Conversa entre um neto e um avô com Alzheimer

O romance da escritora catalã Tina Vallès tem como pano de fundo o alzheimer, mas em duzentas páginas nunca escreve essa palavra. Prefere deixar o neto e o avô conversarem sobre o que a memória preserva.

A escritora Tina Vallès (Barcelona, 1976) publicou o romance A Memória da Árvore, que tem a particularidade de tratar da perda da memória devido à doença de Alzheimer mas sem referir essa palavra durante toda uma narrativa que conta os diálogos entre o avô e o neto. O livro chegou recentemente às livrarias portuguesas e a autora explicou ao DN que o escreveu devido à necessidade de compreender como é o processo de construção das memórias.

"O romance nasce de um desafio com que me confrontei há cinco anos, quando quis perceber porque certas vivências se tornam memórias e outras não", explica. Não será por acaso que Tina Vallès escolhe como personagens um neto e um avô: "Se tudo corre bem, as primeiras recordações de uma pessoa têm muito que ver com os avós. Por isso construí o livro sobre esta relação, de modo a demonstrar que a memória é em muito a nossa identidade." Acrescenta: "A dado momento, o romance tornou-se uma espécie de investigação literária de como começamos a ser quem somos."

Vallès não pretendia que o romance alterasse a perceção dos leitores sobre o Alzheimer, daí que apagasse o nome da doença das páginas para que, refere, "o Alzheimer servisse apenas como 'figura literária' que revelasse o que investiguei sobre as recordações e a memória".

Qual a razão de escrever sobre uma relação entre duas gerações que estão muito separadas?

Porque estou bem no meio dessas idades, sendo espectadora de um relacionamento semelhante, aquele que as minhas filhas vivem com meus pais. Além disso, a criança serve para eu contar como começa a construir-se a sua identidade e a sua memória; quanto ao avô, para relatar como termina e como desaparece. Funcionam como vasos comunicantes.

Sente que está a perder-se a memória na nossa sociedade?

Creio que sempre vivemos esse sentimento de perda, porque existe uma parte que desaparece irremediavelmente. No entanto, hoje existe mais gente preocupada em recuperar a memória daquilo que se viveu, a memória histórica, e isso é muito bom. Uma coisa é a memória e outra é o passado, aquele que capturamos nos museus mas não utilizamos para compreender o presente e o futuro. Creio que se confundem estes dois conceitos. A memória é mais do que o passado, é pensar o passado.

Até que ponto a vida quotidiana é inspiradora para escrever um livro?

Comigo sempre o foi. A minha fonte de ideias é a realidade quotidiana e a mais rotineira, por isso nunca deixo de ter atenção ao que está à minha volta.

Acredita que este livro possa interessar aos leitores mais jovens, que atualmente leem muito pouco?

Na Catalunha este romance está a ser lido nas escolas. Leitores de 12, 13 e 14 anos leem o livro e, quando visito os estabelecimentos e conversamos, fico surpreendida com o interesse. Também é um livro sobre a morte, e esse é um tema que preocupa muito os adolescentes. Escrevi o romance a pensar no leitor adulto, mas a idade da leitura pouco tem que ver com a idade biológica.

Como vê o futuro do livro em papel com a preferência da juventude pelo digital?

O suporte não me preocupa, antes o facto de a juventude ler ou não. Se é em papel ou no monitor é-me indiferente. Claro que prefiro ser lida nos livros em papel, mas também sou uma leitora virtual constante.

Quem a conhecer bem vai rever situações da sua própria vivência ou este livro nada tem de autobiográfico?

Situações não, pormenores sim. Não é um romance autobiográfico, mesmo que a minha família possa reconhecer situações mais íntimas.

O seu estilo é de pequenos capítulos. Não se sente obrigada a sintetizar muito as suas ideias?

Não é que me sinta "obrigada", é uma tendência natural em mim pois primeiro escrevo e só depois vem a reescrita e os cortes. Venho do conto, um género em que me sinto mais à vontade e que necessita de uma grande síntese.

Escolhe uma frase inicial de Gonçalo M. Tavares. A literatura portuguesa tem algum significado para si?

Tavares é um escritor-modelo para mim. Já li outros autores portugueses, além dos inevitáveis - Eça de Queirós, Fernando Pessoa e José Saramago -, mas ele é o autor vivo que mais admiro. Tive sempre muito em conta a sua literatura-bloom enquanto escrevia este livro. Agualusa e Mia Couto são outros autores que leio em português. Também fiquei obcecada enquanto estudava Filologia Catalã na Universidade de Barcelona com a freira Mariana Alcoforado.

Qual tem sido a reação a este livro?

Muito boa. Foi publicado em catalão há ano e meio e vai na quarta edição. Foi traduzido para castelhano, italiano e agora em português. Segue-se o francês, o turco e o galego. Estou muito contente.

Só a literatura é que pode fazer que a última frase deste romance - "Mas o meu avô diz que as recordações não se podem repetir" - não seja verdadeira?

A literatura é uma forma de registar a memória e de refletir sobre o passado. Escrever é não esquecer, mesmo que a recordação e a vivência sejam intransferíveis.

A Memória da Árvore

Tina Vallès

Editora D. Quixote

208 páginas

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