Covid-19 fez subir consumo de álcool e comida pouco saudável

As mulheres são as que se assumem mais afetadas pela ansiedade provocada pelo confinamento. E que mais assumem comer mais. São conclusões da primeira edição do barómetro da Escola de Saúde Pública da Nova, divulgado em parceria com o DN.

Confirma-se aquilo de que os confinados em casa já suspeitavam: a quarentena e a ansiedade por ela provocada estão a levar ao maior consumo de comida calórica, álcool e tabaco, e a menos sono. A falta de sono ou a dificuldade em adormecer é um dos efeitos mais sentidos nesta quarentena. Além da irritabilidade, associada à sensação de se estar sempre a pensar no covid-19, tudo sinais de que se queixa a imensa maioria, 82% dos que responderam ao primeiro inquérito sobre o covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Universidade Nova de Lisboa.

É muito - mas não igual para todos. As mulheres são as mais atingidas, em todas as categorias. Ou pelo menos são as que têm a sinceridade de dizê-lo. Apenas 15% delas referem "nunca" se sentirem ansiosas, quando essa percentagem sobe para 27% dos homens. São também, largamente, as mais afetadas pela falta de sono: 33,3% admitem ter falta dele, enquanto nos homens a percentagem desce para 19,9%. 26% admitem ter mais vontade de chorar - contra 12% nos homens. 24% afirma estar mais sobrecarregadas - ao contrário de apenas 15% dos homens. E também são elas que comem mais - 19% contra 11% deles.

Este barómetro da ENSP foi feito com base em 160 mil inquéritos de opinião social e vai ser seguido todas as semanas, em parceria com o Diário de Notícias, permitindo avaliar como as pessoas estarão a lidar com a situação e a sua evolução ao longo das próximas semanas, de confinamento e quando começarmos a sair dele.

As mudanças do dia-a-dia, das rotinas que se quebraram e a crise são o que mais parece determinar o grau de ansiedade. Mais do que a doença, propriamente dita, ou o medo dela. Os que estão a trabalhar em casa, ou em lay-off, são os mais atingidos - o que também é consequência lógica tanto do acumular de tarefas, no primeiro caso, como da crise que já se sente forte, no segundo.

Segundo o barómetro, dos participantes que reportam sentir-se ansiosos "todos os dias", 35% são trabalhadores que estão em teletrabalho, 23% suspenderam a sua atividade profissional - apenas 9% estão a trabalhar no local de trabalho.

Numa análise mais fina percebe-se isso mesmo, tendo em conta que "os idosos são os que se sentem menos agitados, ansiosos ou tristes, sobretudo quando comparados com a população entre os 26 e os 65 anos", explica Sónia Dias, coordenadora científica do estudo. "Isto, pode levar-nos a pensar que as medidas de confinamento e distanciamento social estão a ter mais impacto psicológico no grupo populacional que tende a ser mais ativo profissionalmente e que também reporta maior receio de perder o seu rendimento."

Outro dado que reforça esta tendência é o facto de os grupos profissionais da saúde, forças de segurança, meios de socorro, operadores de supermercado, entre outros, que continuam a trabalhar, não terem graus de ansiedade maiores do que os restantes. Donde se prova que a exposição à doença é menos causadora desse sentimento do que a mudança de hábitos ou a consequência económica da crise. "Este foi um aspeto que surpreendeu a nossa equipa de investigação", diz Sónia Dias. "E merece um aprofundamento nas próximas análises. Será que, embora estas pessoas estejam expostas a contextos mais adversos, o facto de se sentirem ativas e produtivas pode contribuir para uma maior resiliência à ansiedade e à tristeza?"

O isolamento também pode representar um papel importante. A maior parte dos que se sentem mais agitados são também os que não têm apoio entre os seus familiares, conhecidos ou na sua comunidade para comprar comida ou ir à farmácia. Cerca de um terço dessas pessoas revelam-se ansiosas ou em baixo "todos os dias" ou "quase todos os dias".

Por outro lado, as pessoas que se têm sentido mais ansiosas ou tristes são as que demonstram menores níveis de confiança na capacidade de resposta dos serviços de saúde e também as que se sentem em maior risco de contrair covid-19. Mas é de realçar que cerca de 45% de todos dizem que andam a limitar a quantidade de informação que veem sobre covid-19 - e são uma minoria os que revelam que não o fizeram pelo menos em alguns dias.

Os investigadores que fizeram o estudo demonstram alguma preocupação com o futuro pós-covid-19 e as consequências deste confinamento. É que, como explica Sónia Dias, grande parte dos participantes revelaram que "aumentaram os comportamentos prejudiciais à sua saúde: 16% admitem comer mais doces, gorduras ou comidas mais calóricas e 8% reconhecem estar a fumar mais ou a beber mais álcool".

Pior: quem alterou este tipo de comportamentos diz que se sente ansioso com mais frequência. Ou seja, estes comportamentos entram num círculo vicioso de causa e consequência. "No sentido inverso", diz o estudo, "as pessoas que praticam atividade física e quem ocupa o tempo em casa também com atividades que lhe dão prazer são quem refere sentir-se menos vezes ansioso."

Ou seja, continua o estudo, este momento de permanência prolongada em casa, com alteração de rotinas e redução substancial da atividade física ou aumento do comportamento sedentário pode ser prejudicial para a saúde. "É essencial que se divulguem, de forma clara e simples, estratégias de promoção de comportamentos saudáveis, do bem-estar e da qualidade de vida, nomeadamente na área da alimentação saudável e da promoção da atividade física," diz a investigadora.

*Nota sobre o Barómetro Covid-19
Projeto de investigação da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP-NT) com equipa multidisciplinar de investigadores, médicos de saúde pública, epidemiologistas, estatísticos, economistas, sociólogos e psicólogos. Semanalmente são apresentados no Diário de Notícias dados efetivos e análises científicas sobre a pandemia, com o objetivo de contribuir ativamente para a sua compreensão, assegurar uma ferramenta de apoio à tomada de decisão e gerar conhecimento.

Autores: Sónia Dias (coordenação científica), Ana Rita Pedro (coordenação executiva), Ana Gama; Ana Marta Moniz, Beatriz Lourenço, Carla Nunes, Cláudia Parreira, Fernando de Avelar, Patrícia Soares, Pedro Laires e Rui Santana. www.ensp.unl.pt

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