A covid-19 roubou-lhes a oportunidade de ver Ronaldo, mas a vida já fez pior

Grupo de 57 refugiados entre os cinco mil adeptos que viram Portugal vencer a Suécia (3-0), no Estádio José Alvalade. O jogo ficou marcado pela ausência do capitão nacional, infetado com covid-19, mas eles fizeram a festa na mesma com os golos do Silva e do Jota.

Se eles soubessem...

Se os jogadores da seleção nacional soubessem que, entre os cinco mil adeptos presentes nas bancadas do Estádio José Alvalade, para ver o jogo de Portugal com a Suécia (vitória, por 3-0), estava um grupo de 57 jovens refugiados, 24 da Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas e 23 da Cruz Vermelha, que olhavam para eles como uma criança olha para um gelado. Muitos conhecem Portugal por culpa da seleção e de Cristiano Ronaldo, claro. A covid-19 roubou-lhes a oportunidade de ver o capitão português (infetado e em quarentena em Turim) ao vivo e a cores, mas não lhes rouba o sonho de uma vida sem violência, perseguição, humilhação e morte. O asilo concedido pelo Estado dá-lhes proteção até aos 25 anos de idade, mas a maior parte chega aos 18 anos e vai embora em liberdade e com a possibilidade de um futuro.

Se os jogadores soubessem que muitos dos que vibraram com os golos de Bernardo Silva e Diogo Jota foram perseguidos, raptados, feitos reféns, violados e traficados pelos mais variados motivos. A religião, a etnia ou a orientação sexual são alguns dos muitos motivos que levaram muitos deles a fazer travessias impossíveis de milhares de quilómetros, seja no Afeganistão, na Líbia, na Síria, no Líbano ou no Irão.

Se eles soubessem que Akin (chamemos-lhe assim) chegou a Portugal na terça-feira e menos de 24 horas depois estava a vibrar com a seleção no campo onde um ídolo seu já jogou.

Se eles soubessem que Leke entrou em delírio completo quando soube que ia ver o jogo ao vivo. Tinham-lhe dito para estar pronto para ir ver jogar Portugal e ele pensava que era na televisão... Foi ao estádio a convite da Federação Portuguesa de Futebol e do Comité Olímpico de Portugal.

Se eles soubessem que Kwame está em Portugal depois de ser resgatada a uma vida de tortura e mutilação. Foi feita refém por uma milícia e persuadida a ser violada vezes sem conta com choques elétricos. Tem o corpo cheio de cicatrizes e marcas, mas nenhuma tão profunda como a que guarda no fundo da memória. Não estava sozinha nesse destino cruel e viu o único familiar ser eletrocutado à sua frente.

Se eles soubessem que chegam cheios de trauma mas também de esperança. "Quando chegam e lhes pergunto o que gostariam de fazer e quem gostariam de conhecer as respostas são quase sempre as mesmas: aprender português e a conhecer Cristiano Ronaldo. Muitos dizem que escolhem Portugal por causa da seleção e porque Portugal não é racista e trata bem os jovens. Estas são as razões que mais apresentam", revelou Dora Estoura, da Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas, explicando que a maior parte não pensa em voltar ao país de origem: "Sabem que seriam torturados ou mortos."

Se eles soubessem que muitos aceitaram a exploração laboral e sexual como forma de pagamento para uma vida melhor na Europa. Cada um traz uma história diferente para contar. Uma pior do que a outra. "Alguns deles deixam o seu país por razões étnicas, outros viram as próprias famílias serem assassinadas. Os rapazes fogem muito por questões políticas, para não serem forçados a ser crianças-soldados. As raparigas fogem, sobretudo, da mutilação genital feminina e do casamento forçado", explicou Dora, algo comovida ao recordar algumas das histórias.

Se eles soubessem que apesar de não falarem português e de não conseguirem dizer Bernardo, gritaram bem alto "Silva", quando o jogador do City marcou o primeiro golo do jogo. E que sorte. Ficaram mesmo perto da baliza onde ele marcou. Que felicidade poder festejar com eles de lá do alto da bancada. A alegria era tal que mesmo com o distanciamento físico obrigatório de umas quatro ou cinco cadeiras entre eles e do uso da máscara deu para alguma galhofa... como gritar penálti quando João Félix sofreu uma falta a meio-campo. Foi a risada geral.

Preso em dois metros quadrados e obrigado pelos guardas a beber a própria urina e a comer as fezes

Se eles soubessem que as violações não são um exclusivo feminino. Como Zuri preso em dois metros quadrados e obrigado pelos guardas a beber a própria urina e a comer as fezes. Se eles soubessem o que os 23 refugiados dos 25 (21 afegãos e quatro egípcios) que a Cruz Vermelha recebeu na semana passada vieram de Lesbos (Grécia). Portugal candidatou-se a receber cerca de mil depois do incêndio que dizimou o centro de refugiados grego onde estavam cerca de 13 pessoas. Estes foram os primeiros 25 que chegaram a Portugal, a 7 de julho. Dois deles não foram à bola, ficaram de castigo. O educador achou que era uma boa oportunidade para lhes mostrar que tiveram um comportamento incorreto e que isso traz consequências.

Se eles soubessem que o crime dos quatro egípcios é serem católicos e haver uns muçulmanos interessados nas suas terras, tomando-as à força. Ou que o pai de Farid pagou para ele sair do Afeganistão quando o Daesh tomou conta da região montanhosa onde os americanos se instalaram na procura por Bin Laden. Era um homem de negócios importante, mas como fazia negócios com os soldados americanos foi perseguido e roubado, optando por pagar para levarem o filho para a Grécia para impedir que fosse recrutado pelos talibãs. Há muitos casos em que são as próprias famílias que, tendo algumas posses, pagam para eles saírem do país e virem para a Europa. Outros fogem depois de perderem a família. Muitos acabam explorados, vendidos e traficados.

Se eles soubessem que Saifudin saiu escondido por entre burros carregados de droga e caminhou pelas montanhas de Afeganistão, Irão e Turquia até chegar de barco à Grécia.

Se eles soubessem que muitos deles só descobriram que podiam sorrir depois de chegar a Portugal e que a seleção teve um papel importante para os aproximar ao país que os acolheu e que talvez um dia os possa integrar. Quando chegam aos centros de refugiados são convidados a preencher um formulário, onde é perguntado se praticam ou querem praticar desporto e qual a modalidade. Depois entra em ação o Comité Olímpico de Portugal, que lhes fornece equipamentos e encontra clubes ou associações dispostos a recebê-los. "A maioria quer ser jogador de futebol para ser como o Cristiano Ronaldo", confessou Maria Machado, coordenadora do projeto Viver o Desporto - Abraçar o Futuro, do COP, que contempla já dois refugiados olímpicos: Farid Walizadeh (boxe) e Dorian Keletela (atletismo).

Se eles soubessem que há um miúdo que joga muito bem, que vai começar a treinar no Casa Pia e que sonha um dia poder ser jogador de futebol...

Talvez um dia eles (os jogadores) saibam o impacto que tiveram na vida deste grupo de refugiados...

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