Lagarde exige a Centeno e ao Eurogrupo que voltem a gastar mais

BCE vai pagar aos bancos para que estes emprestem dinheiro às empresas, mas diz que são as Finanças dos países que têm de fazer a maior parte do combate à pandemia de coronavírus.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE) decidiu ontem, quinta-feira, fazer uma pressão inédita sobre os ministros das Finanças dos países da zona euro no sentido de estes começarem a gastar mais dinheiro, de forma coordenada, no combate aos efeitos da crise do coronavírus na economia.

A ideia de fundo de Christine Lagarde é que não pode ser o BCE a liderar este combate, como aconteceu no caso das dívidas soberanas, mas sim os governos nacionais, que hoje têm mais margem de manobra para o fazer. O recado é para todos, mas cabe melhor no caso da Alemanha, que tem sido inflexível na manutenção de uma situação de défice zero.

Em todo o caso, Frankfurt avançou ontem com medidas direcionadas, mais dinheiro a custo zero para os bancos, supostamente, passarem para a economia (empresas privadas, sobretudo) e financiarem os negócios a preços super-reduzidos.

A par disso, o BCE também anunciou um "alívio" temporário das regras de capital e operacionais que os bancos são obrigados a respeitar de modo a conseguirem reagir melhor aos efeitos do coronavírus no setor financeiro. Durante algum tempo, alguns rácios podem ser violados em nome da luta contra a doença.

O banco central dos 19 países do euro anunciou uma nova linha de operações de empréstimos de longo prazo em que, na prática, paga aos bancos (uma taxa de juro negativa de cerca de 0,25%) para que estes contraiam empréstimos junto do BCE e usem as verbas para financiar a economia real, para aliviar a situação financeira das empresas sob stress ou com falta de liquidez, sobretudo as mais pequenas.

Anunciou ainda um reforço do enorme programa de compra de dívida aos bancos (mais 120 mil milhões de euros até ao final do ano em cima dos 20 mil milhões de euros em compras mensais já em vigor), mas desta vez mais focado na aquisição de dívida privada, empresarial, em vez de dívida pública, explicou a ex-diretora do FMI.

Mas não mexeu nas taxas de juro de referência, que continuam em mínimos históricos, o que provocou desilusão nos mercados. As bolsas afundaram de forma dramática na Europa e fora dela.

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de política monetária (que ainda foi presencial, em Frankfurt, a próxima já será por teleconferência), Lagarde foi confrontada sobre se está preocupada com o facto de os Estados da zona euro incorrerem outra vez em aumentos substanciais de dívida por causa desta pandemia, apagando os "progressos" obtidos nos últimos anos.

A resposta de Lagarde, que assumiu um tom mais sério e áspero do que é habitual, foi que agora é que é a altura de gastar. "Estou particularmente preocupada com a complacência e os processos de resposta lentos que possam ser demonstrados pelas autoridades orçamentais da zona euro."

Logo de seguida deixou um recado direto a Mário Centeno e ao grupo de ministros que lidera. "E espero sinceramente que na reunião do Eurogrupo, na próxima segunda-feira, baseada nas recomendações e nas diretrizes que vão ser dadas na sexta-feira pela Comissão Europeia, se dê um passo decisivo e determinado na direção desta resposta orçamental ambiciosa e coletiva que estamos a pedir."

Dramatização máxima

Lagarde dramatizou bem a situação perante uma sala com apenas alguns jornalistas e que costuma estar quase sempre lotada. Muitos estavam a trabalhar remotamente. "As economias da zona euro estão a enfrentar um grande choque", um choque "grave", mas que a banqueira central espera que seja "temporário".

Em todo o caso, os "riscos de liquidez podem materializar-se", muitas empresas podem ficar subitamente sem dinheiro porque muitos negócios estão a afundar e outros paralisados com a falta de procura. Veja-se o caso do turismo, das viagens, dos hotéis.

Para a presidente do BCE, "agora é necessária uma orientação orçamental ambiciosa e coordenada, tendo em vista as perspetivas fracas para a atividade económica e para evitar a materialização de riscos negativos adicionais".

Lagarde congratulou-se "com as medidas já tomadas por vários governos para garantir recursos suficientes no setor de saúde e fornecer apoio às empresas e funcionários afetados", como é o caso das garantias e linhas de crédito de emergência que vários países, Portugal incluído, têm vindo a anunciar. Mas é preciso mais "para complementar e reforçar as medidas de política monetária adotadas atualmente", alertou.

O BCE, insistiu Lagarde, está a fazer a sua parte, e na reunião "tivemos uma decisão unânime sobre o pacote anunciado". No entanto, a resposta contra a crise desencadeada pelo novo vírus "dependerá da velocidade, da força e da abordagem coletiva de todos os atores, especialmente das autoridades orçamentais", isto é, dos responsáveis das Finanças.

"É provável que com isto haja um aumento nas emissões de dívida", mas "todos os governos precisam de estar neste barco e prontos para agir", acrescentou. "O BCE está a disponibilizar a todas as empresas meios de refinanciamento substanciais a taxas muito boas", mas "a resposta deve ser orçamental, em primeiro lugar", insistiu. Assim é porque "estamos perante algo diferente da última grande crise financeira".

À beira da recessão, outra vez

O BCE atualizou também as previsões de crescimento da zona euro em 2020 e o resultado é sombrio. Em dezembro de 2019 esperava que crescesse apenas 1,1%, mas agora a projeção cai para 0,8%.

Pior. Este valor de 0,8% já estará "desatualizado" uma vez que foi feito com informação até 18 de fevereiro, avisou Lagarde. A tendência será para piorar, tendo em conta a propagação do vírus às economias, sobretudo em março.

O BCE fez ainda cenários de choque caso a crise do coronavírus se prolongue. Estima que, num cenário "ligeiro", a zona euro pode estagnar (0% em 2020) e que num quadro "severo" possa ocorrer uma recessão que pode ir até uma quebra de 0,6% da economia neste ano.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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