O plano de Xi que põe Hong Kong em xeque

O papel da região administrativa especial tende a diluir-se com a integração na Área da Grande Baía, uma megalópole em que Shenzhen será o modelo a seguir.

Os avisos não são de agora. Em 2014, os habitantes de Hong Kong revoltaram-se contra o projeto de lei que, contra as expectativas, limitava as candidaturas à liderança do governo local à aprovação por Pequim. No ano seguinte, o Global Times, órgão de comunicação do Partido Comunista, criticava duramente Hong Kong e acenava com a cidade vizinha de Shenzhen, com a qual "tem de enfrentar a dura concorrência (...) em especial na inovação".

"Algumas pessoas radicais em Hong Kong abusaram da liberdade de expressão e protestaram contra tudo e mais alguma coisa, dando a Hong Kong o apelido de 'a cidade dos protestos'. Esta cultura distorcida de protestos tem, infelizmente, feito sentir o seu peso no turismo de Hong Kong", lamentava o jornal, enquanto apresentava Shenzhen como uma vila rural que em quatro décadas se tornou um "centro de inovação e logística", "lar de grandes marcas de telecomunicações como a Tencent e a Huawei". E a coroar os feitos da cidade, um instituto que avalia a competitividade das cidades chinesas estimava que o PIB de Shenzhen iria ultrapassar "muito em breve" o de Hong Kong, cujo "desenvolvimento económico foi sequestrado por grupos políticos radicais".

Num país sem liberdade de imprensa, um texto com este teor tem um peso próprio. Cinco anos depois, após nova revolta popular e meses de protestos devido ao projeto de lei da extradição, que punha em causa a autonomia judicial do território, uma nova lei de segurança nacional foi aprovada, retirando liberdades aos habitantes da antiga colónia britânica.

Xi Jinping, em visita de "inspeção" a Cantão, discursou em Shenzhen a propósito dos 40 anos em que aquela cidade foi elevada à categoria de zona económica especial. Essa reforma introduzida por Deng Xiaoping incluiu Zhuhai e Shantou, também na província de Cantão, e Xiamen na província de Fujian. Mas o caso de maior sucesso é o de Shenzhen, hoje com 13 milhões de habitantes, e o presidente chinês, na terceira visita à província, não poupou elogios ao "milagre" ali ocorrido.

Numa aparente contradição, Xi anunciou mais autonomia e menos regulamentação no novo plano económico quinquenal da cidade, mas ao mesmo tempo fez um apelo a uma "zona-piloto socialista".

No discurso de 50 minutos perante uma plateia de 800 pessoas com máscaras, Xi relembrou o percurso da antiga vila piscatória, cuja economia passou de 40 milhões de dólares em 1980 para 400 mil milhões em 2019, um crescimento anual médio superior a 20%. O total das exportações e de importações tem um crescimento ainda mais acentuado: 26,1% médio anual. E o rendimento per capita é agora o equivalente a 7900 euros, 31 vezes mais do que em 1985.

"Este é um milagre de desenvolvimento global que o povo chinês criou em conjunto", comentou para depois anunciar que a China vai continuar a construir mais zonas económicas especiais com base no modelo de Shenzhen, que "vai continuar a ser um campo de ensaio para novas reformas e abertura".

A pandemia, disse o líder chinês, apanhou o país na transição de uma economia de crescimento elevado para a qualidade elevada e agora o objetivo é desenvolver a procura interna com mais qualidade. Shenzhen tem um papel central: "Devemos aproveitar a profunda integração da indústria de Shenzhen com as universidades e os institutos de investigação."

Motor da Grande Baía

O presidente chinês não tem dúvidas sobre que cidade deve desempenhar o papel de "motor importante" para o plano da Área da Grande Baía de Cantão-Hong Kong-Macau, apresentado em 2016 e que tem como propósito criar uma potência tecnológica e financeira no sul da China, ligando Hong Kong, Macau, Shenzhen e outras oito cidades de Cantão. Perfazendo 70 milhões de pessoas, com um produto que a poria no top 15 dos estados por PIB, caso fosse um país, e com mais de 40% das patentes internacionais registadas na China, a região quer rivalizar com Silicon Valley, na Califórnia.

Para tal Xi deu instruções para "acelerar a construção do caminho-de-ferro intercidades na Área da Baía para promover o fluxo eficiente e conveniente de pessoas e bens" e piscou o olho aos habitantes das regiões administrativas especiais: "Devemos fazer pleno uso das principais plataformas de cooperação de Cantão, Hong Kong e Macau para atrair mais jovens de Hong Kong e Macau para estudar, trabalhar e viver no continente."

"Algumas pessoas podem pensar que [o plano da Grande Baía] indica uma diretiva para integrar Hong Kong em Shenzhen. Mas eu vejo-o mais como Shenzhen primeiro, Hong Kong segundo", comenta Charles Mok, um deputado pró-democracia de Hong Kong ao The Washington Post.

O plano prevê para Hong Kong a manutenção do estatuto de centro financeiro e que contribua com o know-how de investigação das suas universidades, alimentando Shenzhen, o centro tecnológico; e para Macau o aprofundamento do turismo e do comércio de divisas.

Prevê-se a criação de "incubadoras de tecnologia" em nove cidades, com centros de desenvolvimento de nanomateriais, telecomunicações e outras tecnologias.

O barco zarpará

Para a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, que tem sido amplamente criticada por estar ao serviço de Pequim e não de Hong Kong, esta é uma oportunidade a não perder.

"O governo central nunca me disse para fazer isto ou aquilo, mas eles deram-nos uma orientação, um enquadramento e uma oportunidade que Hong Kong pode agarrar", disse na terça-feira. Mas se Hong Kong não aproveitar o momento, o barco zarpará, acrescentou Lam, citando um aforismo cantonês que Xi empregou para exortar Hong Kong a colaborar com Pequim.

Opinião diferente tem o ativista pró-democracia Joshua Wong. "A melhor oportunidade para Hong Kong é enfrentarmos o mundo internacional, não a Grande Baía", disse o jovem condenado à prisão pelo seu papel nos protestos em 2014. "Estão a eliminar o estatuto especial de Hong Kong como centro global ao mesmo nível de Nova Iorque e Londres. Poderá este plano ser realizado mantendo dois sistemas legais diferentes? Há dúvidas quanto a isso", comentou ao The Washington Post.

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