Santa Maria vai operar 500 doentes não covid em hospitais privados

Cirurgiões de sete especialidades do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte começam nesta quarta-feira a operar os seus doentes em blocos operatórios de unidades privadas e do setor social. O objetivo é manter a resposta cirúrgica aos doentes não covid e diminuir os tempos de espera.

"O que aprendemos com a primeira fase da pandemia não é para se repetir na segunda." A frase é do presidente do conselho de administração (CA) do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), que integra os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, e explica o porquê do protocolo agora assinado com cinco unidades, quatro privadas e uma do setor social, o Hospital SAMS, e que começa nesta quarta-feira a ser executado.

"Tivemos a experiência da primeira fase, em que a suspensão da atividade teve um peso forte na acessibilidade dos doentes aos cuidados cirúrgicos, tornando-se mais difícil e mais prolongada. Portanto, o que aprendemos com a primeira fase queremos corrigir agora na segunda", argumentou ao DN Daniel Ferro.

Foi nesse sentido que decidiram avançar com uma solução alternativa para continuar a dar resposta aos doentes não covid nas áreas cirúrgicas. Uma solução que assenta no facto de cirurgiões do Lisboa Norte poderem usar os blocos operatórios de outras unidades, as equipas técnicas dessas mesmas unidades e todo o material para operar os seus doentes. "Vamos usar toda a estrutura das unidades com as quais estabelecemos este protocolo, apenas com exceção das equipas cirúrgicas, que essas serão as do Lisboa Norte. A estas unidades competirá assegurar tudo o resto. Ou seja blocos operatórios, materiais, anestesistas, internamento, medicamentos e urgências", diz Daniel Ferro.

Trata-se de "um plano com uma dimensão gigantesca", sublinha o presidente do CA, que envolve, além da contratação do tempo em bloco, "a contratação de 250 camas de internamento, das quais 50 são de cuidados intensivos, e outros recursos". Daniel Ferro ressalva que, dependendo da pandemia, "este plano poderá ter de ser cumprido na sua totalidade ou até 70% ou 80% do acordado". O objetivo "é reduzir os efeitos da segunda fase da pandemia ao mínimo" no que toca a cuidados cirúrgicos aos doentes não covid.

Para já está prevista a realização de cirurgias a 500 doentes das especialidades de neurocirurgia, cirurgias cardíaca, vascular, plástica, ortopedia, otorrino e urologia, que já tinham intervenções agendados ou que tinham expectativa de que tal acontecesse entre novembro e janeiro de 2021. "São doentes que não conseguimos operar na instituição e que vamos operá-los com as nossas equipas cirúrgicas noutras instituições, que reúnem a mesma qualidade, com todas as garantias e naturalmente com a mesma segurança", assume Daniel Ferro.

Plano para operar doentes não covid envolve cinco unidades, quatro privadas e uma do setor social. Em causa está a contratação de 250 camas, das quais 50 de cuidados intensivos, bem como outros recursos, anestesistas, equipas técnicas, medicamentos e urgências, caso sejam necessários.

Este protocolo surge também na sequência de a 18 de novembro o CHULN ter decidido suspender toda a sua atividade cirúrgica não urgente e prioritária, tendo em vista, como anunciaram, a resposta à evolução da pandemia.

Segundo Daniel Ferro, "o centro teve necessidade de mobilizar cerca de 150 profissionais, entre médicos, enfermeiros e assistentes operacionais, das suas áreas para a área de assistência ao doente covid, mas considerámos que não era por isto que estes 500 doentes, que deveriam ser operados durante estes três meses, deixariam de ter uma resposta, embora seja uma resposta diferente".

O protocolo agora assinado vai decorrer até ao final de janeiro, altura em que deverá ser reavaliado. "Nesta altura, faremos um ponto de situação para se apurar da necessidade ou não de se manter este tipo de resposta. Agora, é ainda prematuro saber se no final de janeiro já estaremos em condições de restabelecer a capacidade de funcionamento do centro hospitalar ou se ainda teremos de manter algumas atividades suspensas." OU seja, tudo irá depender da evolução da pandemia.

Por agora, existe esta resposta, que também já está a ser usada por mais unidades do país e nomeadamente da Grande Lisboa. Conforme noticiou o DN há duas semanas, esta solução estava a ser equacionada por mais hospitais, caso do Garcia de Orta, em Almada, cujas equipas de cirurgiões começaram a operar os seus doentes nos hospitais da Cruz Vermelha e dos SAMS logo no início de novembro. O Beatriz Ângelo, em Loures, gerido pelo Grupo Luz Saúde, também aguardava luz verde da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo para começar a fazer o mesmo nas próprias unidades deste grupo. O argumento invocado ao DN por estes hospitais era o mesmo: "Dar resposta aos doentes não covid, não os deixando para trás", até porque, e como sublinha Daniel Ferro, "falamos dos doentes covid, mas estes são apenas 10% a 15% do total dos doentes que recebemos, a maior parte são os doentes não covid".

Daniel Ferro reafirma que o objetivo do protocolo agora assinado pelo centro que dirige "é manter a resposta a estes doentes", corrigindo o impacto que teve a suspensão desta atividade na primeira fase, salientando mesmo que, "mais do que evitar o aumento das listas de espera, porque estas temos vindo a diminuir - tínhamos dez mil doentes em lista de espera no início do ano e agora temos oito mil -, este protocolo servirá para reduzir os tempos de espera cirúrgicos do doente".

Ou seja, "para se dar resposta a uma pandemia durante vários meses, um doente não urgente ou prioritário teria de esperar mais do que o normal e "é isso que não queremos, não queremos que os doentes, em vez de esperarem seis meses, tenham de esperar um ano ou mais por uma intervenção cirúrgica".

Cirurgiões irão operar no privado no mesmo horário que deveriam operar no Lisboa Norte.

Protocolo para sete áreas

Neste momento, o CHULN tem apenas protocolo para cirurgias em sete áreas, "porque nas restantes a capacidade disponível do centro hospitalar mantém-se. "Há áreas de onde não precisámos de deslocar profissionais para o plano de resposta à covid e que estão a funcionar ao nível anterior à pandemia. "Não têm lista de espera e a situação de acessibilidade aos cuidados cirúrgicos está perfeitamente controlada", explica o presidente do Lisboa Norte. Entre os dois hospitais, Santa Maria e Pulido Valente, "o centro tem 12 serviços cirúrgicos e há seis que mantêm a sua atividade normal".

O presidente do CA defendeu ao DN acreditar que esta solução deverá obter uma adesão por parte "dos doentes muito próxima dos 100%", o que é muito mais do que a adesão ao Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), em que "só cerca de 10% a 15% dos cheques emitidos são aceites pelos doentes". Estes, argumenta Daniel Ferro, "não aceitam tão bem serem operados em instituições diferentes e por outros médicos que não os seus. Esta solução é diferente, os doentes são operados pelos próprios médicos, embora noutra estrutura hospitalar".

Por outro lado, sustenta, "as próprias equipas sentiram-se também compensadas por lhes estarmos a proporcionar uma alternativa para a sua atividade, que por uma razão de força maior não é possível proporcionar neste momento no centro hospitalar".

Questionado se estes cirurgiões seriam pagos à parte por este serviço, Daniel Ferro explica que "este plano é essencialmente substitutivo dos tempos operatórios que os cirurgiões já normalmente teriam no hospital".

Quanto vai custar à unidade, Daniel Ferro não disse, mas defende ser uma solução com vantagens para o doente, para os profissionais e para o centro hospitalar. O presidente do CA confirma que este processo teve de levar à consulta de todos os grupos de grandes unidades privadas - como Luz Saúde, Lusíadas e CUF, bem como outras unidades do setor social.

"Foi preciso analisar com cada uma a capacidade de que poderiam dispor para integrar este plano do Lisboa Norte. Por isso, é um plano que envolve cinco hospitais, até porque não seria possível concentrar toda esta atividade num só hospital, eles próprios terão de manter grande parte da sua atividade."

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