Assumir a culpa com desculpas esfarrapadas

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou o mês de novembro querendo assumir a culpa pelo que a Direção-Geral da Saúde e o Governo fizeram mal. O primeiro-ministro, António Costa, não chegou a agradecer, mas fechou a semana a assumir que a culpa da má comunicação é dele. A minha experiência diz-me que não se trata de humildade democrática, postura na vida que resiste ao teste do algodão quando se trata de pedir desculpa pela culpa que se sabe ter. Alguém ouviu Marcelo ou Costa pedirem desculpa?

Encontrar desculpas é o caminho oposto de pedir desculpas, e isso foi o que Marcelo e Costa mais fizeram nas entrevistas que deram. Não é que não existam atenuantes para a culpa pelos erros cometidos, nem é caso para que não se reconheçam as dificuldades acrescidas na condução do combate a um vírus que está permanentemente em atividade, faça sol ou faça chuva. Coisa bem diferente é ser apanhado distraído e não se dar conta de que o vírus tinha voltado em força em outubro, quando em Portugal só contávamos com ele em dezembro. Estar a dormir na forma não serve como desculpa.

Pior mesmo são os erros que se repetem à exaustão. Querer passar a mão pelo pelo, ao mesmo tempo que se puxa as orelhas, é aquele tipo de educação que nenhum pediatra aconselha. Os portugueses, aliás, não são nenhumas criancinhas e sabem que as leis se fazem para cumprir. Não há nenhuma imunidade de grupo para as restrições. O facto de a maioria cumprir o uso obrigatório de máscara no espaço público não iliba os que persistem em não o fazer. É como se não houvesse problema nenhum por andarem umas centenas de malucos a 200 quilómetros por hora na autoestrada, porque os restantes vão a cumprir os limites de velocidade. Elogios ao "comportamento cívico por parte dos portugueses", senhor primeiro-ministro? Andasse o civismo lá perto disso e os números da pandemia não seriam o que são.

Olhando para o que aconteceu ontem no Porto, dá para perceber que há muita gente a ficar desesperada com a perspetiva de ficar sem emprego, mas a autoridade tem de ser preservada. As pessoas precisam de saber que podem confiar em quem está a dirigir os destinos do país. Convinha igualmente que se apressassem a ver com olhos de ver o que vai acontecer a uns largos milhares de trabalhadores, garantindo que vão ter o apoio de que precisam.

Este é também um momento em que é preciso ouvir o Presidente da República. Esqueça que tem eleições daqui a dois meses. Ou melhor, lembre-se de que tem eleições daqui a dois meses e que também será julgado politicamente pelo que for capaz de dizer e fazer neste tempo em que muitos dos seus concidadãos podem estar a perder a esperança. Fazer acordos com a extrema-direita é só uma consequência da força eleitoral que ela ganha por haver tanta injustiça. Deixar que o exército de deserdados continue a crescer é o que faz sorrir André Ventura, o xenófobo racista que vai disputar as presidenciais com Marcelo Rebelo de Sousa.

Sem culpa, com culpa, é tempo de os dois políticos que lideram o país voltarem a unir esforços. Para Portugal vencer a pandemia, para a economia poder voltar a crescer, para as empresas sobreviverem, para fazer crescer o emprego. Deixem-se de desculpas e falem com clareza aos portugueses. A verdade pode ser dura, mas faz sempre menos mal do que as falinhas mansas.

Jornalista

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