A América redescobre os seus índios, alguns meio vikings, outros meio açorianos

Quando era criança Deb Haaland passava o verão com os avós maternos numa casa sem água corrente em Mesita, uma das seis aldeias do Novo México onde continua a viver o Pueblo of Laguna, uma das quase 600 tribos índias que os Estados Unidos reconhecem, escreveu o The Washington Post. Aos 60 anos, a congressista tornou-se de um momento para o outro uma celebridade, e por isso esta historieta pessoal, porque foi escolhida por Joe Biden, vencedor das presidenciais de 3 de novembro, para secretária do Interior, uma pasta ministerial que lhe dá controlo sobre vastos territórios do país e também sobre muitos assuntos índios. Será também apenas o segundo nativo-americano, expressão politicamente correta para índio ou índia, membro de uma administração americana. Antes, Charles Curtis, que se dizia da tribo Kaw do Kansas, foi vice-presidente de Herbert Hoover entre 1929 e 1933.

A um mês de tomar posse e substituir Donald Trump na Casa Branca, Biden continua a construir uma equipa multicultural. E a escolha de uma índia tem um tremendo simbolismo, pois os mais antigos habitantes dos Estados Unidos são uma minoria cheia de razões de queixa da história. Basta pensar que são hoje dois milhões em 330 milhões de americanos quando se calcula que aquando da chegada dos primeiros europeus seriam uns sete milhões de almas nas terras a norte do rio Grande. A juntar a esta nomeação, o número recorde de seis congressistas também pode ser interpretado como uma verdadeira tentativa de reconciliação entre o país e os seus índios, muito além de filmes bonitos como Danças com Lobos ou da moda da mitificação das tribos como campeãs do ambiente.

Chamem-se índios, esquimós, siberianos ou aborígenes, muitos pequenos povos foram subjugados pelos colonizadores europeus e condenados à situação de minoria nas suas terras. E não só pelos europeus. A Rússia expandiu-se pela Ásia do Norte, onde povos minúsculos se habituaram há séculos a que o centro de poder seja o distante Kremlin. Tibete e Xinjiang têm hoje uma maioria de Han.

Além-mar, também o mesmo fenómeno aconteceu, da Austrália ao Canadá, passando por Brasil e Estados Unidos. Mas no caso americano há uma diferença: o essencial da conquista do território foi feito pela nova nação independente, já depois de libertada do jugo europeu. Em 1776, quando se rebelaram contra Jorge III, as 13 colónias espalhavam-se de norte a sul ao longo de uma faixa atlântica. Boston , Filadélfia e Jamestown eram os Estados Unidos, mas para lá dos Apalaches mandavam as tribos índias, esses Sioux, Cree ou Comanches que ainda hoje nos enchem o imaginário por causa dos filmes de Hollywood, na maior parte das vezes com narrativas injustas. Nesse imenso meio, as grandes planícies, hoje os estados da América conservadora que voltou a votar em Trump, brancos só alguns caçadores de peles franceses, vindos do Canadá, ou espanhóis no sudoeste.

Foram os Estados Unidos que fizeram a guerra às tribos índias, conquistando-lhes terras, empurrando sempre mais para o oeste aqueles que se revelavam indomáveis. Alguns presidentes americanos fizeram carreira política depois de serem militares de sucesso no combate aos índios, como Andrew Jackson. E foram menos as vozes que se ergueram em defesa das tribos do que aquelas que, e bem, denunciaram a escravatura dos negros. Durante muitos anos, o típico herói dos americanos era o cowboy que se aventurava em terras índias ou o coronel Custer, dizimado em 1876 mais o seu Sétimo de Cavalaria pelos Sioux, numa batalha heroica que não impediu a derrota na guerra. Touro Sentado morreu em 1890 numa reserva e antes fez parte do espetáculo de Buffalo Bill.

Nos Estados Unidos não houve a miscigenação que aconteceu no México. E como me sublinhou um dia um historiador português, a famosa Pocahontas tão celebrada até pela Disney foi uma exceção enquanto no Brasil era quase a regra. Os índios norte-americanos foram subjugados como os seus irmãos mais a sul, mas por culpa da sua divisão e também pela ferocidade de sucessivas vagas de aventureiros no oeste quase desapareceram. Dizemos dois milhões hoje, entre os que vivem em reservas, quantas vezes terras de casinos e de alcoolismo, e aqueles que se integraram na sociedade, mas poucos dos mais famosos deles são mesmo 100% índios. Não resistiram ao tal melting pot que pouco a pouco se foi impondo. Haaland, por exemplo, tem um pai de origem norueguesa. E Curtis só era Kaw pelo lado materno. Recordo-me de ser muito celebrada nos anos 1990 a eleição de Nighthorse Campbell para o Senado, finalmente um senador do Colorado índio. Bem, o político era Cheyenne pelo lado paterno, mas a mãe era dos Açores.

Não se façam agora ajustes de contas históricos. Nem se culpe Colombo tentando derrubar as suas estátuas. Os índios vieram da Ásia, cruzando o estreito de Bering quando os gelos baixavam o nível do mar e tornavam a travessia possível. Uns permaneceram nómadas, outros construíram impérios. Fizeram guerras entre si. No Peru, Pizarro conseguiu impor-se no século XVI com um punhado de soldados espanhóis porque chegou a meio de uma guerra civil no Império Inca. As doenças dos europeus foram a primeira das armas contra os povos das Américas, depois a superioridade tecnológica do armamento europeu impôs-se. Pode imaginar-se que outro caminho tivesse sido possível, mas é um tremendo "e se?" que nada acrescenta exceto aos fanáticos de história alternativa.

Faz bem Biden em prestar homenagem à diversidade da América. E faz bem a América em celebrar o heroísmo dos que fizeram o Trilho do Oregon mas também em relembrar o sofrimento do Caminho das Lágrimas. Hoje uma mulher como Haaland pode ser admirada por todos, sentir-se confortável na sua diversidade pessoal até (o que sentirá pelas raízes vikings?) e lutar pelas causas que a emocionam e isso é admirável.

Há uns anos assisti em San Diego (por acaso, o sítio onde na Segunda Guerra Mundial se criou o Código Navajo) às celebrações da chegada do navegador João Rodrigues Cabrilho àquele ponto mesmo junto à atual fronteira entre os Estados Unidos e o México. Um lusodescendente, Donald Valadão, vestia a armadura do português ao serviço da coroa espanhola e imitava o desembarque de 1542. A festa, apadrinhada pela Marinha americana, juntava cinco nações, com as suas bandeiras respetivas: a americana, a portuguesa, a espanhola, a mexicana e a dos Kumeyaay, os índios que viram Cabrilho chegar. Falou-se de convivência.

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