma forma diferente de conhecer os sítios por onde passamos.

Percurso: Vidoeiro
Pontos de interesse: mata de Albergaria, Portela do Homem, cascata do Arado, Miradouro da Pedra Bela
A não perder: mergulho nas cascatas

Dia 5

Assim que percebemos que ia ser um dia com muita gente na região, rumámos à cascata Tahiti, que se vai desenrolando em várias lagoas de água cristalina onde é possível tomar banho. Nesta zona de uma beleza natural impressionante demos uns belos mergulhos e estendemo-nos nas pedras aquecidas pelo sol. Mais à frente, na estrada que liga à aldeia de Fafião, uma inesperada rulote/bar com esplanada junto ao rio serviu-nos uns hambúrgueres maravilhosos.

Fafião é outro local imperdível, principalmente o miradouro onde uma pequena ponte de madeira liga duas enormes fragas. Nesta aldeia de montanha também há cascatas e trilhos para explorar, mas tivemos de seguir viagem. Outra aprendizagem destas andanças é que não podemos visitar tudo, há que fazer opções.

O objetivo era pernoitar em Pitões das Júnias, onde já tínhamos estado há uns anos. Mas nessa altura ficara a faltar a visita ao mosteiro que se esconde nas margens do rio, bem lá no vale. Antigo ermitério, tem uma parte em ruínas, mas toda a zona envolvente é bonita. Lanchámos à beira-rio e, sentados junto a um enorme carvalho, recuperámos forças para a subida.

Num passeio pelas ruas desta aldeia de pastores, ficámos a conhecer o padre, que visitava os doentes. Como era feriado religioso, indicou-nos o horário da missa, na qual acabámos por participar, depois de jantar num concorrido restaurante local. Curiosamente, em tempo de covid-19, para ir à missa não é preciso entrar na igreja, pois o som é difundido no exterior por altifalantes.

É caso para dizer: a missa é para quem quer e para quem não quer também...

Percurso: Gerês-Pitões das Júnias (65 km)
Pontos de interesse: cascata Tahiti, Fafião, Pitões das Júnias
A não perder: visita ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias

Dia 6

O dia amanheceu chuvoso e frio, o que limita muito as possibilidades quando se está numa autocaravana. Surgiu então um programa inesperado. Na sequência da partilha da nossa viagem nas redes sociais, do outro lado do mundo, um familiar que trabalha no setor dos vinhos propunha-nos uma visita à Quinta do Crasto. O nosso desejo de visitar o Douro Vinhateiro já vinha de longe e chegava agora a oportunidade ideal.

Começámos a descer pelo interior de Trás-os-Montes até chegar à Região Demarcada do Douro, à quinta cuja produção de vinho remonta ao século XVII. Aí fizemos uma visita guiada pelos vários espaços, desde as salas onde são recebidas as uvas até às modernas adegas onde se armazenam os vários vinhos produzidos. Em redor, socalcos e socalcos de vinha, orientadas consoante a inclinação do terreno, entre elas a vinha Maria Teresa, a mais emblemática da propriedade.

O almoço foi no terraço com uma vista deslumbrante sobre o Douro. Ao contrário dos almoços dessa semana - um piquenique rápido em trânsito para qualquer lado -, este foi demorado, saboreado e acompanhado por um magnífico vinho. Enquanto isso, as crianças brincavam livremente na quinta, entretidas com um ratinho do campo acabado de nascer.

Já entardecia quando voltámos à carrinha, para completar o passeio junto ao Douro, até Peso da Régua, outro ponto de paragem obrigatória, como rapidamente percebemos pela lotação do parque destinado ao caravanismo. A cidade está cada vez mais virada para o turismo e a zona junto ao rio tem uma enorme variedade de restaurantes e wine bars, vocacionados para turistas que procuram experiências vinícolas. No meio de tanta oferta, e com a ocupação ainda muito baixa, o difícil foi mesmo escolher onde jantar.

Percurso: Pitões das Júnias-Régua (175 km)
Pontos de interesse: Douro Vinhateiro, Quinta do Crasto, Peso da Régua
A não perder: visita à Quinta do Crasto

Dia 7

A nossa aventura estava a terminar. O último dia nem deu para grandes passeios: foi regressar a Guilhabreu e entregar a nossa carrinha, a tempo de ser preparada para outros clientes. Como estávamos perto do Porto, e sempre neste espírito de aproveitar ao máximo todas as oportunidades, ainda fomos visitar a cidade e reencontrar um amigo. Debaixo de chuva, passeámos pelas ruas mais emblemáticas, visitámos o miradouro junto à Sé, passámos junto à Torre dos Clérigos, à Praça do Município, e atravessámos (a pé ou de carro) as várias pontes da Invicta. Outra dica preciosa, já a terminar o relato: não visitem tudo de uma vez. Deixem sempre alguma coisa para uma segunda visita, para terem uma desculpa para regressar ao lugar onde já foram felizes.

Como se prepara uma viagem de autocaravana?

Da escolha da região a visitar as aplicações que podem ajudar na estrada, há uma premissa fundamental: não programe tudo.

Há três anos que viajamos de autocaravana e sempre que partilhamos a nossa viagem com os amigos surgem pedidos de sugestões. Neste ano ainda mais, pois a autocaravana é uma forma segura de viajar: atenua o risco de contágio ao permitir manter o distanciamento social, evita a partilha de espaços fechados e a troca de objetos. Além de promover o contacto com a natureza, e o slow travel, que faz bem ao corpo e à alma. Aqui ficam as nossas dicas.

Não programe tudo. Escolha a zona do país que quer conhecer, procure locais a visitar e recolha sugestões de atividades a fazer. Mas não vá com o percurso todo definido, para poder acolher as surpresas da viagem, demorar-se mais num sítio e visitar algo inesperado. Não faça trajetos muito longos, principalmente se viajar com crianças.

Instale no telemóvel uma aplicação com mapa, para se orientar nos percursos, e também a aplicação que informa onde há parques de estacionamento para autocaravanas (usamos a park4night). Tome em atenção a descrição dos parques, os serviços que oferecem (eletricidade, água) e os comentários deixados pelos utilizadores, pois são de grande utilidade.

Por norma, viajamos em época média e baixa, entre maio e junho, durante seis ou sete dias, pois há pouca gente, dá para usufruir das praias, e a temperatura é mais amena. Reservamos sempre com alguma antecedência.

Não leve muita bagagem pois o espaço é limitado. Material indispensável: máquina fotográfica, repelente, caderno de notas. Neste ano acrescentamos desinfetante e máscara.

Quanto às autocaravanas, há para todos os gostos e preços e é preciso ter em conta que apesar de o custo básico não ser muito elevado, os extras (o porta-bicicletas, a mesa, as cadeiras, etc.) são sempre a somar. Já viajámos com várias empresas (basta fazer uma pesquisa na internet), e neste ano optámos pela Indie Campers (www.indiecampers.pt), uma das mais antigas, que tem cerca de 1300 carrinhas espalhadas pela Europa. Tem o selo Estabelecimento Clean & Safe, o que nesta altura é muito importante. Em conversa com os responsáveis, percebemos que a procura disparou, especialmente entre os portugueses que, em 2019, eram 15% dos viajantes e neste ano, só em junho cresceu para os 65%. Por isso, é reservar já!

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