A Rússia a letras gordas

Nesta semana, Vladimir Putin e a Rússia voltaram a ser manchete na comunicação social. Um dos motivos foi a mensagem de felicitações que Putin enviou a Biden. O líder russo acabou por ser um dos últimos chefes de Estado a dar os parabéns ao vencedor das eleições americanas. O pretexto da delonga foi o de estar à espera dos resultados do Colégio Eleitoral. Este formalismo, impecável do ponto de vista legal, mas pouco diplomático e inconsequente em termos do trato futuro, esconde mal a preferência que Putin tinha por Donald Trump. A política intempestiva, incoerente e divisiva de Trump era, na visão de Moscovo, a que mais enfraquecia a posição internacional dos EUA e melhor servia o renascimento geopolítico russo. Sem mencionar, claro, a deferência que o americano sempre mostrou pelo homem forte do Kremlin.

A mensagem de Putin fala de cooperação e coloca o seu país a par dos EUA, na liga muito exclusiva dos grandes, ou seja, dos Estados "especialmente responsáveis pela segurança e estabilidade globais". Putin, sempre atento, aproveita a ocasião para reafirmar o papel indispensável do seu país na cena mundial.

Entretanto, surgiram outros cabeçalhos sobre a Rússia. Foi acusada de estar a infiltrar desde março os sistemas informáticos de vários alvos americanos de primeira importância. A lista das instituições federais e das empresas privadas violadas, bem como o nível de refinamento utilizado, permitem medir a envergadura da operação, que só pode ter sido realizada pelos serviços altamente especializados que compõem a teia oficial russa. É verdade que outros países tentam permanentemente fazer o mesmo. Mas o facto é que os russos o conseguiram e durante um longo período. Isto só pode significar que a liderança investe de modo excecional na ciberespionagem. Nunca se saberá exatamente que informações foram extraídas. Resta a esperança de que o volume de dados seja de tal magnitude que acabe por submergir os analistas. Nestas matérias, uma coisa é obter as informações, outra é ter a capacidade de proceder à sua análise, de modo a transformá-las em conhecimento e pistas de ação, e isso em tempo útil, que se torna escasso mal descoberta a infiltração.

Para completar o ramalhete, notou-se logo de seguida que os russos também haviam pirateado a Agência Europeia de Medicamentos. E a CNN publicou um relatório pormenorizado da perseguição e envenenamento do opositor Alexei Navalny pelos agentes de Putin. Depois surgiu a notícia sobre as dopagens e a interdição de participar nos próximos Jogos Olímpicos. Uma série de manchetes negativas sobre um regime que adora vender como respeitável a sua imagem.

No meio de tudo isto, os europeus prolongaram as sanções contra a Rússia até julho de 2021. Estas medidas, que vêm de 2014 e estão relacionadas com as intromissões armadas russas na Ucrânia e a ocupação da Crimeia, têm um campo de aplicação pouco abrangente. Não incluem, por exemplo, a suspensão da construção do gasoduto Nord Stream 2, que ligará a Rússia à Alemanha através do Báltico. Aliás, um outro título da semana foi para anunciar que os trabalhos de instalação do gasoduto haviam recomeçado e entrado mesmo na fase final.

A realidade é que os dirigentes da UE não têm uma visão política clara do que deve ser o relacionamento com a Rússia de Vladimir Putin. Tem havido muito debate sobre a questão, incluindo o desenho de cenários possíveis, mas não há acordo. A tendência parece-me ser, ao olhar para a década que temos pela frente, uma mistura de impasse, hesitação, oportunismo, desconfiança e distanciamento. Uma política de tateamentos, com Putin a marcar o compasso.

A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), agora com a alemã Helga Schmid ao leme, deveria procurar ser a ponte para o diálogo entre nós e Moscovo. Mas não só. A agenda externa da UE precisa de definir uma linha estratégica em relação à Rússia, que inclua propostas de ações conjuntas, primeiro em áreas de menor controvérsia e que sirvam para construir entendimentos e confiança. O mesmo deve acontecer ao nível militar, quer na UE quer na NATO. A Rússia é o nosso grande vizinho. Ameaçadora, certamente, com uma liderança autocrática, sem dúvida, mas geográfica, cultural e economicamente próxima. Uma política de portas trancadas não tem saída.

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-representante especial da ONU

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