Uma nobre, mas não menos diabólica história da tatuagem

Estatuto, honra, clã, salvação, bálsamo contra as enfermidades, mas também demoníaca e vandalismo corporal. O elenco de atributos associados às tatuagens é tão extenso como a sua presença na história. Múmias com milhares de anos deixam-nos o relato antigo de marcas perenes na pele de humanos que habitaram todos os continentes. De símbolo demoníaco na Europa a dádiva dos deuses na Oceânia, às tatuagens não escapou a pele de figuras como Jorge V de Inglaterra ou Nicolau II da Rússia.

De torso nu, a envergar caneleiras de couro de cabra, artefactos de caça cingidos com cordas de couro, Ötzi lança-nos um olhar cúmplice de mais de cinco mil anos. Após milénios de frio nos glaciares alpinos, na fronteira entre a Áustria e Itália, Ötzi ergue o seu mais de um metro e sessenta de altura numa sala com temperatura controlada no Museu de Arqueologia do Alto Ádige, em Bolzano, no norte italiano.

O passeio na montanha de um casal alemão em setembro de 1991 subtraiu ao anonimato dos gelos a múmia que para a genética significou a oportunidade de estudar uma ligação direta com os nossos antepassados. Ötzi ou a Múmia do Similaun, assim apelidada em homenagem ao local onde foi descoberta (o monte Similaun no vale de Ötztal), teria entre 30 e 45 anos no momento da sua morte, perto de 3250 a.C.

Ötzi tal como está exposto no museu alpino é uma recriação do corpo mumificado encontrado nas montanhas, protegido por um casaco de pele de ovelha e cabra e capa forrada de fibra de casca de tília. Sob três camadas de roupas protetoras, o homem do Neolítico escondia aquilo que em muitas latitudes e longitudes se tornara prática entre inúmeras comunidades. Um corte na pele, coberto, por exemplo, de cinza cicatrizava, desenhando uma marca permanente.

Sessenta e uma tatuagens desenham-se no corpo da Múmia de Similaun, muitas delas próximas de pontos de acupuntura. Localização estratégica, crendo que as tatuagens cuidariam de sanar doenças provocadas por parasitas digestivos e artroses. No seio da comunidade onde Ötzi habitava, a tatuagem não seria apenas uma urgência decorativa, seria também um consolo.

Desde o Paleolítico que o ser humano se tatua, das montanhas europeias às estepes asiáticas; das pradarias e dos desertos das Américas às savanas africanas e aos atóis da Oceânia. As comunidades humanas terão adotado estratégias comuns de socialização no mesmo período em que adotaram estilos de vida assentes na agricultura. As "tatuagens consolidavam a ideia de identidade. Por seu turno, podem ter sido usadas para afirmar a identidade individual, marcando a linhagem ancestral e específica", como refere Michelle Hegmon, arqueóloga da Universidade do Arizona, citada nas páginas da National Geographic em 2019 (2,000-year-old tattoo needle identified by archaeologists).

Na China, no seio da Dinastia Han, perto de 200 a.C., praticava-se ci shen ou wen shen, a "técnica de perfurar o corpo"

A solidão milenar de Ötzi interrompida pela descoberta acidental não é ato singular. Gronelândia, Alasca, Sibéria, Mongólia, oeste da China, Egito, Sudão, Filipinas e Andes partilham o facto de acolherem múmias tatuadas. A fronteira da Sibéria com a China assistiu na década de 1990 à descoberta de um corpo mumificado há 2500 anos. A "Dama do Gelo" teria 25 anos quando da sua morte. A mulher, pertencente ao povo nómada pazyryk, sucumbira à doença. Para o futuro, deixou o testemunho de um corpo preservado por 25 séculos, coberto de tatuagens que nos trazem animais míticos, como o gato, a ovelha e o peixe.

Partes da Sibéria e do Egito partilham um destino climático comum, com escassa humidade atmosférica, uma das condições para a preservação de corpos mumificados. Em 1896, uma equipa de arqueólogos resgatou para a luz do sol um casal que partilhava destino idêntico há mais de cinco mil anos. O deserto do Norte de África acolhia as múmias de um homem e de uma mulher pejados de tatuagens figurativas. Touros selvagens, ovelhas, símbolos serpenteantes cobrem os corpos dos dois egípcios do período pré-dinástico que repousam desde 1900 no londrino Museu Britânico. Para a posteridade foram apadrinhados como homem e mulher de Gebelein.

James Cook, o inglês que inventou a palavra "tatuagem"

O termo tatuar, que por definição respeita à técnica de introduzir sob a epiderme matérias corantes, não seria reconhecido antes do século XVIII. Atribui-se a James Cook, capitão da Marinha Real inglesa, o apadrinhamento da palavra. Cunhou-a Cook das línguas polinésias do Pacífico: tatau, numa alusão ao modo como repercutiam na pele os ossos finos ou dentes de tubarão como agulhas, instigados por pequenos martelos. Uma prática que na mitologia polinésia era tida como uma dádiva dos deuses aos humanos.

Do tattoo inglês para o tatouage francês, as tatuagens cumpriam uma viagem de circumnavegação ao planeta. A velha Europa redescobria as tatuagens e espantava-se com as pinturas geométricas faciais dos maoris, nativos da longínqua Nova Zelândia. Para aquele povo milenar, tatuar o rosto revelava nobreza, pertença, vínculo a um clã e guerra. A cabeça de um inimigo maori, abatido em combate, era conservada numa urna sagrada, uma prática que no século XIX suscitaria um comércio macabro com a Europa: cabeças tatuadas de guerreiros maori tornaram-se objeto de cobiça, alimento para tráfico entre os dois hemisférios terrestres.

Nas águas de um outro oceano, o Atlântico, viajou Martin Frobisher, explorador e corsário inglês que desembarcou no Novo Mundo em 1576, assim como nos dois anos seguintes. O navegador levava como missão encontrar a mítica passagem do Noroeste, rota de comércio para a Índia e China. Frobisher não a encontrou, voltando para a pátria com porões carregados de pirite (minério também conhecido como "ouro dos tolos") e com três nativos, membros da nação inuíte. Felinos, sóis, flores ornavam os corpos tatuados dos ameríndios que fascinaram Inglaterra.

Na Ásia, populações de territórios como as Filipinas e a Indonésia seguiam a prática da tatuagem. Na China, no seio da Dinastia Han, perto de 200 a.C., praticava-se ci shen ou wen shen, a "técnica de perfurar o corpo". No Pacífico, na ilha do Bornéu, causaram assombro aos europeus as tatuagens que reproduziam grandes olhos nas palmas das mãos dos mortos. No Japão, onde se crê que a técnica de "esculpir o corpo" é praticada há perto de dez mil anos, os ainu assumiram-na no passado como manifestação feminina. Um rito de iniciação naquele povo milenar, praticado ainda em tenra idade, algures entre os 6 e os 12 anos e que prosseguia até ao casamento. Sucessivos cortes próximos dos lábios da jovem, depois esfregados com cinza que, no final, desenhavam um eterno sorriso no rosto. Esta prática foi proibida em 1870.

Não terá sido pelos sorrisos nipónicos desenhados que o ainda jovem Jorge Frederico Ernesto Alberto, então com 16 anos, se enlevaria. O futuro rei Jorge V animou escândalos na imprensa da época. O século XIX não se preparara para ver o neto da rainha Vitória e do príncipe Alberto tatuar um dragão no braço. Fê-lo com um artista japonês de Yokohama. Isto numa Inglaterra que em 1879 adotara a tatuagem como forma de identificar criminosos. Milhares de anos antes, nas margens do Mediterrâneo, romanos e gregos assumiam prática idêntica para penalizarem escravos, criminosos e prisioneiros de guerra.

O século XIX não se preparara para ver o neto da rainha Vitória e do príncipe Alberto tatuar um dragão no braço.

Quanto a Jorge V, não tinha apenas em comum o facto de ser primo-irmão do imperador Nicolau II, último czar da Rússia. Este, no decorrer da viagem que o demorou em 1890 no Oriente, aproveitou a paragem nipónica para tatuar o antebraço com um dragão.

De escândalo a um modismo do século XIX, a tatuagem de Jorge V tornar-se-ia símbolo de estatuto social, não apenas na Grã-Bretanha como em França e do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos. A afeição pelas tatuagens no dealbar do século XX não era novidade no Velho Continente. Tribos germânicas, celtas, entre outras, da Europa Central e Oriental pré-cristã recorriam a pinturas corporais - eventualmente não tatuadas.

Guerra, estatuto e paganismo

Em 55 a.C., quando Roma expandia o império para noroeste e tocava na Britânia, os exércitos invasores depararam-se com povos que exibiam pinturas corporais. Usavam para o efeito um pigmento obtido da Isatis tinctoria, planta com flor usada por séculos na tinturaria. Na Escócia, os pictos, povo guerreiro (os franceses Uderzo e Goscinny, pais de Asterix, recordam-nos no álbum de banda desenhada de 2013), eram tatuados - ou pintados - com desenhos elaborados, inspirados na guerra. Acreditavam os pictos que as tatuagens conferiam poder e força - padrões que seriam mais do que expressão corporal, mas também uma impressão na alma.

Um espanto suscitado pelas tatuagens que também mereceu testemunho nas palavras de Amade ibne Fadalane. O escritor e viajante árabe do século X descreveu o encontro com uma tribo escandinava da Rússia: tatuados de "unhas e pescoço com padrões de árvores azuis-escuros".

O movimento de cristianização da Europa encerrou as tatuagens na categoria de manifestação pagã. Foram proibidas em 787 pelo Papa Adriano I, vistas como práticas demoníacas e vandalismo do próprio corpo. Dos séculos XX a XIII teriam os sucessivos movimentos das Cruzadas cristãs, rumo à Terra Santa a oportunidade de revelar a função utilitária das tatuagens. Serviam estas para identificar os soldados caídos em combate. Todos aqueles que tivessem a cruz tatuada no corpo recebiam enterro cristão.

O movimento de cristianização da Europa encerrou as tatuagens na categoria de manifestação pagã. Foram proibidas em 787 pelo Papa Adriano I

O interesse do Ocidente pelas peregrinações à Terra Santa traduzia-se, não raro, numa prova de presença naquele território. A tatuagem era testemunho perene desse facto. Em 1862, o rei Eduardo VII de Inglaterra terá sido secretamente tatuado com a Cruz de Jerusalém.

De símbolo de salvação a empecilho de um burlão, deixa-nos a história do quotidiano o caso de Roger Tichborne, desaparecido no mar em 1854 para reaparecer na Austrália 12 anos depois. De regresso a Londres reivindica o seu quinhão numa herança. Acusado de impostor pelos irmãos, Tichborne vai a julgamento em tribunal. A tatuagem da juventude que deveria ostentar no braço não existia. Roger nunca foi quem dizia ser. Arthur Orton, filho de um talhante, foi condenado a 14 anos de prisão.

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