Medidas de contenção estão a funcionar, mas não é altura para baixar a guarda

O número de novos infetados em Portugal diminuiu nesta semana, o que deverá ter um impacto positivo nos casos ativos e nas mortes dentro de pouco tempo. O resultado é fruto do isolamento social, que tem de continuar a ser respeitado, dizem os especialistas.

Com otimismo. Assim olha a ciência para as curvas e as linhas que traçam a evolução do novo coronavírus em Portugal. Com agrado moderado e apreensão, olham os médicos. As medidas de contenção estão a provar ser eficazes no combate ao covid-19: é notório tanto para o virologista Pedro Simas - quando analisa os números em frente ao seu computador no Instituto de Medicina Molecular, da Universidade de Lisboa, sem pausa para a Páscoa mesmo em casa - como para o presidente do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas, Fausto Pinto. No entanto, os médicos são mais cautelosos na interpretação dos valores. Têm receio de que o isolamento social e as medidas de higiene sejam descurados com as boas notícias.

A pandemia provocou até agora 435 mortes e 15 472 casos confirmados no país, segundo os dados da Direção-Geral da Saúde desta sexta-feira. Nas últimas 24 horas, foram registados mais 1516 doentes - o maior aumento absoluto desde que o surto chegou a Portugal. No entanto, o investigador Pedro Simas atribui essa discrepância, numa semana marcada por taxas de crescimento mais reduzidas, ao aumento da capacidade de testagem. "Quanto maior for a capacidade de testar, mais casos vamos ter", refere.

"Os portugueses vão ver que há alguns parâmetros que vão continuar a aumentar. Só daqui a algum tempo é que vamos poder respirar de alívio", continua. Quando? Ninguém sabe ao certo. Mesmo assim, "neste momento, há muito boas notícias, porque os indicadores dizem uma coisa inequívoca: o número de novas infeções reportadas todos os dias parece que está a diminuir e isso permite-me projetar que no futuro o número de mortes reportadas por dia vai diminuir e número de casos ativos também. Já o número total de infetados vai continuar a aumentar, principalmente com o aumento da testagem", explica o virologista do Instituto de Medicina Molecular.

Já o médico do Centro Hospitalar Lisboa Norte e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Fausto Pinto, sem deixar de reconhecer "que a curva deixou de ser exponencial e está mais linear", lembra que "este é um longo processo". "Toda a gente quer que isto passe rapidamente, mas não passa e é importante manter as medidas que estão a ser tomadas", diz.

Sem uma vacina à vista para controlar a propagação do vírus restam duas opções: testar mais a população (para a presença de covid-19 e para saber a imunidade portuguesa - o que ainda não acontece, mas estará para breve, prometem as autoridades de saúde) e o isolamento social. "Não se pode aligeirar. Não nos podemos esquecer de que somos o 15.º país do mundo com maior número de casos. Temos mais [infetados] do que a Coreia do Sul [um dos países que tinham com mais doentes no início do surto]", diz o médico Fausto Pinto.

O primeiro-ministro, António Costa, tenciona seguir este conselho, tendo afirmado nesta semana que a saúde dos portugueses está à frente da economia e que as medidas de contenção continuarão em vigor. Sabe-se agora que as aulas presenciais vão ser suspensas no terceiro período do ano letivo definitivamente até ao 10.º ano e que as provas de aferição e os exames nacionais até ao 9.º ano foram cancelados; os exames dos 11.º e 12.º anos estão adiados. Também é já quase certo que o estado de emergência será prolongado, pela segunda vez, depois de o Presidente da República ter defendido isso mesmo, nesta sexta-feira, no Palácio de Belém, em Lisboa.

"Está formada a minha convicção de prorrogar até 1 de maio às 24 horas [o estado de emergência]. Irei ouvir os especialistas e será a Assembleia da República a autorizar, mas não podemos brincar em serviço. Não podemos afrouxar", declarou Marcelo Rebelo de Sousa.

Para os dois especialistas é claro: não se pode facilitar e ficar em casa salva vidas. "Como se trata de um vírus respiratório e este precisa de alguma proximidade para ser transmitido de pessoa em pessoa, se bloquearmos essa proximidade bloqueamos a transmissão", diz Pedro Simas.

Menos doentes nos cuidados intensivos

Outro indicador que se mostrou mais positivo nesta semana foi o número de internados em cuidados intensivos, que desde quarta-feira tem estado a diminuir. No total, há agora 226 pessoas em estado considerado grave no país (menos 15 do que no dia anterior), num universo de 1179 hospitalizados.

"Ainda é muito cedo para conseguirmos tirar alguma conclusão sobre a que corresponde esta diminuição. O certo é que temos vários serviços de medicina intensiva a reportar-nos altas de doentes. Ao mesmo tempo, parece ter existido uma estabilização do número de doentes admitidos", explica o médico João Gouveia, presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para o covid-19.

A medicina intensiva é sempre apontada como uma das maiores preocupações do país, uma vez conhecidas as "carências crónicas" do Serviço Nacional de Saúde nesta especialidade. Portugal é o quarto país da União Europeia com menos camas nos cuidados intensivos: 6,4 por cem mil habitantes. Menos do que Espanha, por exemplo, que tem 9,7 por cada cem mil pessoas, mas mesmo assim, em Madrid, já foi necessário o dobro da capacidade disponível, em março.

Aos portugueses faltam ainda médicos intensivistas, depois dos equipamentos necessários neste serviço terem aumentado para o dobro. Portugal duplicou a sua capacidade de ventilação, com as compras do Ministério da Saúde e com as doações de diversas entidades, desde câmaras municipais a clubes de futebol e empresas, existindo agora mais de 2500 ventiladores no país.

"Falta intensivistas? Sim, porque já são poucos à partida, mas vamos formar mais", garante o médico de cuidados intensivos João Gouveia. Mediante a necessidade, especialistas de outras áreas já habituados a lidar com doentes críticos serão treinados e orientados para reforçarem os serviços.

"Se conseguirmos aplanar a curva - como parece estar a acontecer -, e com as novas disponibilidades de ventiladores, se calhar não vamos perder a capacidade de resposta", pensa o intensivista do Hospital Amadora-Sintra João Mendes. É uma esperança. E para ser confirmada, dizem os especialistas, as medidas de contenção não podem ser descuidadas.

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